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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Indignação à americana
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sábado, 24 de setembro de 2011
A via única
Este é um país estranho, de posições definitivas um dia e matizadas no seguinte, de rigidismos inamovíveis à terça e de flutuações e ambivalências à sexta, de uns a dizer assim e outros da mesma laia partidária a dizer assado no mesmo telejornal, tudo sob a pressão constante do poder dos interesses em que os agentes dos interesses, empresas e governantes, estão directa e indirectamente envolvidos. A teia urdida de imbricações entre o privado e o público que alastrou com a “economia da democracia”, e que se materializou por esse ascender de uns tantos – as mesmas e novas famílias de poder ligadas a partidos – ao controle dos dinheiros, aos negócios europeus, às possibilidades negociais criadas pela globalização e pelos caminhos ilícitos dos offshores, detém o poder, isto é, detém o poder que sobra do nosso quadro de dependências em contexto europeu e global e jogam-nos de um modo que pouco atende às necessidades nacionais, entendidas estas numa lógica relacional, não fechada.
O caminho da decisão – declarada repetidamente como a mesma até à exaustão como no TGV - vai numa direcção única até que, no tempo do que a memória curta praticada e estimulada pela política do espectáculo motiva, e cento e oitenta graus posicionais depois, assumidos agora sem empolgamento definitivos, estamos no exacto oposto e a deslizar para o mesmo tipo de tensão autoritária na exposição da decisão contrária. É o que agora sucede com o TGV e a ver vamos como, pois rapidamente se instalará, com a clarividência que normalmente resulta do debate à moda portuguesa, a confusão necessária a que as coisas aconteçam num quadro em que a perda de contornos do que se diz vá engrossando uma amálgama ideológica de que resulta justamente a opacificação das realidades específicas, dos processos e das decisões – estas tomam-se à mesma no momento justamente em que a confusão atinge o auge.
Não acreditaria possível se a isto não assistisse: para salvar a face do Primeiro-Ministro e do partido de poder face à decisão europeia anterior subscrita empenhadamente pelo Engenheiro Sócrates, a negociação em torno do TGV ruma agora, em sentido contrário ao da promessa eleitoral, para a concretização de mais uma originalidade portuguesa, a de que vamos ter um TGV em via única, do Caia ao Poceirão e de via dupla, para cruzamentos, entre Évora e Vendas Novas.
Um TGV de via única é de facto uma ideia peregrina e permitirá que os nossos horários de ingresso na Europa via grande velocidade percam a velocidade que se perderá pelo facto de só haver cruzamento durante aquelas dezenas de quilómetros que vão de Évora a Vendas Novas – será a tal Europa a duas velocidades de que se fala literalmente realizada, a metáfora tornada corpo ( a duas?)
Um comboio de alta velocidade parte de Lisboa a contar cruzar-se com outro nesse troço da linha entre Évora e Vendas Novas e calculando tudo para que seja assim, impedindo um regime específico de horário livre caso fossem construídas, como será lógico, as duas linhas autónomas. Não é por acaso que nestas coisas, nos países da Europa, se pratica a política das duas linhas, uma ascendente e outra descendente. É elementar a compreensão desta necessidade e fica claro, com uma decisão deste tipo que o efeito específico da crise, a política da crise, é o aprofundamento do nosso afastamento da Europa no mesmo momento em que a Europa também se afasta do que era e foi – é como se neste processo de integração praticássemos uma política do afastamento constante das metas europeias para a nossa própria vida pela via da suposta integração e que, com isso, na realidade, materializássemos a desintegração europeia. O esboço de integração motivado apenas pelo euro, como agora todos dizem, está longe de uma livre, maturada e necessária integração política, outro patamar de compromissos entre nações democráticas e solidárias – como se isso contasse para o que quer que fosse mais do que para alardeá-lo numa afirmação dos princípios sempre quebrada pelos pragmatismos servis.
É de facto uma estranha metáfora, a via única e cola com a da dívida, também vítima, do lado da solução da sua superação, de um olhar governativo que a reduz a uma via única, a dos cortes que trarão a regressão económica e não o crescimento e o aprofundamento democrático. Tudo se faz e inventa para que a redução do défice aconteça em nome de uns números que são completamente artificiais e se relacionam com empréstimos, com juros e especuladores, como sabemos e não com a produção de riqueza que liberta o crescimento e a autonomia de decisão. Somos um país doente de dependência e de servilismo. Esta da via-férrea única para o nosso TGV como metáfora do nosso modo de entrar na Europa, saindo dela, cobre-nos de um ridículo incomparável.
fernando mora ramos
O caminho da decisão – declarada repetidamente como a mesma até à exaustão como no TGV - vai numa direcção única até que, no tempo do que a memória curta praticada e estimulada pela política do espectáculo motiva, e cento e oitenta graus posicionais depois, assumidos agora sem empolgamento definitivos, estamos no exacto oposto e a deslizar para o mesmo tipo de tensão autoritária na exposição da decisão contrária. É o que agora sucede com o TGV e a ver vamos como, pois rapidamente se instalará, com a clarividência que normalmente resulta do debate à moda portuguesa, a confusão necessária a que as coisas aconteçam num quadro em que a perda de contornos do que se diz vá engrossando uma amálgama ideológica de que resulta justamente a opacificação das realidades específicas, dos processos e das decisões – estas tomam-se à mesma no momento justamente em que a confusão atinge o auge.
Não acreditaria possível se a isto não assistisse: para salvar a face do Primeiro-Ministro e do partido de poder face à decisão europeia anterior subscrita empenhadamente pelo Engenheiro Sócrates, a negociação em torno do TGV ruma agora, em sentido contrário ao da promessa eleitoral, para a concretização de mais uma originalidade portuguesa, a de que vamos ter um TGV em via única, do Caia ao Poceirão e de via dupla, para cruzamentos, entre Évora e Vendas Novas.
Um TGV de via única é de facto uma ideia peregrina e permitirá que os nossos horários de ingresso na Europa via grande velocidade percam a velocidade que se perderá pelo facto de só haver cruzamento durante aquelas dezenas de quilómetros que vão de Évora a Vendas Novas – será a tal Europa a duas velocidades de que se fala literalmente realizada, a metáfora tornada corpo ( a duas?)
