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sexta-feira, 28 de outubro de 2011
A Europa
"The story of postwar Europe is deeply inspiring. Out of the ruins of war, Europeans built a system of peace and democracy, constructing along the way societies that, while imperfect — what society isn’t? — are arguably the most decent in human history."
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
D.Fuas contra a Europilhagem
O nosso contributor JSP e a senhorita Angelita Merkel entusiasmados com as ideias do ministro Álvaro-Oktoberfest.
foto Iphone 4
Lamentando esta justificável delonga, aqui estamos para saudar o regresso do webmaster Mad Dog Clarence, retido contra à sua vontade na prisão do Crato, e, claro, ajudar à ‘laranjada’.
Por uma vez, juramos respeito à agrura da situação, afinamos pela consistência e demonstraremos seriedade perante o quadro hilariante desta república albanesa, que acelera desregulada e com o depósito na reserva.
Pois. A questão é simples...em política não se deve ter razão antes do tempo. E os portugueses mal chegados à modernidade, e ainda muito formatados à canga caridosa e à mediocridade temperada, não estavam preparados para o golpe de génio, aquele vol fou desafiado por Sócrates.
E que nos propunha o primeiro político verdadeiramente pós-moderno em Portugal? Que fizéssemos surf na onda do endividamento geral, que nos esgueirássemos nos tubes dos défices, e, chegando primeiro à praia do governo económico, primus inter pares, merecêssemos dos pobres e estreitos europeus o devido “tributo”. Deverá ler-se tributo como perdão da dívida, embora não seja um perdão nem exista dívida.
Mas não, não foi assim, vingaram os arreliantes atavismos, o temor, o respeitinho, a parcimónia e outras escatologias. Trocámos o surf genial pelo nosso particular empobrecimento todo-o-terreno. Substituímos Sócrates por Xantipa. E preparamo-nos para cambiar o Euro pelo Morabitino, pelo Escudo, pelo Cruzado, pelo Espadim de Prata. Não chega? Homessa, venham os Reais Pretos, o Centavo de Bronze ou o Chinfrão. Seja o que for que possa ser trocado por Patacos.
Já estamos adivinhando o nosso Gaspar com uma indisfarçada sombra de alegria no austero rosto de gato pingado anunciando, em comunicação ao país, naquela melopeia quasi afásica, lenga-lenga tóxica, a boa nova: Portugueses...cagámos no Euro. Viva o Novo Escudo.
Desconfiada, a massa de ratinhos, interpelará o falso Gaspar: mas isso é dobrão ou sapeca?
Melhor, muito melhor. Esqueçam a nota verde, o iene, o yuan. O Novo Escudo flutuará contra um cabaz de divisas (hard currency) com futuro: Futebol, Fado e Fátima. ALELUIA!
Dispensando-nos de descrever os números do festival financeiro e da inevitável, incontornável recessão económica, paramos para ganhar fôlego e acompanhar a torna das toupeiras a su casa. Su buraco.
Eis senão quando no firmamento rasga-se uma luz brilhante. É um pássaro, é um avião, é um bávaro? Não, é o nosso Álvaro. ALELUIA!
Felizmente, temos o nosso Economista, heterónimo Álvaro. Ouro em Montemor, gás natural em Faro, petróleo em Peniche, platina em Carrazeda de Ansiães, diamantes no Gerês, tungsténio no Vale do Ave, jade na Bobadela, urânio em Poiares, zinco na Cova da Beira, ferro em Alcoutim e algum titânio em Mem Martins. Para não falar dos muitos depósitos de neodímio e lutécio. E montes e montanhas de estrôncio.
Ecco. Parafraseando o nosso amigo Táxi Pluvioso...Portugal, regressado à sua relevância natural, voltará a despertar a inveja do Mundo.
Para o boneco ficar completo e o final ser feliz, falta-nos apenas contratar, para tanta mina, uns milhões de magaíças, easy, dadas as boas relações com as províncias ultramarinas, e para governar esta puteiro...um cafetão e uma cafetina.Bem hajam.
JSP, aka XICONHOCA.COME
domingo, 23 de outubro de 2011
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Capitais, culturais e europeias (3)
(continuação)
20. E em muitos casos certamente, a qualidade dos animadores vai fazer milagres, criar mesmo experiências de profundidade humana. Eu não me refiro aqui a muitos projectos que serão certamente bem pensados e com equipas capazes e sérias. Eu refiro o todo da iniciativa, o consórcio dirigente e o fundo negocial deste tipo de coisas e a sua falsa política de rastos úteis em prospectiva. Por detrás estarão muitos interesses empresariais, muita obra, muito mais determinantes do que quaisquer objectivos artísticos e culturais estruturantes, até agora não clarificados.
21. Uma análise profunda e detalhada das aritméticas dos montantes usados e em quê seria aliás de fazer, por razões de diagnóstico e de compreensão dos fenómenos. O que aliás rima agora com a moda única do corte, já que apenas podemos aprender, daqui para a frente, a fazer apenas contas de diminuir e somar é uma operação algo irreal, que não saberemos em breve o que é, em extinção como os pandas.
