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sábado, 22 de outubro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O orçamento e a democracia

É extraordinário como se possam fazer afirmações como esta. O orçamento é meu é como dizer: eu ponho as contas do país em dia, eu sei, eu posso porque quero e mando, como se a economia fosse uma aritmética de crianças, coisa de somar e diminuir, de resolver com soluções caseiras – como a mãe fazia, ou o pai, lá em casa, o amado pilim debaixo da almofada no tempo de Salazar, esse génio das finanças, ou de Caetano, esse autor de primaveras - numa operação que encontraria no deve e haver o seu território. Se não fosse de espantar pela ingenuidade e basismo voluntarista seria certamente de remeter para a bruxaria ou outra ordem de resposta do domínio surreal, oculto ou mesmo extraterrestre, na suposição de que o “é meu” teria dentro magicamente um segredo íntimo, a fórmula única, tal como a receita dos célebres pastéis de nata, ainda hoje no segredo não dos deuses mas do doceiro de Belém. O Primeiro-ministro, no caso, terá certamente uma fórmula incógnita, uma macumba específica, mais ou menos transe e suor empenhados na dança orçamental.
A propriedade do orçamento que o gesto indica, o “é meu”, finta ou tenta fintar uma realidade bem mais complexa do que a afirmação inclui. Não, o orçamento não só não é dele, Primeiro-ministro, mas nem sequer é de todos nós, o país. O orçamente é mesmo deles, dos que credores de voracidade lucrativa ilimitada, exigem que se lhes pague – as agências que para eles trabalham têm a claríssima missão da chantagem e da desestruturação da componente pública das economias – no tempo e nos prazos que a tal troika também sua representante exige e que o governo, mais que a troika, agrava do ponto de vista do que é, a cair na conta dos especuladores “amigos”, o resultado do aperto austero sobre o sector público e a população em geral através dos impostos extraordinários, directos e indirectos, para que estes capitalizem de novo o que “emprestaram” com juros assassinos e de novo “emprestem” a novos juros galopantes e condições ainda mais especulativos e que são, sem margem para dúvidas, de um ponto de vista ético – humano – usura mesmo criminosa, dados os efeitos destruidores à vista de todos, da democracia e das instituições. A metáfora do bebé que vai na água do banho não é demais e poderíamos juntar ao bebe a mãe e o pai, família jovem inteirinha.
Se esta golpada orçamental não é típica de uma espécie de jogada de poker em que o jogador governo aproveita o facto de o adversário, a população portuguesa, não ter trunfos, nem sequer as mesmas cartas para jogar o mesmo jogo, para lhe impor através da austeridade salvífica como se os portugueses fossem apenas uma variável orçamental, uma derrota em todo o terreno, não se percebe de facto o que é, tal é o afã destruidor que as medidas comportam – se é esta a forma de relançar a economia então é preferível decretar já a conversão do país a uma única e generalizada sopa dos pobres, assumindo-se também um novo hino nacional, qualquer coisa sobre a heroicidade das propriedades vitamínicas e proteicas do rabanete que nos alimentará a todos mais loas entoadas aos credores em refrãos de cumprimento da dívida ao preço da própria morte, com o Egas Moniz em fundo de corda no pescoço mas agora além da corda com o cinto tão apertado que a cintura se fosse.
É a economia de casino, é um ataque deliberado ao sector público e ao bem público, é um comportamento de governo testa de ferro desses sectores financeiros especulativos que vêm destruindo as democracias e as conquistas civilizacionais que a Revolução Francesa inaugurou e o mais recente pós guerra relançou. O governo é uma empresa de destruição da democracia, mais até do que uma empresa de cobrança de dívidas, pois cobra a quem não deve. Essa história de que teremos vivido todos, uma espécie de pecado comum português, acima das posses, é injusta e ignóbil, não é verdadeira e que todos paguem por alguns é roubar quem não pecou. Necessitamos de partidos Robin Hood, essa é que é a verdade, que construam mais nova vida real que oposição parlamentar e acções de rua previsíveis.
Não é esta a via porque esta não trará nenhum tipo de crescimento económico, nem nenhuma nova vida possível e pelo contrário trará uma nova e vergonhosa pobreza salazarenta, num tipo de evolução destrutiva da democracia, das liberdades e das condições mínimas de vida digna das populações. Cortar os salários dos funcionários com mais de mil euros mês – e mil euros é várias vezes menos que as mesmas profissões por essa Europa – é um roubo. Estes senhores não têm o direito de entrar assim na casa dos outros. Entrem na própria e naquela daqueles que representam e encontrarão soluções. O dinheiro existe e está aí, é uma questão de o ir buscar justamente ao que foi especulado, à riqueza privada que se encheu de dinheiros públicos, aos offshores e a toda essa economia corrupta e criminosa, ilegal. Não é por acaso que aqueles que investem nesses tais paraísos fiscais têm o nome resguardado pelo segredo conivente de uma legalidade lacaia que os protege. A democracia não pode conviver com aqueles que a destroem e isso não é apenas um problema de crime político, é também um problema de crime económico. Quando a legislação protege os bandidos desta forma isso significa que o legislador também é suspeito. É necessária urgentemente uma nova ordem mundial. Aqueles que supostamente estão legitimados pelo voto estão exactamente como outros a destruir aquilo que foi conquistado com essa legitimidade nascida em ABRIL, a democracia, agora realmente ameaçada de morte pelo capitalismo da especulação financeira.