Um comboio de alta velocidade parte de Lisboa a contar cruzar-se com outro nesse troço da linha entre Évora e Vendas Novas e calculando tudo para que seja assim, impedindo um regime específico de horário livre caso fossem construídas, como será lógico, as duas linhas autónomas. Não é por acaso que nestas coisas, nos países da Europa, se pratica a política das duas linhas, uma ascendente e outra descendente. É elementar a compreensão desta necessidade e fica claro, com uma decisão deste tipo que o efeito específico da crise, a política da crise, é o aprofundamento do nosso afastamento da Europa no mesmo momento em que a Europa também se afasta do que era e foi – é como se neste processo de integração praticássemos uma política do afastamento constante das metas europeias para a nossa própria vida pela via da suposta integração e que, com isso, na realidade, materializássemos a desintegração europeia. O esboço de integração motivado apenas pelo euro, como agora todos dizem, está longe de uma livre, maturada e necessária integração política, outro patamar de compromissos entre nações democráticas e solidárias – como se isso contasse para o que quer que fosse mais do que para alardeá-lo numa afirmação dos princípios sempre quebrada pelos pragmatismos servis.
É de facto uma estranha metáfora, a via única e cola com a da dívida, também vítima, do lado da solução da sua superação, de um olhar governativo que a reduz a uma via única, a dos cortes que trarão a regressão económica e não o crescimento e o aprofundamento democrático. Tudo se faz e inventa para que a redução do défice aconteça em nome de uns números que são completamente artificiais e se relacionam com empréstimos, com juros e especuladores, como sabemos e não com a produção de riqueza que liberta o crescimento e a autonomia de decisão. Somos um país doente de dependência e de servilismo. Esta da via-férrea única para o nosso TGV como metáfora do nosso modo de entrar na Europa, saindo dela, cobre-nos de um ridículo incomparável.
fernando mora ramos
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domingo, 18 de setembro de 2011
Gigantes em era de cortes
As mamas ultrapassam qualquer sistema de calibragem dentro da lógica sutiã, as unhas têm seis metros e a língua 9,75 centímetros. Onde é que isto se passa? Na América. Onde é que isto é notícia: no mundo. A senhora das mamas, exposta num jornal de referência entre um artigo de fundo e uma boutade, exibia as suas montanhas em queda numa foto que ainda continha, por cima da omnipresença glandular, um sorriso que posava para celebridade instante, que não seria exactamente o mesmo sorriso da pessoa que de seguida teria de as transportar para outro pouso que não o da pose. Esse sorriso algo lhe valeu, o tamanho das mamas não rendendo já pela extravagância e exotismo como no século dezanove/vinte rendia dando lugar a estatuto circense – entre nós o caso do gigante de Manjacaze é de tempo mais recente, o nosso arcaísmo prolongou-se e não morreu - rende certamente pela cadeia que vai da notícia a uma publicidade qualquer que, se não se localizar na matéria alvo, pode certamente, ancorada nela, partir para uma outra área, a dos monta-cargas, ou outra área afim, visto que a dos sutiãs é óbvia, haja tecido. A senhora, cujo sorriso espreitava entre seios, duas meninas do olho ao longe e aquele tom marfim que brilha, lucrou com a fama, ou lucrará, o que eventualmente nenhuma fortuna pagará já que será definitivamente - um destino difícil - a das maiores mamas do mundo, mentira óbvia pois a globalização só globaliza o que lhe convém e nós sabemos que se o Entroncamento fosse perto de Nova Iorque as abencerragens leguminosas que aí ocorrem teriam fama galáctica. Além disso, sabe-se lá se num recanto esquecido do Cáucaso não haverá entre campeões da ancianidade uma criatura de mamas tão ou mais vastas que a agora celebrada.
Mas, a cartola das novidades está fértil, e em dia imediato surge a senhora com as maiores unhas do mundo, também num jornal de referência. Esta senhora exibia umas unhas em cornucópia e um mesmo sorriso a publicitar. O caso é no entanto diferente e mostra militância: tinha lutado por isso, o que não era o caso da senhora mamuda, pois a esta acontecera-lhe, desígnio dos deuses. E lá estava, a unhuda, no meio de um passeio de metrópole americana em danças inesperadas com as mãos e obviamente num êxtase de felicidade que extravasava a foto e nos contagiava, leitores incautos de surpresas, sabe-se lá se definitivas até para curar neuroses: quem muito concentradamente passar os anos necessários a ver crescer as unhas até seis metros – em dedicação exclusiva – ganhará por certo os céus da tranquilidade pessoal.
E a coisa não pára, já ontem surgiu a senhora da maior língua do mundo: nove vírgula setenta e cinco centímetros, também num jornal de referência, suponho que o mesmo diário de notícias aliás. O caso aqui muda de figura pois faz sonhar qualquer perverso moderado e aos imoderados cavalgar sensualismos sem cautelas. Se no mar das mamas da primeira senhora se poderia perder o pé, e se as unhas da segunda poderão estimular masoquistas, perder-se-á certamente a cabeça com um beijo a fundo da senhora linguuda – linguaruda é outra coisa. Nove vírgula setenta e cinco centímetros em riste ou mesmo em nó, língua dobrada, é para respeitar. Dadas as zonas de aplicação das suas virtudes específicas poderemos até pensar que é arma branca, letal e que é quase ideal para várias formas de asfixia. Eu vi a língua e sei o que senti, um arrepio não na espinha mas nas orelhas. Caía pelo queixo abaixo e este desaparecia formando-se uma estranha máscara, tudo era língua.
Não faço ideia da razão da proliferação de tais jóias noticiosas. Dado o peso do que no mundo é tragédia constante – e não era, a este ritmo – provavelmente o editor das graçolas está a ganhar espaço no acesso ao espaço noticioso. Corre-se, claro, o risco de fazer da referência jornalística o seu contrário, a referência para voyeur se estimular, não é por acaso que são todas senhoras e, sabe-se lá porquê, americanas, de onde vem a imaginação que importamos e onde tudo acontece.
O que é lamentável é que este governo que sabe que as exportações são o segredo da recuperação económica, ao extinguir um teatro nacionalzito não tenha criado um Instituto das Abencerragens Transaccionáveis no Espaço Virtual. Poderia começar por um levantamento das potencialidades das batatas do Entroncamento como Indústria Criativa – fértil também em tudo o que é legumes maiores para além da medida – e poderia em seguida exportar as nossas extraordinárias singularidades maiores, o Dr. Alberto João por certo.
fernando mora ramos
Mas, a cartola das novidades está fértil, e em dia imediato surge a senhora com as maiores unhas do mundo, também num jornal de referência. Esta senhora exibia umas unhas em cornucópia e um mesmo sorriso a publicitar. O caso é no entanto diferente e mostra militância: tinha lutado por isso, o que não era o caso da senhora mamuda, pois a esta acontecera-lhe, desígnio dos deuses. E lá estava, a unhuda, no meio de um passeio de metrópole americana em danças inesperadas com as mãos e obviamente num êxtase de felicidade que extravasava a foto e nos contagiava, leitores incautos de surpresas, sabe-se lá se definitivas até para curar neuroses: quem muito concentradamente passar os anos necessários a ver crescer as unhas até seis metros – em dedicação exclusiva – ganhará por certo os céus da tranquilidade pessoal.
