O aroma antes
Sangue o silêncio afluente
Nas entrelinhas o corpo húmido
Dedos se espraiam dentro
A mão desfaz-se em ancas e colinas e seios
O olhar retido na magia da carne a deslaçar em nós de silêncio
A noite dentro ardendo de uvas que estalam
De frutos estão os aromas
As uvas a mulher macieiras
Haverá gramáticas um lirismo de cá
Dos frutos os cantos se fizeram
De amores os anos e a ilha
Peixes sem eito refractários a qualquer interior na outra ordem que ordena
A impedir que de palavras
Se fabriquem aromas
Os dedos vadios
O destino no inominável vital
Deslocalizadas na aragem as pedras falam
Fora parece ontem encadeamentos
Inclassificável a porta calada
A cal a preto pão da planície soprado na noite que sobe?
Emílio Navarro Soler
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Peixe tem ciúme
Peixe tem ciúme tem guelra peixe tem espinha quem que duvida peixe é muito tamanho diferente e se tem ciúme tem ciúme de tamanho diferente ciúme grande e ciúme que engole ciuminho
peixe tamanho elefante assim também comprido como piton ou cilindro tem peixe cilindro peixe cilindro tem ciúme que cilindra peixe ciúme morde? Não
nunca vi peixe ciúme não tenho cana apropriada nem isco nem anzol para peixe ciúme sou pezinho de coentrada pezinho dança sem ciúme só pontapé disléxico nem que intencionado
peixe porco sim sei de peixe porco sei que tem peixe porco tem ciúme porque é omnívoro e omnívoro tem tudo para comer tudo e come ciúme quando comes ciúme adquires
não é porco peixe porco peixe porco não tem febra tem escama já viu porco com escama tem? não tem só tem peixe porco quem diz peixe diz bexiga natatória diz guelra diz o quê diz peixe
peixe tem sua vida dentro de água dentre de água tem ciúme na alga tem muito mundo tem coral tem rocha tem tubarão não tem carneiro tem balança não tem não tem horóscopo tem sal tem vida sal flor de vida
tem baleia sim baleia tem ciúme tem sim baleia é mamífero tem ciúme mamífero mama tem ciúme ciúme é coisa de teta vem na teta então ciúme é leite
ciúme complicado é ciúme de baleia porque é muito ciúme é ciúme grande esse tem tsunami é ciúme maremoto
BENJAMIM SAGUATE
peixe tamanho elefante assim também comprido como piton ou cilindro tem peixe cilindro peixe cilindro tem ciúme que cilindra peixe ciúme morde? Não
nunca vi peixe ciúme não tenho cana apropriada nem isco nem anzol para peixe ciúme sou pezinho de coentrada pezinho dança sem ciúme só pontapé disléxico nem que intencionado
peixe porco sim sei de peixe porco sei que tem peixe porco tem ciúme porque é omnívoro e omnívoro tem tudo para comer tudo e come ciúme quando comes ciúme adquires
não é porco peixe porco peixe porco não tem febra tem escama já viu porco com escama tem? não tem só tem peixe porco quem diz peixe diz bexiga natatória diz guelra diz o quê diz peixe
peixe tem sua vida dentro de água dentre de água tem ciúme na alga tem muito mundo tem coral tem rocha tem tubarão não tem carneiro tem balança não tem não tem horóscopo tem sal tem vida sal flor de vida
tem baleia sim baleia tem ciúme tem sim baleia é mamífero tem ciúme mamífero mama tem ciúme ciúme é coisa de teta vem na teta então ciúme é leite
ciúme complicado é ciúme de baleia porque é muito ciúme é ciúme grande esse tem tsunami é ciúme maremoto
BENJAMIM SAGUATE
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Uma canganhiça lixada
Fizeram-me canganhiça o meu pé não pousa minha perna não anda
meu olho vê para dentro mas não nada para fora está quieto de paisagens que não fixa
foi espírito malvado uma canganhiça dos antigos
vais no mato estás a pisar o capim pensas que é cobra nada é canganhiça
foi mesmo feio de chicuembo falso entre duas pedras e cabeça de macaco desorbitado quando tens cabeça de macaco desorbitado tens poder só assembleia de espírito
nem com dúzia de pescoço de galinha não apaziguas nem resolves com raiz de capim alto nada aí tens mesmo de parar e fazer dança ritual
despejas duas garrafas do uísque na base do poilão poilão grande despejas quatro aí talvez mas mais as galinha claro as galinha guardas pescoço pescoço de galinha apazigua cabeça de macaco desorbitado
foi meu falecido pai que ensinou ensinou com abecedário meu pai sabia de feitiço
fazia feitiço de pedagogia com pedras sete pedras
não posso receitar ainda que não tive revelação nocturna nem árvore nem vento que me falou no ouvido interno nada nem no subconsciente que fica depois do ouvido interno
para dar receita não estou autorizado
quem me ajuda a desenfeitiçar olho e perna
tem curandeiro no facebook?
Benjamim Saguate
meu olho vê para dentro mas não nada para fora está quieto de paisagens que não fixa
foi espírito malvado uma canganhiça dos antigos
vais no mato estás a pisar o capim pensas que é cobra nada é canganhiça
foi mesmo feio de chicuembo falso entre duas pedras e cabeça de macaco desorbitado quando tens cabeça de macaco desorbitado tens poder só assembleia de espírito
nem com dúzia de pescoço de galinha não apaziguas nem resolves com raiz de capim alto nada aí tens mesmo de parar e fazer dança ritual
despejas duas garrafas do uísque na base do poilão poilão grande despejas quatro aí talvez mas mais as galinha claro as galinha guardas pescoço pescoço de galinha apazigua cabeça de macaco desorbitado
foi meu falecido pai que ensinou ensinou com abecedário meu pai sabia de feitiço
fazia feitiço de pedagogia com pedras sete pedras
não posso receitar ainda que não tive revelação nocturna nem árvore nem vento que me falou no ouvido interno nada nem no subconsciente que fica depois do ouvido interno
para dar receita não estou autorizado
quem me ajuda a desenfeitiçar olho e perna
tem curandeiro no facebook?
Benjamim Saguate
terça-feira, 16 de agosto de 2011
A antropofagia que nos une
Janelas em odores calados e estáticos
A amálgama dos dias no fio
Os dedos como menires
E o tempo da erosão anunciando
Novos paradigmas de carne enrugada
Azuis passeiam-se
Lentos nas encostas das dunas e parágrafos
As dunas são lentas
E movem-se ou são rápidas e movem-se
Mais rápidas que o amor
As dunas enraízam-se no léxico
O tempo que isso leva a ver não está já na nossa disponibilidade
E elas trabalham em horário completo
Descem pela noite e de dia queimam
Sobem pelos dias e de noite formam-se novas
Por isso queimamos o tempo em cigarros de dedos
Não temos o dom das dunas
Relógios de instante nervoso
Tempo pequenino psicológico
Os pulmões explodem de cinzento que não preenche
Estamos então na porta da velocidade
A cumprir o programa quotidiano
Passam lentas as catraias na rede embaciada do olhar
Lentas de decifrar e rápidas a sorrir
E as dunas são milenares
Antes o mar depois o fogo
E as palavras são muito depois do magma
O magma e a cinza
São o mesmo corpo
A cinza corpo de dunas
Escreve na sua imensa face antracite
Pela pedra abaixo até à rebentação de espumas incessante
Milenar e extensa encosta como não somos a sua medida
Nem essa coisa da metáfora
Cabe na encosta negra
Foi na leva do fogo escorrendo
O canibalismo de lírico tinha a escuta
A sintaxe elementar era basicamente canina
Apenas o corpo e a sua sageza rafeira
A azagaia mais tarde
Corre o tempo contra o vento ao encontro do corpo
O tempo era o faro antes do tempo
O tempo animal
O silêncio a ameaça
Mais tarde o vocabulário fez da duna metáfora
Muito mais tarde
Os olhos deixaram as unhas e passaram de ver a ser vistos
Os pássaros entraram nas rimas
E muito mais tarde os motores e o carvão a mina
Fogo incandescente a cavar a rocha
A mina e a pedra na pedra
Na pedra as vidas foram a pique
Para o calado negro da noite ardendo
Fogos de fornos crematórios depois
No tempo do canibalismo pior que elementar
Queimadas de corpos ardendo em pira e valas
Tudo isso enquanto a duna se manteve mutante
Depois da carnificina
A carnificina doce
Depois do amor as suas descartáveis formas
Como o voo rápido do pássaro que se sonha
No tempo das fábricas
As palavras em espinhos
No tempo entretido do espectáculo
Morremos soterrados de imagens
Essa coisa de mortos vivos
É extraordinária poesia de Beckett
Imóveis a repetir os gestos
Enquanto as dunas se movem
Longe da vista
Na batida do cosmos
O seu coração
É algures
Entre o princípio e a primeira explosão
No centro do magma
A vida resiste a temperaturas inexcedíveis
Dizem essa coisa extraordinária
Que é vir do nada
A duna desce a duna desce na duna
O tempo do cigarro azula