22. Só pela via de uma planificação integrada, local, nacional e internacionalizada e na perspectiva do enraizamento de uma nova vida cultural – e certamente de aspectos de economia pública e privada que lhe corresponda e não o contrário, se poderia caminhar numa direcção pressentida, absolutamente necessária – estas coisas têm de enunciar desígnios e metas. Assim, como é, à curtição seguir-se-á, como aliás é natural, a ressaca.
23. Para uma verdadeira mudança cultural europeia os prazos de realização de verdadeiros projectos de transformação nada têm a ver com eventos e pirotecnias, com falsas intensidades e fugas para a frente, zapping e fugacidade. Duração é a palavra, média e longa duração, os projectos europeus não podem coincidir com ciclos de poder assentes em dependências de lógicas eleitorais – dois anos para fingir que se faz qualquer coisa e outros dois para desfazer o que se fingiu organizando as baterias e a despesa para novo espectáculo eleitoral. Os ciclos de tempo das iniciativas estão de facto indexados por assim dizer a tempos de gestação sempre abortivos daquilo que se vende como sonho e isso deve-se de facto ao jogo da mobilidade das clientelas de poder nos poderes. Só o aprofundamento da democracia cultural trará lógicas democráticas de mobilidade social e novos poderes, poderes democráticos.
24. A transformação tem de ser inscrita num outro espaço e esse é o da memória, da memória cultural, artística e política, propulsora, futuro em acto. Nada se pode assentar sobre a inovação em abstracto, esse pseudoconceito que nada tem a ver com invenção e tudo com a superficialidade de uma lógica discursiva ecrã/maníaca, dependente do primado dos condicionamentos mediáticos. Com Sócrates inovava-se a torto e a direito, instante a instante, do Magalhães ao simplex e deste directamente para crise, como se vê e sente.
25. A Memória prospectiva, a tradição e a invenção numa dialéctica de contrastes positiva, pode abrir um caminho. Não nos faltam excelentes pensadores nem visionários esclarecidos do futuro, a Europa é rica dessa riqueza desprezada, o nosso problema é que estamos reféns da mediocridade instalada nos poderes, nos sistemas de poder, como mais uma vez agora constatamos, por via dessa classe média disposta a tudo, a todas as ginásticas e a pouca verticalidade. No pouco tempo de exercício do poder destes novos-ricos da política já lá vão quase oitocentos nomeados directos num total de cinco mil contratações. Imagino que sejam muitos e sei que são muitos considerando o afã desestruturador do aparelho de Estado, particularmente nas suas vertentes de assistência social, exactamente no mesmo momento dos contractos para a nova clientela.
26. Enfim, era importante que um projecto de reformulação deste tipo de supostos impulsos organizados, que dirão marcos de desenvolvimento cultural e aprofundamento democrático, considerassem ainda vários elementos decisivos de um qualquer entrosamento projectual com as realidades: a questão das linguagens e a alfabetização dos espectadores e as vias disso é essencial, não como técnicas, mas como formas vitais de compreensão, como capacidade de inventar o que se pensa e de agir com pensamento. Que isso pudesse acontecer não num quadro de nivelamento por baixo ou de generalização de vulgaridades, mas segundo um caminho que fosse elitista para todos, repito, elitista para todos, qualificado para todos, nivelado por cima para todos.
27. E não nos esqueçamos da língua, como húmus de tudo, riqueza feita de todas as diversidades, mas também e para mais com esta história do acordo ortográfico, como objecto de projectos, uns mais técnicos, mas muitos mais certamente de cultivo prático do literário.
28. Se assim fossem as coisas, a prazo longo, do Estado repressivo passaríamos à possibilidade generalizada dos estados estéticos e a GNR, Guarda Nacional Republicana, seria uma escola de artes.
(conclusão)
fernando mora ramos
20. E em muitos casos certamente, a qualidade dos animadores vai fazer milagres, criar mesmo experiências de profundidade humana. Eu não me refiro aqui a muitos projectos que serão certamente bem pensados e com equipas capazes e sérias. Eu refiro o todo da iniciativa, o consórcio dirigente e o fundo negocial deste tipo de coisas e a sua falsa política de rastos úteis em prospectiva. Por detrás estarão muitos interesses empresariais, muita obra, muito mais determinantes do que quaisquer objectivos artísticos e culturais estruturantes, até agora não clarificados.
21. Uma análise profunda e detalhada das aritméticas dos montantes usados e em quê seria aliás de fazer, por razões de diagnóstico e de compreensão dos fenómenos. O que aliás rima agora com a moda única do corte, já que apenas podemos aprender, daqui para a frente, a fazer apenas contas de diminuir e somar é uma operação algo irreal, que não saberemos em breve o que é, em extinção como os pandas.
22. Só pela via de uma planificação integrada, local, nacional e internacionalizada e na perspectiva do enraizamento de uma nova vida cultural – e certamente de aspectos de economia pública e privada que lhe corresponda e não o contrário, se poderia caminhar numa direcção pressentida, absolutamente necessária – estas coisas têm de enunciar desígnios e metas. Assim, como é, à curtição seguir-se-á, como aliás é natural, a ressaca.