E a coisa não pára, já ontem surgiu a senhora da maior língua do mundo: nove vírgula setenta e cinco centímetros, também num jornal de referência, suponho que o mesmo diário de notícias aliás. O caso aqui muda de figura pois faz sonhar qualquer perverso moderado e aos imoderados cavalgar sensualismos sem cautelas. Se no mar das mamas da primeira senhora se poderia perder o pé, e se as unhas da segunda poderão estimular masoquistas, perder-se-á certamente a cabeça com um beijo a fundo da senhora linguuda – linguaruda é outra coisa. Nove vírgula setenta e cinco centímetros em riste ou mesmo em nó, língua dobrada, é para respeitar. Dadas as zonas de aplicação das suas virtudes específicas poderemos até pensar que é arma branca, letal e que é quase ideal para várias formas de asfixia. Eu vi a língua e sei o que senti, um arrepio não na espinha mas nas orelhas. Caía pelo queixo abaixo e este desaparecia formando-se uma estranha máscara, tudo era língua.
Não faço ideia da razão da proliferação de tais jóias noticiosas. Dado o peso do que no mundo é tragédia constante – e não era, a este ritmo – provavelmente o editor das graçolas está a ganhar espaço no acesso ao espaço noticioso. Corre-se, claro, o risco de fazer da referência jornalística o seu contrário, a referência para voyeur se estimular, não é por acaso que são todas senhoras e, sabe-se lá porquê, americanas, de onde vem a imaginação que importamos e onde tudo acontece.
O que é lamentável é que este governo que sabe que as exportações são o segredo da recuperação económica, ao extinguir um teatro nacionalzito não tenha criado um Instituto das Abencerragens Transaccionáveis no Espaço Virtual. Poderia começar por um levantamento das potencialidades das batatas do Entroncamento como Indústria Criativa – fértil também em tudo o que é legumes maiores para além da medida – e poderia em seguida exportar as nossas extraordinárias singularidades maiores, o Dr. Alberto João por certo.
fernando mora ramos
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Carapau de escabeche tem horizonte dentro?
Pensamento único é como lobotomia olho metido na venda não vês nada só aquilo que te dão ração mental nem o resto nas borda daquilo nada só aquilo é como cegueira só vês o excesso do que luz em show o mesmo prato somente pensamento único é como carapau catorze anos carapau durou a guerra uma adolescência inteira a carapau aí quando surge outra forma tu chamas carapau chamas carapau ao peixe serra mesmo ao tintureiro martelo só conheces carapau globalização abre a porta do múltiplo? Tem tanto múltiplo disfarçado que afinal ficas no múltiplo moído no mesmo a porta do autêntico fica cerrada só o mesmo e seus disfarce plástico de proveta a enganar a fome
Globalização é escravatura é off shores dos mesmos é paraíso fiscal paraíso alguma vez foi fiscal? Só mente mesquinha inventa paraíso fiscal paraíso tem pássaro e ninfa não tem banco banco é bicho de paraíso ou arara alguma vez banco é acumulação é o teu gerido por outros para outros tem arara no banco? paraíso fiscal é mesmo falta mesmo mesmo falta de imaginação é imaginação fiscal é imaginação banqueira coisa imagina banqueiro? Imagina dinheiro imagina o mesmo imagina lucro imagina taxa paraíso tem a ver com essa imaginação? Não
Paraíso vem na escritura e na escritura não vem banqueiro vem Adão vem Eva vem cobra vem macieira vem off shore? Não nada pensamento único disfarça de múltiplo pensamento único é pensamento do lucro da camarilha do negócio obscuro de Estado que vira privado pensamento único é encher bolso privado com dinheiro público negócio é paraíso? Não negócio é dinheiro dinheiro compra paraíso? Compra imitação de paraíso compra teta de silicone compra violência lado de lá do muro compra prisão de luxo isso é paraíso? Não paraíso é sombra fora do mapa é mapa fora do mapa é outra vida como era quando inventou a vida é outra vida como se pode plantar de novo pode plantar paraíso pode como? Com racionalidade de espécie humana livre onde isso está? Não está é isso que é de inventar inventar é isso pôr na realidade o que não há é isso paraíso? É paraíso por vir
E que tem carapau com isso? Essa história de carapau é a cidade sitiada em que só comia carapau africano pescado em barco russo para alimentação do povo sitiado
O planeta também sitiado refém do bicho especulador e dos governo que lhe serve caninamente planeta sitiado por condomínio off shore esses sim são extraterrestre não que sentem nem como cão são infecção do seu casulo condómino ordenam no planeta têm bunker têm avião para a lua têm latifúndio em Marte têm cidade subterrânea
Famintos do mundo das secas tesos do planeta per capitas de nem um dólar dia favelas do mundo becos do mundo guetos do mundo precários do mundo indignados do mundo mundos do mundo mais que as bordas repletas do Ganges os longes desconhecidos da China o interior das Ibéria os planaltos da Angónia somos todos os nordeste todos os do sul todos os que atravessam mundos todos os barcos repletos de náufragos juntem-se em humores afluentes
Benjamim Saguate Chicuembo
Globalização é escravatura é off shores dos mesmos é paraíso fiscal paraíso alguma vez foi fiscal? Só mente mesquinha inventa paraíso fiscal paraíso tem pássaro e ninfa não tem banco banco é bicho de paraíso ou arara alguma vez banco é acumulação é o teu gerido por outros para outros tem arara no banco? paraíso fiscal é mesmo falta mesmo mesmo falta de imaginação é imaginação fiscal é imaginação banqueira coisa imagina banqueiro? Imagina dinheiro imagina o mesmo imagina lucro imagina taxa paraíso tem a ver com essa imaginação? Não
Paraíso vem na escritura e na escritura não vem banqueiro vem Adão vem Eva vem cobra vem macieira vem off shore? Não nada pensamento único disfarça de múltiplo pensamento único é pensamento do lucro da camarilha do negócio obscuro de Estado que vira privado pensamento único é encher bolso privado com dinheiro público negócio é paraíso? Não negócio é dinheiro dinheiro compra paraíso? Compra imitação de paraíso compra teta de silicone compra violência lado de lá do muro compra prisão de luxo isso é paraíso? Não paraíso é sombra fora do mapa é mapa fora do mapa é outra vida como era quando inventou a vida é outra vida como se pode plantar de novo pode plantar paraíso pode como? Com racionalidade de espécie humana livre onde isso está? Não está é isso que é de inventar inventar é isso pôr na realidade o que não há é isso paraíso? É paraíso por vir