O silêncio dos dedos prescreve
E as fábricas são novas Cretas de vasos cuneiformes
Nos vasos as ancas pelo silêncio do traço subindo lentas
As miúdas da última psicose do corpo abstraídas da pose
Quando o titânio recente for absolutamente derrotado e
Não pertencer a nenhuma liga
Entramos definitivamente na nova galáxia de medos
E o governo das almas será uma gestão dos medos
Os medos plantados do medo
Entretanto a maçã também azula
É essa coisa da imagem
A devorar-nos como uma maré
Que entra segura pela cabeça dentro
O mar
Esse
Estará de novo
Em formação de novos continentes
O vocabulário será amplamente mutável e inscrever-se-á
Nas cabeças como rubis e pérolas
Essas novas minas humanas
Serão muito procuradas
Pelos caçadores de novas sintaxes
Emílio Navarro Soler
A amálgama dos dias no fio
Os dedos como menires
E o tempo da erosão anunciando
Novos paradigmas de carne enrugada
Azuis passeiam-se
Lentos nas encostas das dunas e parágrafos
As dunas são lentas
E movem-se ou são rápidas e movem-se
Mais rápidas que o amor
As dunas enraízam-se no léxico
O tempo que isso leva a ver não está já na nossa disponibilidade
E elas trabalham em horário completo
Descem pela noite e de dia queimam
Sobem pelos dias e de noite formam-se novas
Por isso queimamos o tempo em cigarros de dedos
Não temos o dom das dunas
Relógios de instante nervoso
Tempo pequenino psicológico
Os pulmões explodem de cinzento que não preenche
Estamos então na porta da velocidade
A cumprir o programa quotidiano
Passam lentas as catraias na rede embaciada do olhar
Lentas de decifrar e rápidas a sorrir
E as dunas são milenares
Antes o mar depois o fogo
E as palavras são muito depois do magma
O magma e a cinza
São o mesmo corpo
A cinza corpo de dunas
Escreve na sua imensa face antracite
Pela pedra abaixo até à rebentação de espumas incessante
Milenar e extensa encosta como não somos a sua medida
Nem essa coisa da metáfora
Cabe na encosta negra
Foi na leva do fogo escorrendo
O canibalismo de lírico tinha a escuta
A sintaxe elementar era basicamente canina
Apenas o corpo e a sua sageza rafeira
A azagaia mais tarde
Corre o tempo contra o vento ao encontro do corpo
O tempo era o faro antes do tempo
O tempo animal
O silêncio a ameaça
Mais tarde o vocabulário fez da duna metáfora
Muito mais tarde
Os olhos deixaram as unhas e passaram de ver a ser vistos
Os pássaros entraram nas rimas
E muito mais tarde os motores e o carvão a mina
Fogo incandescente a cavar a rocha
A mina e a pedra na pedra
Na pedra as vidas foram a pique
Para o calado negro da noite ardendo
Fogos de fornos crematórios depois
No tempo do canibalismo pior que elementar
Queimadas de corpos ardendo em pira e valas
Tudo isso enquanto a duna se manteve mutante
Depois da carnificina
A carnificina doce
Depois do amor as suas descartáveis formas
Como o voo rápido do pássaro que se sonha
No tempo das fábricas
As palavras em espinhos
No tempo entretido do espectáculo
Morremos soterrados de imagens
Essa coisa de mortos vivos
É extraordinária poesia de Beckett
Imóveis a repetir os gestos
Enquanto as dunas se movem
Longe da vista
Na batida do cosmos
O seu coração
É algures
Entre o princípio e a primeira explosão
No centro do magma
A vida resiste a temperaturas inexcedíveis
Dizem essa coisa extraordinária
Que é vir do nada
A duna desce a duna desce na duna
O tempo do cigarro azula
O silêncio dos dedos prescreve
E as fábricas são novas Cretas de vasos cuneiformes
Nos vasos as ancas pelo silêncio do traço subindo lentas
As miúdas da última psicose do corpo abstraídas da pose
Quando o titânio recente for absolutamente derrotado e
Não pertencer a nenhuma liga
Entramos definitivamente na nova galáxia de medos
E o governo das almas será uma gestão dos medos
Os medos plantados do medo
Entretanto a maçã também azula
É essa coisa da imagem
A devorar-nos como uma maré
Que entra segura pela cabeça dentro
O mar
Esse
Estará de novo
Em formação de novos continentes
O vocabulário será amplamente mutável e inscrever-se-á
Nas cabeças como rubis e pérolas
Essas novas minas humanas
Serão muito procuradas
Pelos caçadores de novas sintaxes
Emílio Navarro Soler
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Caro Xico Saguate meu primo direito sempre
Escrevo-te sobre o bicho bigode lambe que trouxe infelicidade
O bicho como era não sai do mato só cobra sai mamba preta que cospe tira a vida o bicho bicho que vinha na estrada caravana a passar já não tem não vês onde se meteu comeram nos tempos ias na estrada e vinham os bicho eu que me recordo a passar o grande Save na carga sobre o oleado a cacimba nos joelhos a estrela no tecto abóbada de cima assim placenta de cor sem fim com filho estrela pendurado até outra galáxia tinha galáxia de madrugada quando tudo está calado menos cobra raspa que raspa na areia e bicho nos tempos corria na picada livre como bicho livre como natureza eram os tempos do bicho gala-gala também esses
o bicho reformou esse javali ouriço gazela macaco cudo reformou a natureza reforma também velhece corpo e bicho que aparece tem dente branco mesmo branco brilhante que marfim polido de branco olho de ratazana mãos de mabandido come metical nem sal com à primeira de olho fechado e ventre pronunciado ventre dobra o cabo do umbigo ventre gordo é prestígio a gente sabe que é assim magro aqui no capim nacional não tem beleza a gente sabe gordura não é formosura é poder escreveu a LENINA em abril nas sete teses se eram sete tudo que tem sete é verdade mesmo as saia da nazarena da catembe e poder da gordura é formosura gordura come magreza é luta de classe cabrito come onde tá marrado cabrito come papel cabrito come tudo cabrito parece bicho do metical tem bicho do papel sabia bicho de biblioteca sabia bicho come livro come letra comer palavra come parágrafo algum só come pontuação é caviar para bicho de papel há bicho especializado em reticência sabia bicho mais que fodido acabou com a biblioteca nacional de uma país que não tem nacional nada mascou fio de electricidade já nem papel curtocircuitou tudo comeu interruptor
qual o cu qual é ele que é bonito e não desvaloriza: o cu grande meu
grande é bonita uma verdade
cu magro cu magro nem dá para cantar
esse bicho de novo tipo vende influência que é uma nova espécie hortícola se tens influência tens conta bancário e progrides
hipopótamo já nem InKomáti vê nem nada andava ali aquela bocarra de agarrar o mundo nas mandíbulas nada e lembro mesmo desse até vi dos miradouro só com olho bom da infância lá nas curvas mais apertadas esquecidas lá onde o longe não tem pé que o alcance nas paisagem da memória
bife escasseia andamos precários mandioca sofreu ataques de rato de rato mesmo e de rato regime mesmo tempo anda mal e mesmo nem gota a gota conheces gota a gota é invenção da seca gota a gota de lágrima não cresce mandioca só ruga rego ribeiro menino de desespero conheces e nem suruma ajuda nada já nem dá tesão de sonhar como dantes
aqui na Manhiça estamos fodido e o velho que deu o cabrito à primeira dama agora não come está fodido estamos fodido colectivamente não sei primo se me podes abonar umas tenças nem que seja poucas UMAS ASSIM MESMO POUCOCHINHAS COMO TROCO ESQUECIDIO NA FÓRMICA DA MESA ANTIGA DO CAFÉ DA ESTRADA única aquele mesmo do senhor simão pequeno que gaguejava umas letras em ronga
a estrada vai bem foi chinês ou italiano ou não sei e braço nosso braço com currículo de pedra e alcatrão alcatrão e sol areia que deitava fumo alcatrão que ferve calor maior que alguma vez sol inventou nada nem cacimbava ajuda não tem cacimba cacimbo era bom orvalhava nas folha e raiz sugava cacimba como bicho também está a esgotar não tem nem stock como bicho dos tempos não tem stock só tem stock no kruger
estás a ver esse destino primo aqui na Manhiça piorou destino de ver passar a vida ver passar o carro vai no carro vai no mundo vai Bilene vai Xai Xai vai chongoene quissico zavala závora tofo vai para vais no norte do planeta crise tudo como antigamente mas pior quem explica isso primo quem explica ninguém explica Chongoene lembra Chongoene pois nem um daqueles peixinho piquinino dos tempos daquele arco-íris com guelra que cirandava na água não tem primo nem nada