23. Para uma verdadeira mudança cultural europeia os prazos de realização de verdadeiros projectos de transformação nada têm a ver com eventos e pirotecnias, com falsas intensidades e fugas para a frente, zapping e fugacidade. Duração é a palavra, média e longa duração, os projectos europeus não podem coincidir com ciclos de poder assentes em dependências de lógicas eleitorais – dois anos para fingir que se faz qualquer coisa e outros dois para desfazer o que se fingiu organizando as baterias e a despesa para novo espectáculo eleitoral. Os ciclos de tempo das iniciativas estão de facto indexados por assim dizer a tempos de gestação sempre abortivos daquilo que se vende como sonho e isso deve-se de facto ao jogo da mobilidade das clientelas de poder nos poderes. Só o aprofundamento da democracia cultural trará lógicas democráticas de mobilidade social e novos poderes, poderes democráticos.
24. A transformação tem de ser inscrita num outro espaço e esse é o da memória, da memória cultural, artística e política, propulsora, futuro em acto. Nada se pode assentar sobre a inovação em abstracto, esse pseudoconceito que nada tem a ver com invenção e tudo com a superficialidade de uma lógica discursiva ecrã/maníaca, dependente do primado dos condicionamentos mediáticos. Com Sócrates inovava-se a torto e a direito, instante a instante, do Magalhães ao simplex e deste directamente para crise, como se vê e sente.
25. A Memória prospectiva, a tradição e a invenção numa dialéctica de contrastes positiva, pode abrir um caminho. Não nos faltam excelentes pensadores nem visionários esclarecidos do futuro, a Europa é rica dessa riqueza desprezada, o nosso problema é que estamos reféns da mediocridade instalada nos poderes, nos sistemas de poder, como mais uma vez agora constatamos, por via dessa classe média disposta a tudo, a todas as ginásticas e a pouca verticalidade. No pouco tempo de exercício do poder destes novos-ricos da política já lá vão quase oitocentos nomeados directos num total de cinco mil contratações. Imagino que sejam muitos e sei que são muitos considerando o afã desestruturador do aparelho de Estado, particularmente nas suas vertentes de assistência social, exactamente no mesmo momento dos contractos para a nova clientela.
26. Enfim, era importante que um projecto de reformulação deste tipo de supostos impulsos organizados, que dirão marcos de desenvolvimento cultural e aprofundamento democrático, considerassem ainda vários elementos decisivos de um qualquer entrosamento projectual com as realidades: a questão das linguagens e a alfabetização dos espectadores e as vias disso é essencial, não como técnicas, mas como formas vitais de compreensão, como capacidade de inventar o que se pensa e de agir com pensamento. Que isso pudesse acontecer não num quadro de nivelamento por baixo ou de generalização de vulgaridades, mas segundo um caminho que fosse elitista para todos, repito, elitista para todos, qualificado para todos, nivelado por cima para todos.
27. E não nos esqueçamos da língua, como húmus de tudo, riqueza feita de todas as diversidades, mas também e para mais com esta história do acordo ortográfico, como objecto de projectos, uns mais técnicos, mas muitos mais certamente de cultivo prático do literário.
28. Se assim fossem as coisas, a prazo longo, do Estado repressivo passaríamos à possibilidade generalizada dos estados estéticos e a GNR, Guarda Nacional Republicana, seria uma escola de artes.
(conclusão)
fernando mora ramos
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Capitais, culturais e europeias (2)
(continuação)
10. Na realidade as indústrias criativas incorporam elementos artísticos na sua materialização e consumo, mas não são actividades artísticas, são formas de alargamento da economia a sectores e áreas da vida que surgiram em função de novas necessidades de consumo, de novas sensibilidades dos mercados, como dizem, fruto de diversas transformações, no plano das identidades e no plano da globalização e das suas fabulosas novas vias. Isso está estreitamente ligado ao que já chamaram capitalismo cultural, mas nada tem a ver com os discursos artísticos nem com a experiência artística, que não visa o lucro nem tem garantido por assim dizer um inevitável caminho de sucessos contabilizáveis. Sabemos aliás que a arte é composta das mais variadas tentativas de o ser, fracassadas muitas e muitas plenamente realizadas apenas na sua própria teimosa reincidência.
11. Eu nada tenho contra a Guimarães 2012, ou contra outra qualquer capital em si, tenho contra o modelo e o tempo, a forma e o que me parece é que estas realizações, com outros dirigentes Europeus que quisessem de facto outra Europa, uma Europa das culturas dos povos e das suas identidades complexas e diversas e não apenas da união monetária e da partilha do seu fracasso, seriam outras – infelizmente os povos não se batem por novas perspectivas neste tipo de realizações, estarão imersos na apatia, quando não no medo, ou porventura acumulam energias para explosões de violência social como as que têm estalado, e esperamos nós que em breve outras, de outros tipos, pois fazem falta.
12. Depois da ressaca do Porto 2001, amplamente reconhecida e em plena crise, é no mínimo estranho que não se pense o contexto desta capital, ou que se o fazem, nada digam, nada exponham, como se a iniciativa fosse da esfera privada de uma meia dúzia de pessoas, de empresas e de participantes. Onde está a dimensão cidadã do seu processo de concretização? Só assistimos aliás à exposição pública do que é pequeno e mesquinho.
13. Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, não apenas na capacidade de consumir – é um aspecto entre outros - mas no tipo de vida, mesmo nos direitos elementares, a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Não percebo, parece-me mais do que a política da avestruz, parece-me uma política de pequenos e grandes interesses convergindo na partilha de um bolo em que outros, mais famintos, também querem entrar – é o regabofe previsível, o fartar vilanagem possível em tempo de migalhas. O retrato imaginável é de facto, de uma tristeza profunda.
14. Mas a curtição estará aí, em doses de fluxo significativo enquanto durar. E serão doses das mais variadas e diversas experimentações e iniciativas de rua – muitas certamente: a rua é aliás e cada vez mais espaço de iniciativas da sua própria privatização no quadro de entretenimentos expressivos – ela está marcada pelos tais sinais constantes das marcas que a usam quando a usamos como se fossem um cenário obrigatório – a rua, enquanto espaço público, tende a desaparecer e este exemplo da Estação do Chiado é bastante significativo. Por vezes uma busca irreflectida do que será eventualmente massivo, número, quantidade necessária, uma lógica que no fundo separa as elites dos outros, arrasta esta colaboração ingénua do artista com o manipulador “oculto”.
15. E isso é que é importante: que o fluxo e a velocidade das coisas não pare, que a capital não pare, que tudo o que seja reflectir sobre caminhos e possibilidades é outras coisa e é certamente reacção à excelência da curtição por vir. É o que dirão de quem criticar apelidando a crítica de criticismo, de velhos do Restelo, etc., e criando para a iniciativa uma espécie de estatuto de inimputabilidade, dada a marca Europa, de facto para nós associável a maná. Para nós? Para quem? E os êxitos somar-se-ão até que o balanço venha pôr as coisas no sítio, atrás, no antes que supostamente pedia o depois que veio e não foi e que, na realidade, nunca será enunciado com a clareza de um objectivo global, íntegro, vimaranense e nacional, europeu e lusófono, internacionalizado e local, glocal como alguém com imaginação inventou.
16. Mas não seria de reflectir sobre as contradições gritantes das nossas realidades, das nossas necessidades? Uma capital nada terá a ver com o desemprego que cresce, com a regressão das nossas capacidades de auto sustentação económica, com o aprofundamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com a violência doméstica, com os problemas complexos do nosso universo escolar, com a precariedade dos artistas, com o asfixiamento das estruturas de criação? Passará ao lado disto tudo para se dirigir para onde?
17. O caminho de um entretenimento globalizado, uma industrialização do entretenimento, eis o que temos aí, no mundo inventado pelos poderes que nos governam, maioritariamente conservadores, mesmo reaccionários, que tem nos entretenimentos a chave do seu êxito governativo, novos ópios do povo.
18. Capital da crise, poderíamos dizer, certamente se a considerasse até como móbil, e o que vai ser? Vai ser a expressão da abundância da diversidade do mesmo: as máscaras do diverso, as embalagens e o mesmo ao serviço do mesmo, o imobilismo, o capitalismo selvagem na cultura – não singularizo projectos, tento imaginar o fluxo da contaminação de tudo e a velocidade imparável das realizações, como se sabe que é.
19. Assistiremos por certo a uma aliança alargada entre o kitsch, o mundo rápido dos workshops e as mais variadas estratégias de animação: animação para crianças, para adolescentes, para mulheres, para velhos e mesmo para desempregados, para marginais e para deprimidos, numa espécie de nova caridade assistencial criativa plena de interactividades.
(continua)
fernando mora ramos
10. Na realidade as indústrias criativas incorporam elementos artísticos na sua materialização e consumo, mas não são actividades artísticas, são formas de alargamento da economia a sectores e áreas da vida que surgiram em função de novas necessidades de consumo, de novas sensibilidades dos mercados, como dizem, fruto de diversas transformações, no plano das identidades e no plano da globalização e das suas fabulosas novas vias. Isso está estreitamente ligado ao que já chamaram capitalismo cultural, mas nada tem a ver com os discursos artísticos nem com a experiência artística, que não visa o lucro nem tem garantido por assim dizer um inevitável caminho de sucessos contabilizáveis. Sabemos aliás que a arte é composta das mais variadas tentativas de o ser, fracassadas muitas e muitas plenamente realizadas apenas na sua própria teimosa reincidência.
11. Eu nada tenho contra a Guimarães 2012, ou contra outra qualquer capital em si, tenho contra o modelo e o tempo, a forma e o que me parece é que estas realizações, com outros dirigentes Europeus que quisessem de facto outra Europa, uma Europa das culturas dos povos e das suas identidades complexas e diversas e não apenas da união monetária e da partilha do seu fracasso, seriam outras – infelizmente os povos não se batem por novas perspectivas neste tipo de realizações, estarão imersos na apatia, quando não no medo, ou porventura acumulam energias para explosões de violência social como as que têm estalado, e esperamos nós que em breve outras, de outros tipos, pois fazem falta.