E que tem carapau com isso? Essa história de carapau é a cidade sitiada em que só comia carapau africano pescado em barco russo para alimentação do povo sitiado
O planeta também sitiado refém do bicho especulador e dos governo que lhe serve caninamente planeta sitiado por condomínio off shore esses sim são extraterrestre não que sentem nem como cão são infecção do seu casulo condómino ordenam no planeta têm bunker têm avião para a lua têm latifúndio em Marte têm cidade subterrânea
Famintos do mundo das secas tesos do planeta per capitas de nem um dólar dia favelas do mundo becos do mundo guetos do mundo precários do mundo indignados do mundo mundos do mundo mais que as bordas repletas do Ganges os longes desconhecidos da China o interior das Ibéria os planaltos da Angónia somos todos os nordeste todos os do sul todos os que atravessam mundos todos os barcos repletos de náufragos juntem-se em humores afluentes
Benjamim Saguate Chicuembo
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
D’ hoje e de quinhentos
Não, nada de crise, não pesco. Já tem quinhentos anos, desde que a pedra grande na linha do horizonte nos vê, no cais que não era cais mas mato, o cafre de azagaia, meu primo, no cimo da duna, mais de gala-gala que enraivecido que de gente, nunca foi diferente – linha do horizonte a gente tem no olho e usa quando pode olhar o longe, menos vezes que costuma, pois costuma olhar o perto, dia a dia, o perto, o esperto é quem manda e esse olha longe, mesmo o porta-moedas, o esperto vê-o cheio quando está vazio, a gente não, a gente amocha, a gente tem que não tem, o nada na mão tem. A gente crise sempre, desde os tempos. Quando meteram pé na areia só olharam a vantagem, a mamita, a marmita, o rabito, o entre pernas e outras guloseima, mais a vantagem das tenças, terra por missanga, a vantagem da barriga contente bater palmas com a planta dos pés, a vantagem da bunda prateleira além de rego livre faça favor, a bunda, assim mais mesmo mais virada para a lua, como cão, sem vergonha, só tesão e fenda na perspectiva. Tesão é arte, de artesão e faz com trabalho manual e anal e mesmo pela frente, como for, de alto ao chão dos pés e de cima para baixo e vice-versa.
Contaram assim mesmo: agora é crise, grande. Não que não sei, sei mesmo da mesma. Já o tinha, a crise, sempre foi meu, ela. De manhã crise: a crise do mata-bicho. No meio do dia crise, o almoço fora do prato, nem prato, nem almoço, só talher e aí imaginavas, cheiravas o porvir. Não vale sequer brincar ao jantar. Talher sim, herança colonial. Talher completo: faca, colher de sopa, garfo, colher de sobremesa, garfo minhoca, e prato – nunca cá percebi porque a colher uma era sobremesa e outro era grande, sobremesa era tudo e sob a mesa era perna e pé, sapato ou chinelo.
Prato azul de plástico, prato de plástico dura sempre, é como santo, não parte, santo de S. Já viu santo de S partir, partir assim como loiça? Sem Santo não tem milagre. E milagre é mezinha da crise. Põe milagre na crise e comes. Foi o que fiz. Pus milagre, assim um pouco, para não gastar todo, como gotas, a conta-gotas e a crise emagreceu, emagreceu ao ponto de me engrossar. Pouco, muito pouco, assim como a pele do tambor esticada a aumentar o umbigo, umbigo grande mas sem dentro, umbigo de esticado, não como a pele do tambor lassa, nada disso. Às vezes vai para dentro. Encolhe, mete-se dentro. Já viu barriga encolher? Encolhe, barriga encolhe. Única coisa que não encolhe é fome.
Já viu daqueles famintos a passar o mar e a ficar? Pobre é alimento. Mesmo quando só é osso alimenta, alimenta o mar que nunca pára de fazer cemitério e não pagas, não pagas nada, nem o pedaço de terra. E lá em Lampedusa continua, comes piza e voltas para trás, para o sítio da fome, despejado. Aqui não é assim. Aqui estamos na crise há mais de quinhentos anos e continuamos – quinhentos anos mais trinta e tais. Aqui a crise é como o ar que respiras, respiras crise e é por isso que quando respiras sentes a crise, pois ela entra nas narinas e toca no estômago a música dos ossos erodidos. Os ossos ficam em cornucópia quando a carne é pouca. Os ossos lassos ficam moles, como o que está por fora do pezinho de porco, aquela gelatina, aquela coisa mole que estica e contrai, mas não é a mesma coisa porque quando aperta a crise diminui mesmo a moleza que encobre o tutano até ficar zero. Tutano não conhece, a gente. A gente conhece osso e gelatina quando vai para velha. A crise sempre que esteve connosco. Sempre, sempre, ao lado do povo. Por isso quando fala crise a gente não estranha, a gente conhece. A crise é nossa prima e direita, e endireita sempre a gente.
Xico Nem Saguate
Contaram assim mesmo: agora é crise, grande. Não que não sei, sei mesmo da mesma. Já o tinha, a crise, sempre foi meu, ela. De manhã crise: a crise do mata-bicho. No meio do dia crise, o almoço fora do prato, nem prato, nem almoço, só talher e aí imaginavas, cheiravas o porvir. Não vale sequer brincar ao jantar. Talher sim, herança colonial. Talher completo: faca, colher de sopa, garfo, colher de sobremesa, garfo minhoca, e prato – nunca cá percebi porque a colher uma era sobremesa e outro era grande, sobremesa era tudo e sob a mesa era perna e pé, sapato ou chinelo.
Prato azul de plástico, prato de plástico dura sempre, é como santo, não parte, santo de S. Já viu santo de S partir, partir assim como loiça? Sem Santo não tem milagre. E milagre é mezinha da crise. Põe milagre na crise e comes. Foi o que fiz. Pus milagre, assim um pouco, para não gastar todo, como gotas, a conta-gotas e a crise emagreceu, emagreceu ao ponto de me engrossar. Pouco, muito pouco, assim como a pele do tambor esticada a aumentar o umbigo, umbigo grande mas sem dentro, umbigo de esticado, não como a pele do tambor lassa, nada disso. Às vezes vai para dentro. Encolhe, mete-se dentro. Já viu barriga encolher? Encolhe, barriga encolhe. Única coisa que não encolhe é fome.