fernando mora ramos

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Os mulas da Corporativa

Os corporativos (ICI) descobriram que o Passos Coelho "é um sujeito ignorante e a dar para o estúpido – o que não é de admirar no titular de uma licenciatura manhosa tirada tardiamente, e à pressa, numa universidade manhosa".
Parece que a história se repete mas da primeira vez os citados estavam em retiro socrático.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

“Uma pequena reflexão de Verão" no Facebook

Mensagens de férias:
Sacrifícios pedidos aos portugueses não vão ser suaves, avisa Passos
Público

Aqui no JAVALI SENTADO achamos que o homem deve ir para a Sorbonne. Aproveitamos para perguntar se alguém sabe de onde surgiu tão curta e profunda reflexão.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O pior do Crato

Estimados javalis…me penitencio pela ausência. Pois que me comprometera no esbulho do Crato, mas tenho de lateralizar como um sendeiro. Assim, e dada a simpática pressão do nosso webmaster, proponho uma alternativa infeliz do tipo “a entrevista possível”. Entre o cronista da miséria e a miséria do cronista.

A verdade é que ‘passo’por duas razões. Primo, o Nuno Crato é com toda certeza a distinção deste governo a Passos. (Uma laranja de Éfeso). Secondo, este blogue conta com especialistas na cousa educativa, quer como vítimas quer como carrascos.

Portanto...apenas posso sublinhar que aparentemente o Nuno Crato excomunga a tendência dominante do governo PPD/PP: um deprimente poujadismo. Já não é mau.
E no domínio da praxis terei de salientar uma proeza do Crato: recebeu o Nogueira da Fenprof e logrou levar a conversa até ao fim sem o esbofetear, metaforicamente, claro, que isto é gente de brandos costumes e muito respeitinho.

Lembrem-se que podia ser pior. Considerem a nota enviada às redacções, todas, jornais, revistas, webpages, pelo ‘departamento de publicidade’ do PCC, no seguimento do acidente ferroviário à grande vitesse em Wenzhou: “you are not allowed to publish any reports or commentaries, except positive news or information released by the authorities”.

Perguntarão os perspicazes javalis que ‘positive news’ haverá numa catástrofe, exagero, meu, que levou umas dezenas de vidas? Ora, tão positivas como o saldo de um conversa com o Nogueira.

JSP aka XicoNhoca.come

PS: Soubéramos nós, Javali Sentado, que o BPN ia por 40 milhões, e até nos levantámos numa de corporate raider. Certamente, arranjaríamos o caroço junto de qualquer cartel, seita, benevolato ou alterne. Para a próxima estaremos amis atentos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Gravatas e lambretas