12. Depois da ressaca do Porto 2001, amplamente reconhecida e em plena crise, é no mínimo estranho que não se pense o contexto desta capital, ou que se o fazem, nada digam, nada exponham, como se a iniciativa fosse da esfera privada de uma meia dúzia de pessoas, de empresas e de participantes. Onde está a dimensão cidadã do seu processo de concretização? Só assistimos aliás à exposição pública do que é pequeno e mesquinho.
13. Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, não apenas na capacidade de consumir – é um aspecto entre outros - mas no tipo de vida, mesmo nos direitos elementares, a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Não percebo, parece-me mais do que a política da avestruz, parece-me uma política de pequenos e grandes interesses convergindo na partilha de um bolo em que outros, mais famintos, também querem entrar – é o regabofe previsível, o fartar vilanagem possível em tempo de migalhas. O retrato imaginável é de facto, de uma tristeza profunda.
14. Mas a curtição estará aí, em doses de fluxo significativo enquanto durar. E serão doses das mais variadas e diversas experimentações e iniciativas de rua – muitas certamente: a rua é aliás e cada vez mais espaço de iniciativas da sua própria privatização no quadro de entretenimentos expressivos – ela está marcada pelos tais sinais constantes das marcas que a usam quando a usamos como se fossem um cenário obrigatório – a rua, enquanto espaço público, tende a desaparecer e este exemplo da Estação do Chiado é bastante significativo. Por vezes uma busca irreflectida do que será eventualmente massivo, número, quantidade necessária, uma lógica que no fundo separa as elites dos outros, arrasta esta colaboração ingénua do artista com o manipulador “oculto”.
15. E isso é que é importante: que o fluxo e a velocidade das coisas não pare, que a capital não pare, que tudo o que seja reflectir sobre caminhos e possibilidades é outras coisa e é certamente reacção à excelência da curtição por vir. É o que dirão de quem criticar apelidando a crítica de criticismo, de velhos do Restelo, etc., e criando para a iniciativa uma espécie de estatuto de inimputabilidade, dada a marca Europa, de facto para nós associável a maná. Para nós? Para quem? E os êxitos somar-se-ão até que o balanço venha pôr as coisas no sítio, atrás, no antes que supostamente pedia o depois que veio e não foi e que, na realidade, nunca será enunciado com a clareza de um objectivo global, íntegro, vimaranense e nacional, europeu e lusófono, internacionalizado e local, glocal como alguém com imaginação inventou.
16. Mas não seria de reflectir sobre as contradições gritantes das nossas realidades, das nossas necessidades? Uma capital nada terá a ver com o desemprego que cresce, com a regressão das nossas capacidades de auto sustentação económica, com o aprofundamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com a violência doméstica, com os problemas complexos do nosso universo escolar, com a precariedade dos artistas, com o asfixiamento das estruturas de criação? Passará ao lado disto tudo para se dirigir para onde?
17. O caminho de um entretenimento globalizado, uma industrialização do entretenimento, eis o que temos aí, no mundo inventado pelos poderes que nos governam, maioritariamente conservadores, mesmo reaccionários, que tem nos entretenimentos a chave do seu êxito governativo, novos ópios do povo.
18. Capital da crise, poderíamos dizer, certamente se a considerasse até como móbil, e o que vai ser? Vai ser a expressão da abundância da diversidade do mesmo: as máscaras do diverso, as embalagens e o mesmo ao serviço do mesmo, o imobilismo, o capitalismo selvagem na cultura – não singularizo projectos, tento imaginar o fluxo da contaminação de tudo e a velocidade imparável das realizações, como se sabe que é.
19. Assistiremos por certo a uma aliança alargada entre o kitsch, o mundo rápido dos workshops e as mais variadas estratégias de animação: animação para crianças, para adolescentes, para mulheres, para velhos e mesmo para desempregados, para marginais e para deprimidos, numa espécie de nova caridade assistencial criativa plena de interactividades.
(continua)
fernando mora ramos
domingo, 11 de setembro de 2011
Capitais, culturais e europeias (1)
1. O evento: a primeira circunstância será a da pertinência deste nome na análise, evento, grande evento, evento único e o que nos diz da coisa, da localização, do tempo e das amplitudes de sentido que partilhe e dissemine. Evento – palavra que se usa para tudo o que misture acontecimentos, aparentes intensificações de densidade de experiências sensíveis sob a forma de mediatizações e espectáculo, isto é, todas as coisas, tudo o que acontece, o que traduz logo o que na realidade é mais oculto no que transparece e transborda numa Capital Europeia da Cultura: a de que nada acontece de mudança, de transformação de horizontes concretos de vida com a alteração das condições de criação real que activassem o papel das artes e da cultura, a sua inscrição, o enraizamento diríamos melhor, das suas práticas na vida quotidiana da cidade – enraizamento significa o contrário de sobrevoar, de surfar, significa a incorporação de uma nova orgânica vital – é essa mudança que não chega, em que não se aposta, significaria outra forma de viver, outra estruturação da vida na cidade, outros modos de criar e fruir pertencentes ao corpo urbano. A que associamos evento? À rapidez, ao seu desaparecimento e à sua substituição por um novo evento portanto, entretenimento intenso de um ano, feira ou como lhe queiram chamar.