Já viu daqueles famintos a passar o mar e a ficar? Pobre é alimento. Mesmo quando só é osso alimenta, alimenta o mar que nunca pára de fazer cemitério e não pagas, não pagas nada, nem o pedaço de terra. E lá em Lampedusa continua, comes piza e voltas para trás, para o sítio da fome, despejado. Aqui não é assim. Aqui estamos na crise há mais de quinhentos anos e continuamos – quinhentos anos mais trinta e tais. Aqui a crise é como o ar que respiras, respiras crise e é por isso que quando respiras sentes a crise, pois ela entra nas narinas e toca no estômago a música dos ossos erodidos. Os ossos ficam em cornucópia quando a carne é pouca. Os ossos lassos ficam moles, como o que está por fora do pezinho de porco, aquela gelatina, aquela coisa mole que estica e contrai, mas não é a mesma coisa porque quando aperta a crise diminui mesmo a moleza que encobre o tutano até ficar zero. Tutano não conhece, a gente. A gente conhece osso e gelatina quando vai para velha. A crise sempre que esteve connosco. Sempre, sempre, ao lado do povo. Por isso quando fala crise a gente não estranha, a gente conhece. A crise é nossa prima e direita, e endireita sempre a gente.
Xico Nem Saguate
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
London on fire

O Senhor Z. na era da globalização
O Senhor Z. jantava diante do televisor, como era normal. Estava ele a mastigar um bocado particularmente rijo do guisado quando os motins lhe irromperam pela casa dentro. Tinha mamado uma série de entrevistas a três ministros, a quatro secretários de Estado, a sete (ou seriam oito?) deputados, a uns quantos banqueiros e a um ex-presidente já xexé. Uma canseira! E ainda ia ter de ruminar as pérolas de sageza de vários misters e de um desfile de jogadores colombianos, todos conscientes das dificuldades do desafio, mas certos da vitória. Tudo normal. Mas seria de facto normal? O Senhor Z. recordou-se que o seu pai, o Senhor B., lhe tinha ensinado, muitos anos atrás, que era preciso questionar a normalidade antes de a aceitar, tentar perceber a quem ela servia. Mas a verdade é que, com o passar dos anos, o Senhor Z. tinha praticamente esquecido o salutar conselho paterno, a braços que se via com as preocupações normais de um desempregado, um daqueles que todas as manhãs hesita antes de abrir a caixa do correio, com medo de lá encontrar uma cartinha do banco, ou das Finanças, ou da Segurança Social, ou da Cofidis, ou… Por isso, foi apanhado de surpresa pelas imagens de Londres a arder, pela orgia de transgressão, pela festa dos que não têm outra festa senão, de quando em vez, a vertigem da liberdade sem entraves. O Senhor Z. quase se engasgou. Subiu o volume do televisor e chamou a mulher. “Olha para aquilo, Maria!” A mulher, que estava ocupada na cozinha, deu uma olhada, espantou-se e comentou: “Uma coisa destas aqui na Europa não é normal.”
Adansónio Digital
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Vai vir charters de Javalis
A habitual nota obituária do Economist- é a revista, pá, não é um heterónimo do padre Louçã- foi atribuída, na edição de 4 de Junho, a um jogador de futebol do Irão. Nasser Hejazi, excelente guarda-redes (62 internacionalizações), faleceu aos 61 anos. Perguntar-se-á... que tem a ver com o Javali Sentado aquele que ficou conhecido como a “Águia da Ásia”? Ah! Essa zoologia insuficiente alimenta incréus e cipaios: a Águia é um Javali com asas. E o Javali da espécie mais inteligente e desenvolvida toma, como se sabe, a designação de Leão.
Mas vamos ao que interessa. Nasser foi surpreendido pelo voo do Xá e pela “revolução” Khomeini em pleno Manchester United. Onde se preparava para iniciar uma carreira gloriosa. Pois, trocou o exílio pela pátria, a fama pela família. Si fódeu, como se diz na fala normalizada do Brasil, aqui grafada na opção aberta da língua portuguesa de Portugal, prevista no penúltimo acordo ortográfico. Eles lá continuam escrevinhando ‘se fodeu’.
Queimemos as etapas mais penosas. Nasser Hejazi passou em duas décadas de vedeta do pontapé na bola a insubordinado democrata, de palhaço principal do circo a corajoso defensor do pão e da liberdade. Não, não é para rir nem para chorar. Mas para ler. Transcreva-se. “I’m agonised to see (the authorities) interpret poverty as contentment, inefficiency as patience and, with a smile on their faces, they call this very stupidity wisdom”.
E isto vem a propósito de quê? Da vontade de contribuir para ajudar Portugal.
Amarcord. No dia em que as baratas ficaram tontas, aquele dia em que o PM Cavaco Silva pediu ajuda a Michael Porter, ficámos a saber que tínhamos de encontrar os nossos clusters. Tudo cousas hipermodernas em torno da cortiça, da simpatia do povo, do mel de abelha, estradas, panos e atoalhados, sapatos e ferraduras, e, claro, estava-se mesmo a ver, aproveitando a inteligência do povo eleito: produtos financeiros e biotecnologia.
Alguma cousa deve ter corrido mal...que até os Javalis se sentaram alegadamente estupefactos. Regressar ao mar, voltar ao amanho da terra, embarcar e fugir! Atão, e os nossos clusters?
Será que ainda não entenderam que o nosso único cluster de excelência é o Futebol. Sal, em onze, na praia, matrecos, nintendo. Jogadores, treinadores, administradores, espectadores. Agentes, claques e massagistas.
Paulo Futre percebeu e ainda se riram dele. Sócios, isto é uma merda. Não temos dinheiro. Temos de arranjar quem tenha. Temos para isso de encontrar um motivo para que aqueles que têm venham cá deixá-lo...para a malta continuar a beber Licor Beirão. Sócios, vai vir charters de mulas.
Huuuuuu! Diz o coro grego: VAI VIR CHARTERS de JAVALIS.
JSP aka Xiconhoca.come
Mas vamos ao que interessa. Nasser foi surpreendido pelo voo do Xá e pela “revolução” Khomeini em pleno Manchester United. Onde se preparava para iniciar uma carreira gloriosa. Pois, trocou o exílio pela pátria, a fama pela família. Si fódeu, como se diz na fala normalizada do Brasil, aqui grafada na opção aberta da língua portuguesa de Portugal, prevista no penúltimo acordo ortográfico. Eles lá continuam escrevinhando ‘se fodeu’.
Queimemos as etapas mais penosas. Nasser Hejazi passou em duas décadas de vedeta do pontapé na bola a insubordinado democrata, de palhaço principal do circo a corajoso defensor do pão e da liberdade. Não, não é para rir nem para chorar. Mas para ler. Transcreva-se. “I’m agonised to see (the authorities) interpret poverty as contentment, inefficiency as patience and, with a smile on their faces, they call this very stupidity wisdom”.
E isto vem a propósito de quê? Da vontade de contribuir para ajudar Portugal.