nem que já saímos do quintal os pés incha a estrada já fica longe quando as perna anda menos a perna já não tens os metro que tinha os km que tinha na perna foi-se e se tens reforma nem que é Saguate de pedinte na paragem do machimbombo não chega ainda tentei amendoim negócio de amendoim que outro chama alcagoita esse preto que tem na amareleja conservado em tinto e até que fiz um colectivo de mamana com bacia de plástico vivo vermelho com amendoim até à borda para aproveitas a janela de oportunidade quando machimbombo pára na estrada para meter transportado e mendoim mendoim tudo cantado como no mercado e nada ninguém compra e até quesse markteing nem que era mau alguidar sobressaía mais que a mil metro vermelho mesmo maningue
machimba mesmo de vida machimba mesmo
e se plantas vais preso que fazes? Mandioca nada amendoim difícil rato só chinês
quando descolonizou ninguém explicou que come rato come carapau nada milho mirrou que fazes nem nescafé nada nem leite condensado nada não comes alguidar pois não e na manhiça não tem grilos já ninguém canta só cocoana canta canta suruma com os olhos nas primícia da galinha sacrifício sim que o meu pai morto está a ver-me está a ver se sou pessoa ou rato
cocoana não desiste da bengala sempre coxo atrás da miséria farrapado tem menos tecido que carne que não tem
Manhiça há-de acordar Manhiça teme espírito antigo e raiz grande de gente séria
Manhiça é um mato progressista na beira da estrada sabe que tem estrada e dá para partir dá para chegar não primo manda saguate ao primo saguate para investir mandas
a coisa aqui está preta
do teu primo sempre sempre
Saguate, Benjamim
O bicho como era não sai do mato só cobra sai mamba preta que cospe tira a vida o bicho bicho que vinha na estrada caravana a passar já não tem não vês onde se meteu comeram nos tempos ias na estrada e vinham os bicho eu que me recordo a passar o grande Save na carga sobre o oleado a cacimba nos joelhos a estrela no tecto abóbada de cima assim placenta de cor sem fim com filho estrela pendurado até outra galáxia tinha galáxia de madrugada quando tudo está calado menos cobra raspa que raspa na areia e bicho nos tempos corria na picada livre como bicho livre como natureza eram os tempos do bicho gala-gala também esses
o bicho reformou esse javali ouriço gazela macaco cudo reformou a natureza reforma também velhece corpo e bicho que aparece tem dente branco mesmo branco brilhante que marfim polido de branco olho de ratazana mãos de mabandido come metical nem sal com à primeira de olho fechado e ventre pronunciado ventre dobra o cabo do umbigo ventre gordo é prestígio a gente sabe que é assim magro aqui no capim nacional não tem beleza a gente sabe gordura não é formosura é poder escreveu a LENINA em abril nas sete teses se eram sete tudo que tem sete é verdade mesmo as saia da nazarena da catembe e poder da gordura é formosura gordura come magreza é luta de classe cabrito come onde tá marrado cabrito come papel cabrito come tudo cabrito parece bicho do metical tem bicho do papel sabia bicho de biblioteca sabia bicho come livro come letra comer palavra come parágrafo algum só come pontuação é caviar para bicho de papel há bicho especializado em reticência sabia bicho mais que fodido acabou com a biblioteca nacional de uma país que não tem nacional nada mascou fio de electricidade já nem papel curtocircuitou tudo comeu interruptor
qual o cu qual é ele que é bonito e não desvaloriza: o cu grande meu
grande é bonita uma verdade
cu magro cu magro nem dá para cantar
esse bicho de novo tipo vende influência que é uma nova espécie hortícola se tens influência tens conta bancário e progrides
hipopótamo já nem InKomáti vê nem nada andava ali aquela bocarra de agarrar o mundo nas mandíbulas nada e lembro mesmo desse até vi dos miradouro só com olho bom da infância lá nas curvas mais apertadas esquecidas lá onde o longe não tem pé que o alcance nas paisagem da memória
bife escasseia andamos precários mandioca sofreu ataques de rato de rato mesmo e de rato regime mesmo tempo anda mal e mesmo nem gota a gota conheces gota a gota é invenção da seca gota a gota de lágrima não cresce mandioca só ruga rego ribeiro menino de desespero conheces e nem suruma ajuda nada já nem dá tesão de sonhar como dantes
aqui na Manhiça estamos fodido e o velho que deu o cabrito à primeira dama agora não come está fodido estamos fodido colectivamente não sei primo se me podes abonar umas tenças nem que seja poucas UMAS ASSIM MESMO POUCOCHINHAS COMO TROCO ESQUECIDIO NA FÓRMICA DA MESA ANTIGA DO CAFÉ DA ESTRADA única aquele mesmo do senhor simão pequeno que gaguejava umas letras em ronga
a estrada vai bem foi chinês ou italiano ou não sei e braço nosso braço com currículo de pedra e alcatrão alcatrão e sol areia que deitava fumo alcatrão que ferve calor maior que alguma vez sol inventou nada nem cacimbava ajuda não tem cacimba cacimbo era bom orvalhava nas folha e raiz sugava cacimba como bicho também está a esgotar não tem nem stock como bicho dos tempos não tem stock só tem stock no kruger
estás a ver esse destino primo aqui na Manhiça piorou destino de ver passar a vida ver passar o carro vai no carro vai no mundo vai Bilene vai Xai Xai vai chongoene quissico zavala závora tofo vai para vais no norte do planeta crise tudo como antigamente mas pior quem explica isso primo quem explica ninguém explica Chongoene lembra Chongoene pois nem um daqueles peixinho piquinino dos tempos daquele arco-íris com guelra que cirandava na água não tem primo nem nada
nem que já saímos do quintal os pés incha a estrada já fica longe quando as perna anda menos a perna já não tens os metro que tinha os km que tinha na perna foi-se e se tens reforma nem que é Saguate de pedinte na paragem do machimbombo não chega ainda tentei amendoim negócio de amendoim que outro chama alcagoita esse preto que tem na amareleja conservado em tinto e até que fiz um colectivo de mamana com bacia de plástico vivo vermelho com amendoim até à borda para aproveitas a janela de oportunidade quando machimbombo pára na estrada para meter transportado e mendoim mendoim tudo cantado como no mercado e nada ninguém compra e até quesse markteing nem que era mau alguidar sobressaía mais que a mil metro vermelho mesmo maningue
machimba mesmo de vida machimba mesmo
e se plantas vais preso que fazes? Mandioca nada amendoim difícil rato só chinês
quando descolonizou ninguém explicou que come rato come carapau nada milho mirrou que fazes nem nescafé nada nem leite condensado nada não comes alguidar pois não e na manhiça não tem grilos já ninguém canta só cocoana canta canta suruma com os olhos nas primícia da galinha sacrifício sim que o meu pai morto está a ver-me está a ver se sou pessoa ou rato
cocoana não desiste da bengala sempre coxo atrás da miséria farrapado tem menos tecido que carne que não tem
Manhiça há-de acordar Manhiça teme espírito antigo e raiz grande de gente séria
Manhiça é um mato progressista na beira da estrada sabe que tem estrada e dá para partir dá para chegar não primo manda saguate ao primo saguate para investir mandas
a coisa aqui está preta
do teu primo sempre sempre
Saguate, Benjamim
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O lagarto sem sorrisos
Gala-gala anda escondido de patas partidas ou a moer convalescenças antigas
afinal também descolonizou tem crise de mosca não sei bem sei não tem crise de mosca e tem crise de melga não sei bem o que sei é que é raro mais muito mais que era nos tempos
e mesmo perdeu cor a cabeça era cor de papagaio em lagarto e era articulado cabeça articulado como marioneta gala-gala era repentes língua comprida e avenida corrida em tronco de árvore directamente a pique nas nuvens gala-gala não tem o inverso psico-somático da vertigem na cabeça corre ao contrário da queda nem Newton resolve pelo contrário só a gala-ciência explica e é descomplicado explicar mas essa não tem prestígio tem mezinha tem curandeiro tem feitiço e tira asma com raiz de molho tal como bacalhau e por essos razão a ciência não descortina pois a ciência só descortina com laboratório e gala-gala é inapanhável em LABO: tem horror da proveta e tem horror da luneta que microscopiza a gente pondo na gente na sua foto tipopasse em célula primogénita de sorriso amarelo microscópico em forma de piolho ainda mais piolho micro-piolho nem dá para coçar
pois tem cola no gancho do pé pata e isso explica o a pique no tronco a pata agarra como unha de gato dúvida: gala-gala tem unha de gato?