2. É claro que a primeira questão que surge é a da separação que é desde logo feita entre a crise e a curtição, festa seria ainda outra coisa e não artifício e as festas de tão fabricadas como espectáculo – uma forma de poder certamente – são um bem em extinção. As dificuldades da alegria comunitária são contraditadas pela atomização das relações, pelo isolamento, pelo anonimato, pela solidão no meio da massa e a festa massiva vive de muita energia irracional gasta como forma de consumo massivo. Como estamos hoje é como se a meio de uma guerra civil fosse possível sobre os corpos das vítimas transformar os rituais fúnebres e o luto em marcha pela via da crise em celebrações de futuro simulado, realizadas por manobras de marketing associadas às imagens de marca de empresas que as quisessem por assim dizer produzir, como agora sucedeu na estação da Baixa-Chiado a PT Bluestation, certamente ganhando pelo nome um estatuto globalizado e até nova-iorquino – os baptismos não são neutros e vendem imagens e na imagem supostamente habitamos, figurantes de uma realidade sempre virtualizada pela publicidade, consumidores da religião das marcas e da imagem das empresas.
3. Na realidade o que estamos a viver é um descaminho e não um caminho europeu, se com Europeu queremos dizer algo relacionado com as matrizes culturais da Europa, desde logo a cidade grega, o teatro e a política indissoluvelmente associados na mesma praça, as tradições positivas e potência de futuros possíveis da história da Europa, a Revolução Francesa e as tentativas populares de criar outro planeta nos inícios do século XX, a democracia reinventada no pós-guerra, o Estado Social, o melhor das sociais-democracias. Tivemos aliás sempre a capacidade de também sonhar com as experimentações sociais de outras áreas do planeta.
4. Se pensarmos, por outro lado, que Europa quer dizer, muito mais que os actuais epifenómenos de natureza criacionista de tipo para-artístico nos casos da arte e da cultura, desde logo viajamos nas narrativas fundadoras do humano no continente Homero e certamente em Gil Vicente, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Tcheckov, Beckett, Tabori, Pina Baush, e Barker – o grego vivo mais grego de todos nós - e no pós guerra, nas democracias reemergindo como políticas públicas artísticas com expressão orgânica institucional, e nestas os Berlineres e os Piccolos, os museus de todo o tipo, as escolas de artes, a arte no espaço público, a descentralização das estruturas de criação, a regionalização das condições de criação, etc., os novos programas de alfabetização artística e os novos equipamentos, uns e outros a par nesses tempos de projectos pensados em articulação e sinergias, ao contrário dos nossos em que para as arquitecturas novas não há programas culturais prévios, há dinheiro que se esvai nop meio de múltiplos discursos, constantes, sobre a rendibilização da cultura e das artes, veja-se o caso lamentável do CCB. Sempre que ouvirem esta palavra, rentabilização ouçam despesismo, o que eles acusam os outros de fazer.
5. O que poderemos constatar é que as políticas que se sucederam a estas do pós guerra e que dão corpo a este tipo de projectos como as capitais, do tipo festival e mais ou menos longos na sua lógica temporal sempre curta, são a favor do fenómeno, da excepção, da excelência fugaz, mas nada de excelente criam que crie excelência por assim dizer permanente, como um bom solo cria um bom vinho – nada se enraíza num ano e normalmente os programas destas capitais só fingem os antes e os depois como algo estruturante, porque depois já não há dinheiro, apenas houve para a obra, mas não haverá para a vida, para habitar o edifício, o edifício é aliás feito de simulacros.
6. A democracia não se aprofunda, as artes não se inscrevem, as cidades tornam-se montras de consumo para turistas rápidos que as coleccionam em fotografias intermináveis – ele há mesmo vilas que se convertem em cenários, são desabitadas e os poucos habitantes são como animais exóticos, figurantes empregados de um zoo patrimonial a que os outros trazem a moedinha. No zoo de Lisboa, na minha infância, depois da moeda, o elefante tocava o sino e estava sempre de uma pachorrenta tristeza, na realidade sonhava com a savana.
7. Estas capitais são justamente sistemas de ilusão na produção do novo, são formas de o mascarar. São máscaras do novo, dado que o novo pouco tem a ver com a constante inovação dos seus aspectos – o que o design, esse fiel servidor do marketing, cumpre – mas tem a ver justamente com o surgimento do que não está pré-definido como aquilo que é a formação do gosto, ou dos gostos e não a sua formatação. O novo não se anuncia, nem se autopromove em publicidade, muitas vezes leva décadas a ser parido com expressão social, assim aconteceu com livros determinantes ou com as publicações de Pessoa em vida – um novo certamente muito complexo e por muito que o queiram, dificilmente convertível numa qualquer moeda de troca como acontece a muito objecto que se assume artístico, particularmente na ordem do que é hiper-visível e pleno de pirotecnia fugaz: quando se vai por eles já lá não estão, como a maioria dos espectáculos do tipo performativo que justamente radicalizam a sua instantaneidade e a sua inutilidade expressiva, a sua fugacidade.