Amarcord. No dia em que as baratas ficaram tontas, aquele dia em que o PM Cavaco Silva pediu ajuda a Michael Porter, ficámos a saber que tínhamos de encontrar os nossos clusters. Tudo cousas hipermodernas em torno da cortiça, da simpatia do povo, do mel de abelha, estradas, panos e atoalhados, sapatos e ferraduras, e, claro, estava-se mesmo a ver, aproveitando a inteligência do povo eleito: produtos financeiros e biotecnologia.
Alguma cousa deve ter corrido mal...que até os Javalis se sentaram alegadamente estupefactos. Regressar ao mar, voltar ao amanho da terra, embarcar e fugir! Atão, e os nossos clusters?
Será que ainda não entenderam que o nosso único cluster de excelência é o Futebol. Sal, em onze, na praia, matrecos, nintendo. Jogadores, treinadores, administradores, espectadores. Agentes, claques e massagistas.
Paulo Futre percebeu e ainda se riram dele. Sócios, isto é uma merda. Não temos dinheiro. Temos de arranjar quem tenha. Temos para isso de encontrar um motivo para que aqueles que têm venham cá deixá-lo...para a malta continuar a beber Licor Beirão. Sócios, vai vir charters de mulas.
Huuuuuu! Diz o coro grego: VAI VIR CHARTERS de JAVALIS.
JSP aka Xiconhoca.come
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Javali sentado a espremer laranjas
O javali fuça. Fuça e tem umas fuças que charruam a terra por dentro, até aos dez ou vinte centímetros de fundura, umas fuças de pequeno rinoceronte bicórneo a que uma máquina dentária de alto índice triturador torna um leva tudo adiante, raízes e bolbos, tubérculos, quando acima do chão não há coisa confirmadamente, de modo nasal e táctil, mais suculenta ou substancial, vitamina pura, energia próxima, maçãs caídas, muitas, marmelos, peras e em hortas bem regadas verdura, alfaces, tomatitos, pimentos, pepinos, não é esquisito, marcha tudo – é um bicho que faz tanta falta como o Jagudi em Bissau ao serviço dos municipalizados serviços de higiene pública que não funcionam: o tal do Jagudi come tudo, até lata, plástico, lambe ferro e ferrugem, que mastiga, tritura pedra se preciso, come o mau cheiro com o sol a pino nos olhos.
O Javali é um pequeno tractor, um quatro por quatro animal de alta cilindrada muscular, nada o trava, nem o medo, que não pratica e faz verdadeiras maratonas alimentares noite fora. Não desiste, procura sempre comida, e bebida, e quase ninguém dá por ele. E não é nem toupeira, nem calça luvas no casco, tem um casco que ecoa surdamente, na mesma medida em que fala um tipo de grunhido nasalado de baixo profundo sempre a espirrar – quem sabe se ainda o veremos no São Carlos na conhecida ópera O suíno selvagem amoroso e as valquírias.
Com esse casco que Deus lhe deu, ainda assim é silencioso. Uma besta silenciosa, sempre oculta, clandestina, é da maçonaria dos dentes mais radical, a que anda nas sombras e não é corrupta, não se vende por um qualquer ketchup, nem por cargo parlamentar, é da carbonária que resfolga, detesta realezas, alces e coutados de caça à antiga medieval, pois odeia montarias, essa tropa montada de caça ao bicho, e só mesmo em montarias, nessa variante em seco da malha apertada na pesca assassina, é apanhado. Atrás dele cães, cavalos, caçadores, cornetas, ingleses, mais cães, mais pessoal de correr armado de varapaus, mais cavalos, mais ingleses, todos vestidos de caçadores para depois figurarem em quadros de restaurantes requintados ou pouco requintados em versões descoloridas (incluindo cavalos aperaltados), num género que faz lembrar a infantaria dos tempos do corpo a corpo, baionetas em riste e trincheiras logo valas comuns, como na primeira guerra, quando as coisas se mediam em valentias.
É bicho que investe contra o outro intruso e que anda em família, mais ou menos fila, e tem resistido pois não está à beira da extinção, é rijo e tem aguentado a perseguição milenar de que é alvo. Ninguém se lembraria de fazer uma Associação de Defesa do Javali, nem o javali consentia essa paneleirice. Seria de um ridículo inaudito e o Javali seria o primeiro a gargalhar grunhindo. E é bicho tão desejado que até a porca preta, ou cinzenta, domesticada, o espera nas noites tranquilas do chaparral numas ânsias de fúrias eróticas incontidas tão alçadas que quase dança chaparro acima bolota no chão – imagino, não sei ao certo, mas pelo aspecto do bicho deve ser coisa séria, muito para lá dos modos do touro preto, aquele ali de Benavente e esse não é nada meigo, ainda o outro dia levou cinco de mão beijada ou de cornada rompante para o Centro de Saúde – fechado em dias de festa brava, como se verificou segundo a imprensa local e europeia.
Ora, portanto, como se depreende, o bicho é teso. Mas o que espreme laranjas nem queiram saber. Porque esse já passou a fase selvagem, mas do selvagem tem lá tudo, o essencial, o código genético. E a coisa pode dar-se pior que na Grécia que é onde a coisa se está a dar com resultados mais interessantes e pirotécnicos – a melhor esquerda é aliás a esquerda pirotécnica, porque a outra está em casa a vê-la na TV e aspira depois ao debate argumentado e contra argumentado suficientemente regado (tudo isto em gado como rimou).
O Javali é grego. E as laranjas são andaluzas e algarvias. As baianas têm aquele umbigo do calor baiano, têm um feitio mais vitaminado, mas não são de lá, foram para lá, emigraram e depois lá, na Baía, deu-lhes para aquele umbigo, umbiguaram, o que dá umas sestas infinitas. Ora neste contexto tudo é passível de se desenvolver como solidariedades do Sul. O Javali sentado a espremer laranjas só gosta do Sul da crise. É nessa que ele treina a sua envergadura todo-o-terreno. Nada lhe escapa, nada lhe escapa à fome crítica. É bicho insaciável. É mesmo um blogue. Que se acautelem os do Norte para lá de todo o sul, nada de regionalismos. O Javali Sentado é selvagem, cosmopolita, e filho do império da metáfora que dobrou o cabo da esperança relativa. Cuidado com o Javali que ele levanta-se.
fernando mora ramos
O Javali é um pequeno tractor, um quatro por quatro animal de alta cilindrada muscular, nada o trava, nem o medo, que não pratica e faz verdadeiras maratonas alimentares noite fora. Não desiste, procura sempre comida, e bebida, e quase ninguém dá por ele. E não é nem toupeira, nem calça luvas no casco, tem um casco que ecoa surdamente, na mesma medida em que fala um tipo de grunhido nasalado de baixo profundo sempre a espirrar – quem sabe se ainda o veremos no São Carlos na conhecida ópera O suíno selvagem amoroso e as valquírias.