em qualquer tronco vai qualquer tronco é canja mas melhor na Acácia usa a grande mãe Acácia mãe de todas as avenidas árvores mãe Acácia e mais quando florida pois equação é: fodida florida o hífen é incorporado na metamorfose: metamofoda
desconhecida a anti-vertigem congénita antídoto implementada na imuno-eficiência
muito mais desconhecida que as crateras de Marte reconhecidas
cola a tudo a palma do pé e olha que as crateras de Marte mesmo maningue são maningue longe mais que maningue nices que também são pois fazem lembrar o que se chama paisagens lunar e essas são nices pois são vazias e precisamos de vazio que isto está cheio basta olhar as periferias pois nos centros estão cheios mas é de pasta a matéria dos bancos da meia dúzia
são longe de conhecer os galas mais que muitas voltas ao globo que é onde estamos e onde o gala-gala está também: somos vizinho desde as infâncias de cada um: eu no apartamento e ele na árvore minha janela dava para a árvore dele e a árvore dele dava para a minha janela lagartávamos os dois de madrugada eu sonhava na almofada o truque das estrelas acesas e ele hibernava efémero nas bordas de uma pétala de Acácia a nossa Acácia só nossa
dia de trabalho não dá para hibernar como antes dos tempos hibernava pouco coitado
e comia arroz de segunda como cão a trinca de primeira
os tempos trouxeram horário sabes o que é horário?
Que diz a ciência:
somos a biologia global gala-gala primeiro que sapiens pois gala-gala sobreviveu à implosão dinossaura: fez-se pequenino pequenino e passou despercebido na glaciação tal como o camelo sem as bossas no buraco da agulha
sei muito bem que a agulha é feminino e o gala-gala também e por isso alça a cabeça ao topar com ela e ganha cor como o outro eriça as pluma sempre que pensa na agulha eu nunca vi gala-gala menina é uma falha cultural mas foi-me transmitido que não coloria cabeça coloria antes entre as pernas também é muito bonito
tenho uma maldita dúvida: tem mesmo hífen? E será onde: entre o corpo e a cabeça? Hífen incorporado pois gala-gala nada de pescoço nem que tem sequer um arremedo mas não tem medo abre a boca e faz um fzzzzssszzzrrre maior que gato arranhado
eu acho que as mosca aquelas mosca que foi criada pelas lixeiras morais escolarizadas comeram o gala-gala e só deixaram lagartixa porque lagartixa é mais inapanhável ainda e mais secreta mais humanizada gala-gala fica de pasmo pois tem costela ingénua de boi para palácio e aí a mosca lança o dente a mosca pequenoburguesa é lixada e na crise mata o mano e a mãe quanto mais o gala-gala
comeram-no extinguido só falta decreto
o carapau não sabe
Benjamim Saguate Chicuembo
primo alargado de Xico Nem Saguate (dos Saguates Nem da Manhiça)
afinal também descolonizou tem crise de mosca não sei bem sei não tem crise de mosca e tem crise de melga não sei bem o que sei é que é raro mais muito mais que era nos tempos
e mesmo perdeu cor a cabeça era cor de papagaio em lagarto e era articulado cabeça articulado como marioneta gala-gala era repentes língua comprida e avenida corrida em tronco de árvore directamente a pique nas nuvens gala-gala não tem o inverso psico-somático da vertigem na cabeça corre ao contrário da queda nem Newton resolve pelo contrário só a gala-ciência explica e é descomplicado explicar mas essa não tem prestígio tem mezinha tem curandeiro tem feitiço e tira asma com raiz de molho tal como bacalhau e por essos razão a ciência não descortina pois a ciência só descortina com laboratório e gala-gala é inapanhável em LABO: tem horror da proveta e tem horror da luneta que microscopiza a gente pondo na gente na sua foto tipopasse em célula primogénita de sorriso amarelo microscópico em forma de piolho ainda mais piolho micro-piolho nem dá para coçar
pois tem cola no gancho do pé pata e isso explica o a pique no tronco a pata agarra como unha de gato dúvida: gala-gala tem unha de gato?
em qualquer tronco vai qualquer tronco é canja mas melhor na Acácia usa a grande mãe Acácia mãe de todas as avenidas árvores mãe Acácia e mais quando florida pois equação é: fodida florida o hífen é incorporado na metamorfose: metamofoda
desconhecida a anti-vertigem congénita antídoto implementada na imuno-eficiência
muito mais desconhecida que as crateras de Marte reconhecidas
cola a tudo a palma do pé e olha que as crateras de Marte mesmo maningue são maningue longe mais que maningue nices que também são pois fazem lembrar o que se chama paisagens lunar e essas são nices pois são vazias e precisamos de vazio que isto está cheio basta olhar as periferias pois nos centros estão cheios mas é de pasta a matéria dos bancos da meia dúzia
são longe de conhecer os galas mais que muitas voltas ao globo que é onde estamos e onde o gala-gala está também: somos vizinho desde as infâncias de cada um: eu no apartamento e ele na árvore minha janela dava para a árvore dele e a árvore dele dava para a minha janela lagartávamos os dois de madrugada eu sonhava na almofada o truque das estrelas acesas e ele hibernava efémero nas bordas de uma pétala de Acácia a nossa Acácia só nossa
dia de trabalho não dá para hibernar como antes dos tempos hibernava pouco coitado
e comia arroz de segunda como cão a trinca de primeira
os tempos trouxeram horário sabes o que é horário?
Que diz a ciência:
somos a biologia global gala-gala primeiro que sapiens pois gala-gala sobreviveu à implosão dinossaura: fez-se pequenino pequenino e passou despercebido na glaciação tal como o camelo sem as bossas no buraco da agulha
sei muito bem que a agulha é feminino e o gala-gala também e por isso alça a cabeça ao topar com ela e ganha cor como o outro eriça as pluma sempre que pensa na agulha eu nunca vi gala-gala menina é uma falha cultural mas foi-me transmitido que não coloria cabeça coloria antes entre as pernas também é muito bonito
tenho uma maldita dúvida: tem mesmo hífen? E será onde: entre o corpo e a cabeça? Hífen incorporado pois gala-gala nada de pescoço nem que tem sequer um arremedo mas não tem medo abre a boca e faz um fzzzzssszzzrrre maior que gato arranhado
eu acho que as mosca aquelas mosca que foi criada pelas lixeiras morais escolarizadas comeram o gala-gala e só deixaram lagartixa porque lagartixa é mais inapanhável ainda e mais secreta mais humanizada gala-gala fica de pasmo pois tem costela ingénua de boi para palácio e aí a mosca lança o dente a mosca pequenoburguesa é lixada e na crise mata o mano e a mãe quanto mais o gala-gala
comeram-no extinguido só falta decreto
o carapau não sabe
Benjamim Saguate Chicuembo
primo alargado de Xico Nem Saguate (dos Saguates Nem da Manhiça)
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
D’ hoje e de quinhentos
Não, nada de crise, não pesco. Já tem quinhentos anos, desde que a pedra grande na linha do horizonte nos vê, no cais que não era cais mas mato, o cafre de azagaia, meu primo, no cimo da duna, mais de gala-gala que enraivecido que de gente, nunca foi diferente – linha do horizonte a gente tem no olho e usa quando pode olhar o longe, menos vezes que costuma, pois costuma olhar o perto, dia a dia, o perto, o esperto é quem manda e esse olha longe, mesmo o porta-moedas, o esperto vê-o cheio quando está vazio, a gente não, a gente amocha, a gente tem que não tem, o nada na mão tem. A gente crise sempre, desde os tempos. Quando meteram pé na areia só olharam a vantagem, a mamita, a marmita, o rabito, o entre pernas e outras guloseima, mais a vantagem das tenças, terra por missanga, a vantagem da barriga contente bater palmas com a planta dos pés, a vantagem da bunda prateleira além de rego livre faça favor, a bunda, assim mais mesmo mais virada para a lua, como cão, sem vergonha, só tesão e fenda na perspectiva. Tesão é arte, de artesão e faz com trabalho manual e anal e mesmo pela frente, como for, de alto ao chão dos pés e de cima para baixo e vice-versa.
Contaram assim mesmo: agora é crise, grande. Não que não sei, sei mesmo da mesma. Já o tinha, a crise, sempre foi meu, ela. De manhã crise: a crise do mata-bicho. No meio do dia crise, o almoço fora do prato, nem prato, nem almoço, só talher e aí imaginavas, cheiravas o porvir. Não vale sequer brincar ao jantar. Talher sim, herança colonial. Talher completo: faca, colher de sopa, garfo, colher de sobremesa, garfo minhoca, e prato – nunca cá percebi porque a colher uma era sobremesa e outro era grande, sobremesa era tudo e sob a mesa era perna e pé, sapato ou chinelo.