8. A tal sociedade do hiper-controlo de massas estará aí. Eu não percebo muito disso mas parece-me que esta caracterização tem tudo a ver com a esfera da recepção e com o sistema que a alimenta, com o consumo é claro e com as marcas a assumirem o jogo da diversidade e da pluralidade vestindo com esses fatos o que é negociado e mercadificável, fazendo-o manipulando tudo o que tem a ver com os nossos medos, convicções, fantasmas, diria, com os nossos eus, com os narcisismos e os desesperos. A publicidade não tem fronteiras, ao contrário da arte que persegue objectivos éticos nas práticas estéticas, ou deveria fazê-lo, tentá-lo, por vezes em ambiente de contradições que sangram.
9. Esta história agora recorrente das indústrias criativas, como uns dizem ou das indústrias culturais, como outros dizem, é uma coisa que me parece simples e que se relaciona, como foi sempre aliás, com a incorporação de elementos criativos nos objectos de consumo e digamos nas nossas experiências sensíveis presenciais mais ou menos massivas. A IKEA é uma indústria criativa, como será de uma outra forma a Colecção Berardo: o que significará a utilização de um espaço público sofisticado, único, pela colecção de artes visuais de um especulador privado? Eu não me refiro ao valor artístico das peças consideradas isoladamente e porventura imagináveis noutros contextos de fruição, refiro-me ao facto de a colecção estar exposta numa espécie de cofre visível estatal como um investimento de um banqueiro que dela se apropriou, e o que essa situação significa objectivamente: um aumento do seu próprio valor como valor dinheiro, como negócio futuro, já que a colecção, não está dito que se venha a converter num bem público. O CCB é a montra pública de um investimento privado cuja valorização se acentua por esse facto. É um negócio pois produz lucro a prazo e fá-lo num contexto em que é o Estado a promover e incentivar a prática especulativa. É, sendo uma colecção, uma forma de a fazer render num espaço que é nosso. O CCB será nosso?
(continua)
fernando mora ramos
2. É claro que a primeira questão que surge é a da separação que é desde logo feita entre a crise e a curtição, festa seria ainda outra coisa e não artifício e as festas de tão fabricadas como espectáculo – uma forma de poder certamente – são um bem em extinção. As dificuldades da alegria comunitária são contraditadas pela atomização das relações, pelo isolamento, pelo anonimato, pela solidão no meio da massa e a festa massiva vive de muita energia irracional gasta como forma de consumo massivo. Como estamos hoje é como se a meio de uma guerra civil fosse possível sobre os corpos das vítimas transformar os rituais fúnebres e o luto em marcha pela via da crise em celebrações de futuro simulado, realizadas por manobras de marketing associadas às imagens de marca de empresas que as quisessem por assim dizer produzir, como agora sucedeu na estação da Baixa-Chiado a PT Bluestation, certamente ganhando pelo nome um estatuto globalizado e até nova-iorquino – os baptismos não são neutros e vendem imagens e na imagem supostamente habitamos, figurantes de uma realidade sempre virtualizada pela publicidade, consumidores da religião das marcas e da imagem das empresas.
3. Na realidade o que estamos a viver é um descaminho e não um caminho europeu, se com Europeu queremos dizer algo relacionado com as matrizes culturais da Europa, desde logo a cidade grega, o teatro e a política indissoluvelmente associados na mesma praça, as tradições positivas e potência de futuros possíveis da história da Europa, a Revolução Francesa e as tentativas populares de criar outro planeta nos inícios do século XX, a democracia reinventada no pós-guerra, o Estado Social, o melhor das sociais-democracias. Tivemos aliás sempre a capacidade de também sonhar com as experimentações sociais de outras áreas do planeta.
4. Se pensarmos, por outro lado, que Europa quer dizer, muito mais que os actuais epifenómenos de natureza criacionista de tipo para-artístico nos casos da arte e da cultura, desde logo viajamos nas narrativas fundadoras do humano no continente Homero e certamente em Gil Vicente, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Tcheckov, Beckett, Tabori, Pina Baush, e Barker – o grego vivo mais grego de todos nós - e no pós guerra, nas democracias reemergindo como políticas públicas artísticas com expressão orgânica institucional, e nestas os Berlineres e os Piccolos, os museus de todo o tipo, as escolas de artes, a arte no espaço público, a descentralização das estruturas de criação, a regionalização das condições de criação, etc., os novos programas de alfabetização artística e os novos equipamentos, uns e outros a par nesses tempos de projectos pensados em articulação e sinergias, ao contrário dos nossos em que para as arquitecturas novas não há programas culturais prévios, há dinheiro que se esvai nop meio de múltiplos discursos, constantes, sobre a rendibilização da cultura e das artes, veja-se o caso lamentável do CCB. Sempre que ouvirem esta palavra, rentabilização ouçam despesismo, o que eles acusam os outros de fazer.