Com esse casco que Deus lhe deu, ainda assim é silencioso. Uma besta silenciosa, sempre oculta, clandestina, é da maçonaria dos dentes mais radical, a que anda nas sombras e não é corrupta, não se vende por um qualquer ketchup, nem por cargo parlamentar, é da carbonária que resfolga, detesta realezas, alces e coutados de caça à antiga medieval, pois odeia montarias, essa tropa montada de caça ao bicho, e só mesmo em montarias, nessa variante em seco da malha apertada na pesca assassina, é apanhado. Atrás dele cães, cavalos, caçadores, cornetas, ingleses, mais cães, mais pessoal de correr armado de varapaus, mais cavalos, mais ingleses, todos vestidos de caçadores para depois figurarem em quadros de restaurantes requintados ou pouco requintados em versões descoloridas (incluindo cavalos aperaltados), num género que faz lembrar a infantaria dos tempos do corpo a corpo, baionetas em riste e trincheiras logo valas comuns, como na primeira guerra, quando as coisas se mediam em valentias.
É bicho que investe contra o outro intruso e que anda em família, mais ou menos fila, e tem resistido pois não está à beira da extinção, é rijo e tem aguentado a perseguição milenar de que é alvo. Ninguém se lembraria de fazer uma Associação de Defesa do Javali, nem o javali consentia essa paneleirice. Seria de um ridículo inaudito e o Javali seria o primeiro a gargalhar grunhindo. E é bicho tão desejado que até a porca preta, ou cinzenta, domesticada, o espera nas noites tranquilas do chaparral numas ânsias de fúrias eróticas incontidas tão alçadas que quase dança chaparro acima bolota no chão – imagino, não sei ao certo, mas pelo aspecto do bicho deve ser coisa séria, muito para lá dos modos do touro preto, aquele ali de Benavente e esse não é nada meigo, ainda o outro dia levou cinco de mão beijada ou de cornada rompante para o Centro de Saúde – fechado em dias de festa brava, como se verificou segundo a imprensa local e europeia.
Ora, portanto, como se depreende, o bicho é teso. Mas o que espreme laranjas nem queiram saber. Porque esse já passou a fase selvagem, mas do selvagem tem lá tudo, o essencial, o código genético. E a coisa pode dar-se pior que na Grécia que é onde a coisa se está a dar com resultados mais interessantes e pirotécnicos – a melhor esquerda é aliás a esquerda pirotécnica, porque a outra está em casa a vê-la na TV e aspira depois ao debate argumentado e contra argumentado suficientemente regado (tudo isto em gado como rimou).
O Javali é grego. E as laranjas são andaluzas e algarvias. As baianas têm aquele umbigo do calor baiano, têm um feitio mais vitaminado, mas não são de lá, foram para lá, emigraram e depois lá, na Baía, deu-lhes para aquele umbigo, umbiguaram, o que dá umas sestas infinitas. Ora neste contexto tudo é passível de se desenvolver como solidariedades do Sul. O Javali sentado a espremer laranjas só gosta do Sul da crise. É nessa que ele treina a sua envergadura todo-o-terreno. Nada lhe escapa, nada lhe escapa à fome crítica. É bicho insaciável. É mesmo um blogue. Que se acautelem os do Norte para lá de todo o sul, nada de regionalismos. O Javali Sentado é selvagem, cosmopolita, e filho do império da metáfora que dobrou o cabo da esperança relativa. Cuidado com o Javali que ele levanta-se.
fernando mora ramos
terça-feira, 5 de julho de 2011
Heteromanias e metamorfose
Num mundo que canta a diversidade e pratica a homogeneidade o paradoxo salta à vista: o mesmo caminha pelas veredas do que exibe o diferente e mais se afirma quanto mais o diferente se torna espectáculo normalizando-se, visível até à sua própria saturação e esgotando a diferença nessa exibição da diferença que a destitui de especificidade substantiva vital, genes matricial – a estratégia do senhor Onde, personagem de Vinaver, era a da toupeira, que, invisível, cavando galerias tornava o chão das nossas certezas e mitos mais instável, único caminho actual da verdadeira transformação. Mesmo a descoberta da última tribo índia na Amazónia brasileira, via satélite, não nos faz sonhar com o desconhecido, nem com nenhum Outro. São duzentos índios e habitam três malocas, nada mais interessa que candidatá-los a integrar a reserva prevista, o mundo em que serão folclore para os olhos turísticos dos consumidores de imagens, pessoas de zoo, sem vida futura, apenas o presente e a renda da imagem. O planeta não encerra desconhecidos e até a recente descoberta de novas espécies, lá nas Indonésias, só desperta curiosidade de espírito de palavras cruzadas. Mas será assim? Não existem outras selvas em outras tantas periferias inacessíveis? Mesmo em Nova Iorque não será que para lá da Avenida Cento e Vinte Seis a maior parte da menor parte não se atreve a ir? E não serão as favelas brasileiras selvas urbanas e lugares de perigo e desconhecido? Ou a periferia de Maputo e as ruas de Bombaim mundos com regras imprevisíveis de sobrevivência em que a política, as leis e os parlamentos não entram. Que democracia será a pobreza, a fome, a ausência de lei, a sociedade violenta da selva urbana, a escola que não ensina nem existe, a doença extinta nuns pontos da humanidade confortável e em outros não? Pelos vistos, desde que sejam controláveis os lados de lá dos muros e os lados de cá miseráveis e expostos, cercados de polícias e exércitos, mais as democracias se reduzem às geografias dos incluídos nos mercados e mais a sua forma se converte num condomínio, uma área libertada dos interesses do mercado, um território em que as leis servem os interesses lucrativos de poucos e o acesso aos consumos de alguns – a política democrática neste contexto é residual e cada vez mais uma perícia do simulacro. [O que se passa agora é que mesmo isso está em causa e os tais condomínios democráticos tendem a cingir-se a geografias e demografias mais restritas ainda, há que dizê-lo aos quatro ventos, pois é o caminho que agora fazem os mandantes construtores deste desMundo, especuladores mais poderes estatais servis. O que isso significa é que o poder especulativo globalizado lucra com menos democracia e prefere a selva, vendendo os serviços públicos, destruindo-os, transformando em lucro privado pela via do crédito aquilo que são os custos da qualificação da democracia e a sua substância no limite. A democracia tem um preço, tem custos e nunca esta frase foi tão verdadeira, abaixo desse preço será democracia? Ou será demagogia? O negócio montado com a democracia, com o Estado de direito e com os serviços públicos é a especialidade da política neo-liberal e caminha vertiginosamente para lógica de saldos, saldos para os novos donos e taxas altas para o Estado pagar].