A realidade é fonte de prodígios. Ocorrem quando menos se espera e também surgem de onde não se imaginaria, por vezes de fontes que se julgaria secas e incapazes até de mais que a memória, de fertilidades ficcionais no lugar de ideias de poupança – a imaginação está agora virada para a dívida mas não é capaz do que os famintos de outrora souberam fazer: inventar o pão, melhor, a açorda e certamente os joaquinzinhos, já que pobreza é sempre companhia, não se é pobre sem ser a dois, pelo menos e o princípio do cardume é o mesmo da humanidade que mais pega de estaca. Pobre e só é caso mais que limite, é suicídio, por isso pobre é sempre muitos.
E são de muitas variedades os prodígios e os mais previsíveis, entre nós, como é sabido, encontram os seus territórios de proliferação no Entroncamento ou nas paisagens que habitam as anedotas alentejanas, para dar dois exemplos díspares quanto à natureza dos territórios e aos humores identificáveis nestas, o primeiro por assim dizer nacional – talvez por causa justamente da encruzilhada de linhas – e o segundo surreal. Conhecemos bem a história da batata do entroncamento, mesmo da melancia ou do tomate, ou par deles, conforme ao primeiro território e sabemos como voam elefantes sobre os chaparros quando os ninhos se instalam no interior profundo da planície, lá onde o Guadiana deixou de ser um rio para ser um mar definitivo, mar que no fundo é um mar de chaparros, ou melhor, O Mar do Chaparro como quem diz Mar da Mármara ou outro do género, Mar Morto, e esperamos que do seu fundo criativo não surja Adamastor algum mas antes um peixe javali com guelras secretas de porco preto implantadas para fins gastro/turísticos. Esse bicho da lenda por vir vai fazer lembrar uma figura de Bosh, Javali de guelras alçado entre dois caldeirões de pecados com catacuzes fumegantes, tríptico e petisco conhecido dos diabos proletarizados, caviar de luxo por ser temperado pelo crime de faca na liga, pelo adultério, pela briga vicinal e outros feitos braçais e de anca larga.
Até há pouco o mar alentejano era de trigo e espiga nas ondas de vento, agora é de água doce, coisa também só alentejana e de pernas para o ar, já que o sal é um ciclo de tempo alentejano mais que conhecido dos alimentos desde os tempos que o frigorífico enterrou para sempre e a água doce em mar uma invenção dos dinheiro europeus. Antes da electricidade o sal guardava das coisas a sua saúde e agora o mar traz o tal turismo, multiplicai-vos Algarves que de tal proliferação a abundância afogará os pobres de envilecida memória na grandeza dos shopingues por vir, shopingues palafita Alquevas fora. O próximo passo é plantar coqueiros nos buracos dos sobreiros e fazer a tal linha da praia mítica.
De humores tratavam os cirlugiões e os barbeiros sangradores, resolvendo diabos no corpo e outras manifestações de cariz epiléptico tomadas por manobras do demo, curando o doente pela definitiva eliminação deste e do seu mal.
É bem verdade, como persegue por palavras Ubaldo Ribeiro numa verdadeira reportagem da tragédia do corpo em Itaparica – mais natureza que realidade, pois esta é fabricada e a primeira nascida apenas - que há nesta ilha uma radioactividade de fundo sensual e que os habitantes são vítimas desse mal que se respira mal se respira, e entra pelos poros da pele sem autorização, sabendo-se que não tem remédio, não tem como evitar, nem contornar – não há rotunda possível aplicável ao caso a não ser redonda e infinitamente carnal, o que não se arranja assim do pé para a mão entre gente séria do sexo necessário ao caso, como é costume de Itaparica em que namorar necessita pelo menos de quarto de hora prévio, o que é muito tempo de espera para a erecção obsessivo maníaca ou para o cio incontinente.
Nem construindo muros de betão entre cada habitante, nem dotando cada um de escafandros de agilidade pós moderna, ninguém escapa ao assalto nem a ser assaltante. Eu estive em Itaparica e pude observar o facto e os flagrantes delitos de assédio ilimitado e múltiplo sucedendo-se a um ritmo que só me fez lembrar a Ilha de Camões a meio da costa índica, embora nesta, não fossem as mulheres macuas e o msiro e era só literatura à solta, apesar do verso alongado.
E para Itaparica levei guarda-costas, como a diplomacia mo dissera e guarda freios. Estive em missão científica dadas as teorias erotólogas e vaginómanas em questionamento dramatúrgico e sob observação científica: para um doutoramento sobre a problemática do tesão que perdura ou não e a sua extinção na Europa do meio ameaçando a do Sul. O título é obra do orientador e há que respeitar as hierarquias.
Mas a que propósito a gravata e mais ainda a lambreta? São também lembradas coisas curiosas, imaginações. Mas pequenas. Pequenos achados já encontrados, reencontrados diria – já em sessentas o movimento hippie levava isso a sério - mas que são mesmo falhas de imaginação.
Proibir-se a gravata, ou porventura liberalizar o uso – a cada um o seu calor próprio - , só pode ser ideia de quem a leva a sério. Abril foi há décadas e mesmo antes já ninguém a punha como instituição, a não ser aquele pequeno núcleo conhecido e os que primavam por uma disciplina britânica no pino do sol, missão diplomática, respeito do outro, sacrificando a maçã-de-adão sob o aperto esmagador do nó da gravata. Agora imaginar que a dívida se resolve liberalizando a gravata é o mesmo que imaginar que se voa recusando o combustível e poupando no voo necessário que não se realiza – uma sugestão seria poupar no 112, deixar a coisa resolver-se por si. Da lambreta não vale a pena falar, pois é mesmo coisa de Motas.
Governo infantil? Sem dúvida. Parque infantil mesmo. E agora que o Viegas nem é do Conselho de Ministros está tudo claro. O Ministro da Cultura é mesmo o Passos Coelho. Sempre que houver matéria cultural o homem cantará a plenos pulmões um qualquer fado de Coimbra, tanto dá.