Prato azul de plástico, prato de plástico dura sempre, é como santo, não parte, santo de S. Já viu santo de S partir, partir assim como loiça? Sem Santo não tem milagre. E milagre é mezinha da crise. Põe milagre na crise e comes. Foi o que fiz. Pus milagre, assim um pouco, para não gastar todo, como gotas, a conta-gotas e a crise emagreceu, emagreceu ao ponto de me engrossar. Pouco, muito pouco, assim como a pele do tambor esticada a aumentar o umbigo, umbigo grande mas sem dentro, umbigo de esticado, não como a pele do tambor lassa, nada disso. Às vezes vai para dentro. Encolhe, mete-se dentro. Já viu barriga encolher? Encolhe, barriga encolhe. Única coisa que não encolhe é fome.
Já viu daqueles famintos a passar o mar e a ficar? Pobre é alimento. Mesmo quando só é osso alimenta, alimenta o mar que nunca pára de fazer cemitério e não pagas, não pagas nada, nem o pedaço de terra. E lá em Lampedusa continua, comes piza e voltas para trás, para o sítio da fome, despejado. Aqui não é assim. Aqui estamos na crise há mais de quinhentos anos e continuamos – quinhentos anos mais trinta e tais. Aqui a crise é como o ar que respiras, respiras crise e é por isso que quando respiras sentes a crise, pois ela entra nas narinas e toca no estômago a música dos ossos erodidos. Os ossos ficam em cornucópia quando a carne é pouca. Os ossos lassos ficam moles, como o que está por fora do pezinho de porco, aquela gelatina, aquela coisa mole que estica e contrai, mas não é a mesma coisa porque quando aperta a crise diminui mesmo a moleza que encobre o tutano até ficar zero. Tutano não conhece, a gente. A gente conhece osso e gelatina quando vai para velha. A crise sempre que esteve connosco. Sempre, sempre, ao lado do povo. Por isso quando fala crise a gente não estranha, a gente conhece. A crise é nossa prima e direita, e endireita sempre a gente.
Xico Nem Saguate
Contaram assim mesmo: agora é crise, grande. Não que não sei, sei mesmo da mesma. Já o tinha, a crise, sempre foi meu, ela. De manhã crise: a crise do mata-bicho. No meio do dia crise, o almoço fora do prato, nem prato, nem almoço, só talher e aí imaginavas, cheiravas o porvir. Não vale sequer brincar ao jantar. Talher sim, herança colonial. Talher completo: faca, colher de sopa, garfo, colher de sobremesa, garfo minhoca, e prato – nunca cá percebi porque a colher uma era sobremesa e outro era grande, sobremesa era tudo e sob a mesa era perna e pé, sapato ou chinelo.
Prato azul de plástico, prato de plástico dura sempre, é como santo, não parte, santo de S. Já viu santo de S partir, partir assim como loiça? Sem Santo não tem milagre. E milagre é mezinha da crise. Põe milagre na crise e comes. Foi o que fiz. Pus milagre, assim um pouco, para não gastar todo, como gotas, a conta-gotas e a crise emagreceu, emagreceu ao ponto de me engrossar. Pouco, muito pouco, assim como a pele do tambor esticada a aumentar o umbigo, umbigo grande mas sem dentro, umbigo de esticado, não como a pele do tambor lassa, nada disso. Às vezes vai para dentro. Encolhe, mete-se dentro. Já viu barriga encolher? Encolhe, barriga encolhe. Única coisa que não encolhe é fome.
Já viu daqueles famintos a passar o mar e a ficar? Pobre é alimento. Mesmo quando só é osso alimenta, alimenta o mar que nunca pára de fazer cemitério e não pagas, não pagas nada, nem o pedaço de terra. E lá em Lampedusa continua, comes piza e voltas para trás, para o sítio da fome, despejado. Aqui não é assim. Aqui estamos na crise há mais de quinhentos anos e continuamos – quinhentos anos mais trinta e tais. Aqui a crise é como o ar que respiras, respiras crise e é por isso que quando respiras sentes a crise, pois ela entra nas narinas e toca no estômago a música dos ossos erodidos. Os ossos ficam em cornucópia quando a carne é pouca. Os ossos lassos ficam moles, como o que está por fora do pezinho de porco, aquela gelatina, aquela coisa mole que estica e contrai, mas não é a mesma coisa porque quando aperta a crise diminui mesmo a moleza que encobre o tutano até ficar zero. Tutano não conhece, a gente. A gente conhece osso e gelatina quando vai para velha. A crise sempre que esteve connosco. Sempre, sempre, ao lado do povo. Por isso quando fala crise a gente não estranha, a gente conhece. A crise é nossa prima e direita, e endireita sempre a gente.
Xico Nem Saguate
domingo, 24 de julho de 2011
A divina cinética da frase
A porta dá
Para rios que sobem
Dunas fábricas
Latejando na brisa que entra
Imagens em folhas múltiplas de corola
A porta fechada chave perdida
Sabemos lá onde quem a deixou estará
Quanto mais da chave e ao fechá-la
O que se fechará que não seja íntimo
Lucro crime branqueamento?
Mas era a ficção e entrei
Os passos nas teclas
Soletrado pianíssimo e respirações contidas
Do lado de lá
Uma galáxia sem corpo
Vazio e portanto há que meter mobília
O sarro dos dias Esquinas
Uma caligrafia de gritos assinando um tempo qualquer
Um modo de uso finalmente
Osmose des utópica
Sai de um postal da cartola o ilimitado onde o sol se deita
De linha recta arrependida vindo
E uma chuva de meteoritos domesticados imobiliza-se
Explosão cardio cósmica contida
E não há clown nem deuses nem arame para suspender a respiração
No canto A Amora no centro do corpo
Preta mora a savana
E fica um segundo longo que pára
De respirar fundo no olhar cessado
Antuérpia
Velhos em mesas bordadas de canecas
Tropa xenófoba catarro e rugas de preconceito
O olhar para quem a porcelana vale o que o barro cru não tem
E isso não se discute nem o Vira lá do sítio
Um túnel em câmara ardente as pernas andam
Contador silencioso
O ar como se fora caviar na mastigação lenta
E na tela sobreposições aleatórias
Se por um momento existe o círculo e se procura de um qualquer diabo
Sei que nele habita sobredotado o génio de Deus
Conheço o medo que cultiva
E o alpiste de mão oculta que pratica
Cinema de sombras
O cabide tem ombros
Alguém da cortina para lá
E as folhas acenando
Onde isto vai já não há uma casa
Houve casa e paredes conhecidas
A curva de um odor comprometido que pede distância
E sigo
Nenhuma Loba em colina alguma
Nem pirâmides de Gisé no canto da folha
É uma necessidade
Que temos
Ordenar o mundo como a casa
A rua esgueira-se como um rio
A lua lá está
E a matéria dos monstros
Nos dedos nus
Emílio Navarro Soler
Para rios que sobem
Dunas fábricas
Latejando na brisa que entra
Imagens em folhas múltiplas de corola
A porta fechada chave perdida
Sabemos lá onde quem a deixou estará
Quanto mais da chave e ao fechá-la
O que se fechará que não seja íntimo
Lucro crime branqueamento?
Mas era a ficção e entrei
Os passos nas teclas
Soletrado pianíssimo e respirações contidas
Do lado de lá
Uma galáxia sem corpo
Vazio e portanto há que meter mobília
O sarro dos dias Esquinas
Uma caligrafia de gritos assinando um tempo qualquer
Um modo de uso finalmente
Osmose des utópica
Sai de um postal da cartola o ilimitado onde o sol se deita
De linha recta arrependida vindo
E uma chuva de meteoritos domesticados imobiliza-se
Explosão cardio cósmica contida
E não há clown nem deuses nem arame para suspender a respiração
No canto A Amora no centro do corpo
Preta mora a savana
E fica um segundo longo que pára
De respirar fundo no olhar cessado
Antuérpia
Velhos em mesas bordadas de canecas
Tropa xenófoba catarro e rugas de preconceito
O olhar para quem a porcelana vale o que o barro cru não tem
E isso não se discute nem o Vira lá do sítio
Um túnel em câmara ardente as pernas andam
Contador silencioso
O ar como se fora caviar na mastigação lenta
E na tela sobreposições aleatórias
Se por um momento existe o círculo e se procura de um qualquer diabo
Sei que nele habita sobredotado o génio de Deus
Conheço o medo que cultiva
E o alpiste de mão oculta que pratica
Cinema de sombras
O cabide tem ombros
Alguém da cortina para lá
E as folhas acenando
Onde isto vai já não há uma casa
Houve casa e paredes conhecidas
A curva de um odor comprometido que pede distância
E sigo
Nenhuma Loba em colina alguma
Nem pirâmides de Gisé no canto da folha
É uma necessidade
Que temos
Ordenar o mundo como a casa
A rua esgueira-se como um rio
A lua lá está
E a matéria dos monstros
Nos dedos nus
Emílio Navarro Soler
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Gravatas e lambretas
A realidade é fonte de prodígios. Ocorrem quando menos se espera e também surgem de onde não se imaginaria, por vezes de fontes que se julgaria secas e incapazes até de mais que a memória, de fertilidades ficcionais no lugar de ideias de poupança – a imaginação está agora virada para a dívida mas não é capaz do que os famintos de outrora souberam fazer: inventar o pão, melhor, a açorda e certamente os joaquinzinhos, já que pobreza é sempre companhia, não se é pobre sem ser a dois, pelo menos e o princípio do cardume é o mesmo da humanidade que mais pega de estaca. Pobre e só é caso mais que limite, é suicídio, por isso pobre é sempre muitos.