O Outro só pode mesmo ser o nosso outro, que definimos outro por traço de singularidade psicológica, de perfil, de espírito de ficção enovelado, não o Outro de outra cultura, agora também definitivamente marcada pelo contágio com a cultura dominante da globalização, a cultura dos mercados, do capitalismo financeiro, do crédito, das taxas de lucro, das lixeiras e das bolsas, dos caixotes urbanos e das palhotas, da fome e do luxo – nada mais claro que esta relação entre o lixo e o luxo, indissociável, casamento absolutamente perfeito de estratégias religiosas, capitalistas e político espectaculares. O nosso outro, domesticado, é um outro de trazer por casa e na realidade é um mesmo, é mesmo o mesmo com quem vivemos e que nada tem de heterónimo sequer (essa é outra realidade, subjectiva sim, singular, raridade) para além da graça que lhe acharmos – há complementaridades que se fazem por soma, o kitch tomou conta de tudo e passa por ser coisa jurídica, direito, o politicamente correcto é a face visível da estética massiva e exibe-se pela vertigem narcisista que o espectaculariza como montra constante, o outro do paleio sobre a diferença que faz o fluxo do homogéneo que o engole.
Não há nada mais eficaz do que a estratégia da recuperação, manipula a diferença e dela colhe lucro tornando-a inofensiva e normalizando-a, retirando-lhe veneno de irredutibilidade, veneno positivo de transformação igualitária, radicalidade libertadora, expondo-a como signo de novidade pela novidade enquanto outra novidade não ocupa o mesmo espaço e tempo virtuais que a média fabrica de modo sistémico. Aconteceu aos índios, que com o contágio não só amoleceram de uísque como faleceram como tordos com as gripes da Europa e são de há muito um cenário, mesmo que activo, aos operários de Marx enfiados em reuniões de base e de topo, rendidos às benesses pequeno burguesas, operários que só o são de memória e burocratas de realidade, pequenos chefes de reuniões sem fim de costas para a realidade, aos nostálgicos que se fartam de falar da Rosa Luxemburgo atirando-a à cara de terceiros como um ícone sagrado, aos de Maio de sessenta e oito que elegeram a criação ao poder como divisa e que estão todos na terceira casa de campo a criar preguiça e nabos ecológicos, aos maoístas que deram uma volta maior que a perna ao radicalismo estreito da perigosa revolução cultural e que chegaram ao topo da União sobre o cadáver do soldado Alexandrino, pobre coitado e por aí adiante.
Estamos mesmo à espera de qualquer coisa de facto Outra, não para nos redimir do pecado, papel do Messias, mas para nos abrir o caminho de Outra ordem planetária, justa e equilibrada – para quê mais conversa? E esse Outro é de facto esse mesmo que somos e certamente os outros que são excluídos, a maior maioria de sempre e que na realidade não passa do muro para cá, da rede para cá – muros, desde que o muro caiu, quantos cresceram? Na fronteira Mexicano/Americana, na Palestina, e quantos mais, certamente esse também muro que é o Mediterrâneo e dá para Lampedusa?. E o Outro de que falamos habita aldeias improvisadas e deslocalizadas, campos de refúgio, sopas dos pobres, caminhos de fuga constante, não pratica a Net como os incluídos, mesmo indignados, nem entra nos shopping’s de Domingo, mas está aí, um Outro faminto e bandido se necessário.
fernando mora ramos
O Outro só pode mesmo ser o nosso outro, que definimos outro por traço de singularidade psicológica, de perfil, de espírito de ficção enovelado, não o Outro de outra cultura, agora também definitivamente marcada pelo contágio com a cultura dominante da globalização, a cultura dos mercados, do capitalismo financeiro, do crédito, das taxas de lucro, das lixeiras e das bolsas, dos caixotes urbanos e das palhotas, da fome e do luxo – nada mais claro que esta relação entre o lixo e o luxo, indissociável, casamento absolutamente perfeito de estratégias religiosas, capitalistas e político espectaculares. O nosso outro, domesticado, é um outro de trazer por casa e na realidade é um mesmo, é mesmo o mesmo com quem vivemos e que nada tem de heterónimo sequer (essa é outra realidade, subjectiva sim, singular, raridade) para além da graça que lhe acharmos – há complementaridades que se fazem por soma, o kitch tomou conta de tudo e passa por ser coisa jurídica, direito, o politicamente correcto é a face visível da estética massiva e exibe-se pela vertigem narcisista que o espectaculariza como montra constante, o outro do paleio sobre a diferença que faz o fluxo do homogéneo que o engole.
Não há nada mais eficaz do que a estratégia da recuperação, manipula a diferença e dela colhe lucro tornando-a inofensiva e normalizando-a, retirando-lhe veneno de irredutibilidade, veneno positivo de transformação igualitária, radicalidade libertadora, expondo-a como signo de novidade pela novidade enquanto outra novidade não ocupa o mesmo espaço e tempo virtuais que a média fabrica de modo sistémico. Aconteceu aos índios, que com o contágio não só amoleceram de uísque como faleceram como tordos com as gripes da Europa e são de há muito um cenário, mesmo que activo, aos operários de Marx enfiados em reuniões de base e de topo, rendidos às benesses pequeno burguesas, operários que só o são de memória e burocratas de realidade, pequenos chefes de reuniões sem fim de costas para a realidade, aos nostálgicos que se fartam de falar da Rosa Luxemburgo atirando-a à cara de terceiros como um ícone sagrado, aos de Maio de sessenta e oito que elegeram a criação ao poder como divisa e que estão todos na terceira casa de campo a criar preguiça e nabos ecológicos, aos maoístas que deram uma volta maior que a perna ao radicalismo estreito da perigosa revolução cultural e que chegaram ao topo da União sobre o cadáver do soldado Alexandrino, pobre coitado e por aí adiante.
Estamos mesmo à espera de qualquer coisa de facto Outra, não para nos redimir do pecado, papel do Messias, mas para nos abrir o caminho de Outra ordem planetária, justa e equilibrada – para quê mais conversa? E esse Outro é de facto esse mesmo que somos e certamente os outros que são excluídos, a maior maioria de sempre e que na realidade não passa do muro para cá, da rede para cá – muros, desde que o muro caiu, quantos cresceram? Na fronteira Mexicano/Americana, na Palestina, e quantos mais, certamente esse também muro que é o Mediterrâneo e dá para Lampedusa?. E o Outro de que falamos habita aldeias improvisadas e deslocalizadas, campos de refúgio, sopas dos pobres, caminhos de fuga constante, não pratica a Net como os incluídos, mesmo indignados, nem entra nos shopping’s de Domingo, mas está aí, um Outro faminto e bandido se necessário.
fernando mora ramos
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