fernando mora ramos

terça-feira, 19 de julho de 2011

Fazer a sesta e apostar no produto nacional

É daquelas verdades tão estafadas que já só fazem bocejar. O lusitano é um espécime singular que vareja por terras de excepção. Só tem um problema ou dois ou três. Não desenvolve toda a sua genialidade (pensa-se que o lusitano médio utiliza apenas 20% do cérebro, mais do que o suficiente para liderar o ranking dos 193 países da Terra), tem muita dificuldade em descer do abstracto para o concreto e é vítima de incompreensão e inveja generalizadas.

O filme Limitless de Neil Burger, um funny-thriller que se recomenda, aborda e resolve quimicamente o défice de aceleração da massa cinzenta: NZT 48.
Porém, o mais interessante nesta fita, sustentada num livrito de Alan Glynn, é que arrisca sair da fórmula sofisticada de sexo&drogas&rock and roll. Carl von Loon (De Niro) e Eddie Morra (Bradley Cooper) dão-se ao devaneio teórico, à lógica financeira, pronto, aos Black Swans. Que em Portugal são tidos e ditos por Cisnes Albinos.

Atente-se neste limit(less). Portugal teve a mais poderosa marinha do mundo, dominava as rotas e o comércio global....e que fez? Desconcentrou, refugiou-se no campo electromagnético a 20% e deitou-se a dormir a sesta. Qual foi o resultado? Hoje é um brejo endividado de “cheap condos” em pauperização deslizante. Estes yankees são uns cabrões. E burros.

Portugal segue na linha da frente em todas as ciências e domínios do saber. Um exemplo à toa. Ainda antes dos derivados, dos CDSs, e da espiral dos défices, já, ali ao Norte de Portugal, um clube de futebol emergia da obscuridade- eles dizem que foi mérito da democracia- e construía um modelo de referência para o Mundo do Futebol. Qual o segredo? Simples. Assobiar ao “venture capital”, perdão, “capital de risco”, e fazê-lo transportar em linha por lanchas rápidas desde Vigo ou La Coruña. Que lhes pode ensinar Krugman ou Gates? Nada.

Saltemos por cima das ciências secundárias e dos saberes particulares e concentremo-nos sócios no campo unificador da Política, em especial, na ciência Primeira da Governação. A nossa, claro.

Como se sabe, o governo de Passos Coelho tomou posse já com programa escrevinhado e aprovado. Com esta etapa sempre entediante cumprida, a governação pode dar-se ao luxo de umas sestas suplementares, entre as sestas regulares e os períodos normais de não vigília. Mas não há bela sem senão e o senão é que não há direito ao canónico estado de graça. Aqueles 100 dias, nos dizeres de um poeta neo-realista ribatejano e de um comediante prussiano, em que toda a esperança é possível e os erros são verdades mal desenvolvidas.

Pode, pois, e deve, o Javali Sentado avançar já com uma avaliação preliminar destas primeiras quinzenas- preferimos esta unidade de conta, um dia explicamos- da Governação.

O primeiro a demitir-se até ao Natal deverá ser o Álvaro Santos Pereira, o ministro da Economia e do Emprego.
Álvaro, vamos tratá-lo assim, é um investigador publicado, um democrata anglo-saxónico, um economista inteligente e ambicioso....mas muito platónico. Quando perceber que àquela promoção constrangedora das indústrias criativas, em nome do emprego, claro, segue-se nada, pois, zarpa para Vancouver e deixa aos colegas “A Vantagem de Ser Bobo” de Clarice Lispector.
É bom de considerar que há décadas as Caldas da Rainha vêm produzindo o melhor artesanto lusitano, só que ninguém lhe chamava indústria criativa. E não se diga que é monocultura e monotemático. Há frades, há freiras, há Eusébios, há canecas, há gaitas, há galheteiros e por aí fora. Tudo para o Caldas.


JSP aka Xiconhoca.come

PS: Noutra oportunidade, abordaremos o pior do Crato.