E são de muitas variedades os prodígios e os mais previsíveis, entre nós, como é sabido, encontram os seus territórios de proliferação no Entroncamento ou nas paisagens que habitam as anedotas alentejanas, para dar dois exemplos díspares quanto à natureza dos territórios e aos humores identificáveis nestas, o primeiro por assim dizer nacional – talvez por causa justamente da encruzilhada de linhas – e o segundo surreal. Conhecemos bem a história da batata do entroncamento, mesmo da melancia ou do tomate, ou par deles, conforme ao primeiro território e sabemos como voam elefantes sobre os chaparros quando os ninhos se instalam no interior profundo da planície, lá onde o Guadiana deixou de ser um rio para ser um mar definitivo, mar que no fundo é um mar de chaparros, ou melhor, O Mar do Chaparro como quem diz Mar da Mármara ou outro do género, Mar Morto, e esperamos que do seu fundo criativo não surja Adamastor algum mas antes um peixe javali com guelras secretas de porco preto implantadas para fins gastro/turísticos. Esse bicho da lenda por vir vai fazer lembrar uma figura de Bosh, Javali de guelras alçado entre dois caldeirões de pecados com catacuzes fumegantes, tríptico e petisco conhecido dos diabos proletarizados, caviar de luxo por ser temperado pelo crime de faca na liga, pelo adultério, pela briga vicinal e outros feitos braçais e de anca larga.
Até há pouco o mar alentejano era de trigo e espiga nas ondas de vento, agora é de água doce, coisa também só alentejana e de pernas para o ar, já que o sal é um ciclo de tempo alentejano mais que conhecido dos alimentos desde os tempos que o frigorífico enterrou para sempre e a água doce em mar uma invenção dos dinheiro europeus. Antes da electricidade o sal guardava das coisas a sua saúde e agora o mar traz o tal turismo, multiplicai-vos Algarves que de tal proliferação a abundância afogará os pobres de envilecida memória na grandeza dos shopingues por vir, shopingues palafita Alquevas fora. O próximo passo é plantar coqueiros nos buracos dos sobreiros e fazer a tal linha da praia mítica.
De humores tratavam os cirlugiões e os barbeiros sangradores, resolvendo diabos no corpo e outras manifestações de cariz epiléptico tomadas por manobras do demo, curando o doente pela definitiva eliminação deste e do seu mal.
É bem verdade, como persegue por palavras Ubaldo Ribeiro numa verdadeira reportagem da tragédia do corpo em Itaparica – mais natureza que realidade, pois esta é fabricada e a primeira nascida apenas - que há nesta ilha uma radioactividade de fundo sensual e que os habitantes são vítimas desse mal que se respira mal se respira, e entra pelos poros da pele sem autorização, sabendo-se que não tem remédio, não tem como evitar, nem contornar – não há rotunda possível aplicável ao caso a não ser redonda e infinitamente carnal, o que não se arranja assim do pé para a mão entre gente séria do sexo necessário ao caso, como é costume de Itaparica em que namorar necessita pelo menos de quarto de hora prévio, o que é muito tempo de espera para a erecção obsessivo maníaca ou para o cio incontinente.
Nem construindo muros de betão entre cada habitante, nem dotando cada um de escafandros de agilidade pós moderna, ninguém escapa ao assalto nem a ser assaltante. Eu estive em Itaparica e pude observar o facto e os flagrantes delitos de assédio ilimitado e múltiplo sucedendo-se a um ritmo que só me fez lembrar a Ilha de Camões a meio da costa índica, embora nesta, não fossem as mulheres macuas e o msiro e era só literatura à solta, apesar do verso alongado.
E para Itaparica levei guarda-costas, como a diplomacia mo dissera e guarda freios. Estive em missão científica dadas as teorias erotólogas e vaginómanas em questionamento dramatúrgico e sob observação científica: para um doutoramento sobre a problemática do tesão que perdura ou não e a sua extinção na Europa do meio ameaçando a do Sul. O título é obra do orientador e há que respeitar as hierarquias.
Mas a que propósito a gravata e mais ainda a lambreta? São também lembradas coisas curiosas, imaginações. Mas pequenas. Pequenos achados já encontrados, reencontrados diria – já em sessentas o movimento hippie levava isso a sério - mas que são mesmo falhas de imaginação.
Proibir-se a gravata, ou porventura liberalizar o uso – a cada um o seu calor próprio - , só pode ser ideia de quem a leva a sério. Abril foi há décadas e mesmo antes já ninguém a punha como instituição, a não ser aquele pequeno núcleo conhecido e os que primavam por uma disciplina britânica no pino do sol, missão diplomática, respeito do outro, sacrificando a maçã-de-adão sob o aperto esmagador do nó da gravata. Agora imaginar que a dívida se resolve liberalizando a gravata é o mesmo que imaginar que se voa recusando o combustível e poupando no voo necessário que não se realiza – uma sugestão seria poupar no 112, deixar a coisa resolver-se por si. Da lambreta não vale a pena falar, pois é mesmo coisa de Motas.
Governo infantil? Sem dúvida. Parque infantil mesmo. E agora que o Viegas nem é do Conselho de Ministros está tudo claro. O Ministro da Cultura é mesmo o Passos Coelho. Sempre que houver matéria cultural o homem cantará a plenos pulmões um qualquer fado de Coimbra, tanto dá.
fernando mora ramos
E são de muitas variedades os prodígios e os mais previsíveis, entre nós, como é sabido, encontram os seus territórios de proliferação no Entroncamento ou nas paisagens que habitam as anedotas alentejanas, para dar dois exemplos díspares quanto à natureza dos territórios e aos humores identificáveis nestas, o primeiro por assim dizer nacional – talvez por causa justamente da encruzilhada de linhas – e o segundo surreal. Conhecemos bem a história da batata do entroncamento, mesmo da melancia ou do tomate, ou par deles, conforme ao primeiro território e sabemos como voam elefantes sobre os chaparros quando os ninhos se instalam no interior profundo da planície, lá onde o Guadiana deixou de ser um rio para ser um mar definitivo, mar que no fundo é um mar de chaparros, ou melhor, O Mar do Chaparro como quem diz Mar da Mármara ou outro do género, Mar Morto, e esperamos que do seu fundo criativo não surja Adamastor algum mas antes um peixe javali com guelras secretas de porco preto implantadas para fins gastro/turísticos. Esse bicho da lenda por vir vai fazer lembrar uma figura de Bosh, Javali de guelras alçado entre dois caldeirões de pecados com catacuzes fumegantes, tríptico e petisco conhecido dos diabos proletarizados, caviar de luxo por ser temperado pelo crime de faca na liga, pelo adultério, pela briga vicinal e outros feitos braçais e de anca larga.
Até há pouco o mar alentejano era de trigo e espiga nas ondas de vento, agora é de água doce, coisa também só alentejana e de pernas para o ar, já que o sal é um ciclo de tempo alentejano mais que conhecido dos alimentos desde os tempos que o frigorífico enterrou para sempre e a água doce em mar uma invenção dos dinheiro europeus. Antes da electricidade o sal guardava das coisas a sua saúde e agora o mar traz o tal turismo, multiplicai-vos Algarves que de tal proliferação a abundância afogará os pobres de envilecida memória na grandeza dos shopingues por vir, shopingues palafita Alquevas fora. O próximo passo é plantar coqueiros nos buracos dos sobreiros e fazer a tal linha da praia mítica.
De humores tratavam os cirlugiões e os barbeiros sangradores, resolvendo diabos no corpo e outras manifestações de cariz epiléptico tomadas por manobras do demo, curando o doente pela definitiva eliminação deste e do seu mal.
É bem verdade, como persegue por palavras Ubaldo Ribeiro numa verdadeira reportagem da tragédia do corpo em Itaparica – mais natureza que realidade, pois esta é fabricada e a primeira nascida apenas - que há nesta ilha uma radioactividade de fundo sensual e que os habitantes são vítimas desse mal que se respira mal se respira, e entra pelos poros da pele sem autorização, sabendo-se que não tem remédio, não tem como evitar, nem contornar – não há rotunda possível aplicável ao caso a não ser redonda e infinitamente carnal, o que não se arranja assim do pé para a mão entre gente séria do sexo necessário ao caso, como é costume de Itaparica em que namorar necessita pelo menos de quarto de hora prévio, o que é muito tempo de espera para a erecção obsessivo maníaca ou para o cio incontinente.
Nem construindo muros de betão entre cada habitante, nem dotando cada um de escafandros de agilidade pós moderna, ninguém escapa ao assalto nem a ser assaltante. Eu estive em Itaparica e pude observar o facto e os flagrantes delitos de assédio ilimitado e múltiplo sucedendo-se a um ritmo que só me fez lembrar a Ilha de Camões a meio da costa índica, embora nesta, não fossem as mulheres macuas e o msiro e era só literatura à solta, apesar do verso alongado.
E para Itaparica levei guarda-costas, como a diplomacia mo dissera e guarda freios. Estive em missão científica dadas as teorias erotólogas e vaginómanas em questionamento dramatúrgico e sob observação científica: para um doutoramento sobre a problemática do tesão que perdura ou não e a sua extinção na Europa do meio ameaçando a do Sul. O título é obra do orientador e há que respeitar as hierarquias.
Mas a que propósito a gravata e mais ainda a lambreta? São também lembradas coisas curiosas, imaginações. Mas pequenas. Pequenos achados já encontrados, reencontrados diria – já em sessentas o movimento hippie levava isso a sério - mas que são mesmo falhas de imaginação.
Proibir-se a gravata, ou porventura liberalizar o uso – a cada um o seu calor próprio - , só pode ser ideia de quem a leva a sério. Abril foi há décadas e mesmo antes já ninguém a punha como instituição, a não ser aquele pequeno núcleo conhecido e os que primavam por uma disciplina britânica no pino do sol, missão diplomática, respeito do outro, sacrificando a maçã-de-adão sob o aperto esmagador do nó da gravata. Agora imaginar que a dívida se resolve liberalizando a gravata é o mesmo que imaginar que se voa recusando o combustível e poupando no voo necessário que não se realiza – uma sugestão seria poupar no 112, deixar a coisa resolver-se por si. Da lambreta não vale a pena falar, pois é mesmo coisa de Motas.
Governo infantil? Sem dúvida. Parque infantil mesmo. E agora que o Viegas nem é do Conselho de Ministros está tudo claro. O Ministro da Cultura é mesmo o Passos Coelho. Sempre que houver matéria cultural o homem cantará a plenos pulmões um qualquer fado de Coimbra, tanto dá.
fernando mora ramos
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domingo, 17 de julho de 2011
Sodré imaginário
No cais
As datas prescrevem
Ferrugem alucinada em mapas de corpos experimentados
Cerveja que baste e
Asas de borboletas
A escapar-se de um papel de parede que nunca foi
O olhar desenha as nuvens por entre os eléctricos
Os pés de asas aladas
Perdem-se no alcatrão total
A sacudir as migalhas de incomodidade de algum olhar que é esgar
O que as cidades trazem aos estuários surpreende
Pernas de cadeiras e abajours
Latas de tomate pelado e corpos silenciados
Armações óculos de lentes riscadas
Colher de pau solitária e receitas para estrelar ovos sem frigideira
A criação tem as suas gramáticas
O homem o seu desenrasca
Das nuvens
A memória paira suspensa no movimento que as tem
Para Sul
Andam e o olhar cessa
E não há Sócrates em nenhuma delas
A chinelar desesperado por um chão
E dizendo a Alcibíades que os bíceps
Pedem o mármore de Fídias
Nem nas nuvens há publicidade
A nenhum iogurte salvador
A virgem reformou-se é pena já não voa
E os deuses gregos não gostam deste céu têm o seu resort
Apenas um húmus aquoso
Vindo de um tempo anterior à terra
Um país um continente móvel
Uma sauna intercontinental
E lentamente passam entre fracturas de azul que mudam
De fractura entremeada
Em azul acinzentado entremeado
As datas prescrevem
Nas nostalgias reincidentes
Nos olhares envilecidos
Como nos outros
Perdem a vitalidade do sangue
A respiração de um tempo preciso
A pele das sensações concretas
Os compêndios enumeram-nas como os rios outrora
Mas nada disso transporta as nuvens como agora
Sobre este cais que os dedos podem percorrer
De odores únicos
Um timbre de atmosfera irrepetível
Mesmo um silêncio diferente
Sempre outro
Entre dois ecos distintos
O navio ao longe directamente de um poema conhecido
E o prato que caiu
De uma louça que guincha como não acontece ao barro
Não há horizontes
Apenas a sombra que as nuvens provocam no extenso
Mapa que se alonga de sopro íntimo
E que tanto pode ser um mar calmo
Como trigo sem limite
O trigo sem limite do pão que regressa
Sob o cais o mexilhão
Ganha com a ferrugem do tempo
O sal lento da vida que se deposita
Até que tudo se cristaliza
Sem postal possível
Sob a invisibilidade bela
Do que a sombra protege
Dos excessos de convergências plastificadas
Lançaram-se ali as palavras
Como no círculo atlético
Pedras na ponta de cordame rápido
Raízes aéreas de imagens
Em busca do interior das nuvens
Hortas celestes biológicas mais que lógicas
Por acontecer
Sem moldura nem forma proprietária possível nem mensuráveis
Não há hectares no Olimpo
Apenas rotas e tráfego aéreo de ponta
Em corredores precisos
E as sílabas as vogais as frases e os parágrafos os fonemas longos
São corpos a dançar nas estradas de respirações maiúsculas
Quem as atira provoca
Como os furações
Cornucópias de novas realidades
Móveis voadores
Pássaros azarados
Vestidos de noiva enlaçando postes de luz
Uma casa inteira como a de Chagall
E barcos alados
Como nunca visto
Mesmo algum ministro
No cais a partida
É para dentro
Para o arquipélago do verbo
Nada ecoa que não seja notado
A pele balança no coração da nuvem
A palavra sob a humidade
Do barro
Germina latejando
E não come lentilhas
Emílio Navarro Soler
As datas prescrevem
Ferrugem alucinada em mapas de corpos experimentados
Cerveja que baste e
Asas de borboletas
A escapar-se de um papel de parede que nunca foi
O olhar desenha as nuvens por entre os eléctricos
Os pés de asas aladas
Perdem-se no alcatrão total
A sacudir as migalhas de incomodidade de algum olhar que é esgar
O que as cidades trazem aos estuários surpreende
Pernas de cadeiras e abajours
Latas de tomate pelado e corpos silenciados
Armações óculos de lentes riscadas
Colher de pau solitária e receitas para estrelar ovos sem frigideira
A criação tem as suas gramáticas
O homem o seu desenrasca
Das nuvens
A memória paira suspensa no movimento que as tem
Para Sul
Andam e o olhar cessa
E não há Sócrates em nenhuma delas
A chinelar desesperado por um chão
E dizendo a Alcibíades que os bíceps
Pedem o mármore de Fídias
Nem nas nuvens há publicidade
A nenhum iogurte salvador
A virgem reformou-se é pena já não voa
E os deuses gregos não gostam deste céu têm o seu resort
Apenas um húmus aquoso
Vindo de um tempo anterior à terra
Um país um continente móvel
Uma sauna intercontinental
E lentamente passam entre fracturas de azul que mudam
De fractura entremeada
Em azul acinzentado entremeado
As datas prescrevem
Nas nostalgias reincidentes
Nos olhares envilecidos
Como nos outros
Perdem a vitalidade do sangue
A respiração de um tempo preciso
A pele das sensações concretas
Os compêndios enumeram-nas como os rios outrora
Mas nada disso transporta as nuvens como agora
Sobre este cais que os dedos podem percorrer
De odores únicos
Um timbre de atmosfera irrepetível
Mesmo um silêncio diferente
Sempre outro
Entre dois ecos distintos
O navio ao longe directamente de um poema conhecido
E o prato que caiu
De uma louça que guincha como não acontece ao barro
Não há horizontes
Apenas a sombra que as nuvens provocam no extenso
Mapa que se alonga de sopro íntimo
E que tanto pode ser um mar calmo
Como trigo sem limite
O trigo sem limite do pão que regressa
Sob o cais o mexilhão
Ganha com a ferrugem do tempo
O sal lento da vida que se deposita
Até que tudo se cristaliza
Sem postal possível
Sob a invisibilidade bela
Do que a sombra protege
Dos excessos de convergências plastificadas
Lançaram-se ali as palavras
Como no círculo atlético
Pedras na ponta de cordame rápido
Raízes aéreas de imagens
Em busca do interior das nuvens
Hortas celestes biológicas mais que lógicas
Por acontecer
Sem moldura nem forma proprietária possível nem mensuráveis
Não há hectares no Olimpo
Apenas rotas e tráfego aéreo de ponta
Em corredores precisos
E as sílabas as vogais as frases e os parágrafos os fonemas longos
São corpos a dançar nas estradas de respirações maiúsculas
Quem as atira provoca
Como os furações
Cornucópias de novas realidades
Móveis voadores
Pássaros azarados
Vestidos de noiva enlaçando postes de luz
Uma casa inteira como a de Chagall
E barcos alados
Como nunca visto
Mesmo algum ministro
No cais a partida
É para dentro
Para o arquipélago do verbo
Nada ecoa que não seja notado
A pele balança no coração da nuvem
A palavra sob a humidade
Do barro
Germina latejando
E não come lentilhas
Emílio Navarro Soler
domingo, 3 de julho de 2011
Grécias do mundo uni-vos
Nas Grécias os mitos vendem-se como ketchup
Desde que são decorativos
E não metem medo
Nem já rendem para a dívida cumprir
O transe agora é um dobrar a cerviz suado
Colorido pirotécnico
Os dentes na pose salarial
E os agiotas dormem menos
Desde que as greves se avizinham do parlamento
Têm medo das vozes do corpo
Já não se fala de Platão
Nem da caverna
Vêem tudo à primeira
Os filhos da crise
E não estão para essas ilusões
Sonhadas de sombras projectadas
Sombras chinesas sim
Pragmáticas mais do que qualquer confusão entre o real e um seu duplo
Enganador
Mundo de aparências quando o mundo real é clandestino
Um duplo como duplo mais que puro sósia
Duplos só uísques
O espectáculo apenas primeiro que a teta não confunde
É alimento desde que Hollywood é Olimpo
E telegenia demagógica
Nem estão eles
Nem estamos nós
Para suportar a poluição ideológica
Filoxera que corrói lá metida em pista falsa as colunas do Partenon
Pelo interior da sua lingerie de ligas ausentes
Pedra papiro pedaços da origem do que a poesia fundou
Em jogo voyeur e bicho do papel mil patas
A instaurar a catástrofe laboratorial
E nisso nos comprazermos
No jornal das nove
A inevitável queda diária
Nas quedas
Os juros não cantam doem
Na Grécia sempre se falou muito do pensamento
Mas agora fala-se a propósito
De vício de esplanadas
Como se os peripatéticos passeios
Não fossem esplanadas andantes
E fala-se de fora
De vocações de ócio sem redenção
De Retsinas de perdição
E que é necessário acabar com elas
Não produzem senão sol
E deslembrar de compromissos
Sorrir a quem quer comer mitos
E fritos
E mostra as coxas
Euro Americanas
Os gregos nisso são bestiais
Lojas de mitos recordações
Trouxas argilas corações
E as tropas do turismo
Nas suas sapatilhas cómodas
Para unhas encravadas e pé de atleta mental
Olham à hora
O à
La Minute que lhes fixa a eternidade
Num ápice
Um fundo calcário
No calendário
Com odor a Heraclito
Porque Heraclito nas suas contradições de fogo
Cheirava a pinhal e ao seu contrário
Mais que Sócrates cheirasse a respeito da lei
Quando para a cicuta o dispusessem
Eutanásia ética um pouco coxa dos tempos clássicos
Para educar efebos do regime dizem
E não sabemos se seria exactamente assim
Porque pintaram o Sócrates
Como quiseram com os pincéis da ordem
Conveniente e só nos resta gramar a verdade que os manuais foram Cobrindo do sarro que não sai
Zenão dobrava o joelho
Na mesma cena panorâmica
Em que Sócrates bebia a cicuta
E Platão olhava a projecção da cena da caverna no seu exterior
Primeiro cinema
Da metade de meio por meio
E a mio de outra metade interminável
Zenão fazia as contas
Ou qualquer porra no género
E era já um tecnocrata
Da geometria absurda
Infinidade da medida deslucro
Do fémur reincidente
E menina do olho desgastando-se
A palma da mão a metro esticada
De polegar a indicador
A dar a referência prática artesanal
Lentamente esculpida pela erosão
Que o vício transporta
Pelas noites inúteis fora
A nossa pachorra
Não se acomoda aos queixumes lacrimejantes
Da nova tragédia
Que todos os dias produz clímaxes
E faz cachas
E não há fígado que resista
Não se aguenta
Um quotidiano sempre de apocalipses
Para alka seltzer consumir
Como quem atura medíocres alcandorados na política a pessoas
E no parlamento a recém chegados à capital e ao capital
Um tornado é um tornado
E nos tornados
Os credores voam
Como qualquer outra merda
Papel por exemplo mesmo que carne
Ou ouro de lei
Esse que paga silêncios
Eis a natureza das coisas
Emílio Navarro Soler
Desde que são decorativos
E não metem medo
Nem já rendem para a dívida cumprir
O transe agora é um dobrar a cerviz suado
Colorido pirotécnico
Os dentes na pose salarial
E os agiotas dormem menos
Desde que as greves se avizinham do parlamento
Têm medo das vozes do corpo
Já não se fala de Platão
Nem da caverna
Vêem tudo à primeira
Os filhos da crise
E não estão para essas ilusões
Sonhadas de sombras projectadas
Sombras chinesas sim
Pragmáticas mais do que qualquer confusão entre o real e um seu duplo
Enganador
Mundo de aparências quando o mundo real é clandestino
Um duplo como duplo mais que puro sósia
Duplos só uísques
O espectáculo apenas primeiro que a teta não confunde
É alimento desde que Hollywood é Olimpo
E telegenia demagógica
Nem estão eles
Nem estamos nós
Para suportar a poluição ideológica
Filoxera que corrói lá metida em pista falsa as colunas do Partenon
Pelo interior da sua lingerie de ligas ausentes
Pedra papiro pedaços da origem do que a poesia fundou
Em jogo voyeur e bicho do papel mil patas
A instaurar a catástrofe laboratorial
E nisso nos comprazermos
No jornal das nove
A inevitável queda diária
Nas quedas
Os juros não cantam doem
Na Grécia sempre se falou muito do pensamento
Mas agora fala-se a propósito
De vício de esplanadas
Como se os peripatéticos passeios
Não fossem esplanadas andantes
E fala-se de fora
De vocações de ócio sem redenção
De Retsinas de perdição
E que é necessário acabar com elas
Não produzem senão sol
E deslembrar de compromissos
Sorrir a quem quer comer mitos
E fritos
E mostra as coxas
Euro Americanas
Os gregos nisso são bestiais
Lojas de mitos recordações
Trouxas argilas corações
E as tropas do turismo
Nas suas sapatilhas cómodas
Para unhas encravadas e pé de atleta mental
Olham à hora
O à
La Minute que lhes fixa a eternidade
Num ápice
Um fundo calcário
No calendário
Com odor a Heraclito
Porque Heraclito nas suas contradições de fogo
Cheirava a pinhal e ao seu contrário
Mais que Sócrates cheirasse a respeito da lei
Quando para a cicuta o dispusessem
Eutanásia ética um pouco coxa dos tempos clássicos
Para educar efebos do regime dizem
E não sabemos se seria exactamente assim
Porque pintaram o Sócrates
Como quiseram com os pincéis da ordem
Conveniente e só nos resta gramar a verdade que os manuais foram Cobrindo do sarro que não sai
Zenão dobrava o joelho
Na mesma cena panorâmica
Em que Sócrates bebia a cicuta
E Platão olhava a projecção da cena da caverna no seu exterior
Primeiro cinema
Da metade de meio por meio
E a mio de outra metade interminável
Zenão fazia as contas
Ou qualquer porra no género
E era já um tecnocrata
Da geometria absurda
Infinidade da medida deslucro
Do fémur reincidente
E menina do olho desgastando-se
A palma da mão a metro esticada
De polegar a indicador
A dar a referência prática artesanal
Lentamente esculpida pela erosão
Que o vício transporta
Pelas noites inúteis fora
A nossa pachorra
Não se acomoda aos queixumes lacrimejantes
Da nova tragédia
Que todos os dias produz clímaxes
E faz cachas
E não há fígado que resista
Não se aguenta
Um quotidiano sempre de apocalipses
Para alka seltzer consumir
Como quem atura medíocres alcandorados na política a pessoas
E no parlamento a recém chegados à capital e ao capital
Um tornado é um tornado
E nos tornados
Os credores voam
Como qualquer outra merda
Papel por exemplo mesmo que carne
Ou ouro de lei
Esse que paga silêncios
Eis a natureza das coisas
Emílio Navarro Soler
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