5. O que poderemos constatar é que as políticas que se sucederam a estas do pós guerra e que dão corpo a este tipo de projectos como as capitais, do tipo festival e mais ou menos longos na sua lógica temporal sempre curta, são a favor do fenómeno, da excepção, da excelência fugaz, mas nada de excelente criam que crie excelência por assim dizer permanente, como um bom solo cria um bom vinho – nada se enraíza num ano e normalmente os programas destas capitais só fingem os antes e os depois como algo estruturante, porque depois já não há dinheiro, apenas houve para a obra, mas não haverá para a vida, para habitar o edifício, o edifício é aliás feito de simulacros.
6. A democracia não se aprofunda, as artes não se inscrevem, as cidades tornam-se montras de consumo para turistas rápidos que as coleccionam em fotografias intermináveis – ele há mesmo vilas que se convertem em cenários, são desabitadas e os poucos habitantes são como animais exóticos, figurantes empregados de um zoo patrimonial a que os outros trazem a moedinha. No zoo de Lisboa, na minha infância, depois da moeda, o elefante tocava o sino e estava sempre de uma pachorrenta tristeza, na realidade sonhava com a savana.
7. Estas capitais são justamente sistemas de ilusão na produção do novo, são formas de o mascarar. São máscaras do novo, dado que o novo pouco tem a ver com a constante inovação dos seus aspectos – o que o design, esse fiel servidor do marketing, cumpre – mas tem a ver justamente com o surgimento do que não está pré-definido como aquilo que é a formação do gosto, ou dos gostos e não a sua formatação. O novo não se anuncia, nem se autopromove em publicidade, muitas vezes leva décadas a ser parido com expressão social, assim aconteceu com livros determinantes ou com as publicações de Pessoa em vida – um novo certamente muito complexo e por muito que o queiram, dificilmente convertível numa qualquer moeda de troca como acontece a muito objecto que se assume artístico, particularmente na ordem do que é hiper-visível e pleno de pirotecnia fugaz: quando se vai por eles já lá não estão, como a maioria dos espectáculos do tipo performativo que justamente radicalizam a sua instantaneidade e a sua inutilidade expressiva, a sua fugacidade.
8. A tal sociedade do hiper-controlo de massas estará aí. Eu não percebo muito disso mas parece-me que esta caracterização tem tudo a ver com a esfera da recepção e com o sistema que a alimenta, com o consumo é claro e com as marcas a assumirem o jogo da diversidade e da pluralidade vestindo com esses fatos o que é negociado e mercadificável, fazendo-o manipulando tudo o que tem a ver com os nossos medos, convicções, fantasmas, diria, com os nossos eus, com os narcisismos e os desesperos. A publicidade não tem fronteiras, ao contrário da arte que persegue objectivos éticos nas práticas estéticas, ou deveria fazê-lo, tentá-lo, por vezes em ambiente de contradições que sangram.
9. Esta história agora recorrente das indústrias criativas, como uns dizem ou das indústrias culturais, como outros dizem, é uma coisa que me parece simples e que se relaciona, como foi sempre aliás, com a incorporação de elementos criativos nos objectos de consumo e digamos nas nossas experiências sensíveis presenciais mais ou menos massivas. A IKEA é uma indústria criativa, como será de uma outra forma a Colecção Berardo: o que significará a utilização de um espaço público sofisticado, único, pela colecção de artes visuais de um especulador privado? Eu não me refiro ao valor artístico das peças consideradas isoladamente e porventura imagináveis noutros contextos de fruição, refiro-me ao facto de a colecção estar exposta numa espécie de cofre visível estatal como um investimento de um banqueiro que dela se apropriou, e o que essa situação significa objectivamente: um aumento do seu próprio valor como valor dinheiro, como negócio futuro, já que a colecção, não está dito que se venha a converter num bem público. O CCB é a montra pública de um investimento privado cuja valorização se acentua por esse facto. É um negócio pois produz lucro a prazo e fá-lo num contexto em que é o Estado a promover e incentivar a prática especulativa. É, sendo uma colecção, uma forma de a fazer render num espaço que é nosso. O CCB será nosso?
(continua)
fernando mora ramos
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Caros javalis, esta mierda ainda vai acabar mal e não falo agora na qualidade de amante do administrador francês
A ministra do Trabalho alemã, Ursula von der Leyen, considera que a crise pode ser superada com a criação dos "Estados Unidos da Europa"
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domingo, 14 de agosto de 2011
Capital europeia da cultura
Com a Europa a desandar o que será realizar uma Capital Europeia? Fica a estranha sensação de que se de um lado a crise estala e tudo pára aterrado, e reflui conscientemente por tomadas de posição ou falta delas, do outro as rotinas são imparáveis alimentando a Europa de ficção que não virá. No caso e depois de notícias sucessivas – as únicas – sobre as bagunças da iniciativa, centrada em secundaríssimas questões, salários luxuosos e acusações de desligamento da cidade que é seu objecto e supomos nós, também sujeito de projecto, as coisas marcham de novo para um resultado que, com nada esclarecido mais do que um fait divers de uma senhora e do seu alegado mau feitio, não se desenha significativamente nem Europeu nem cultural. O nível de entendimentos corporativos e de protagonismos salariais e outros, mesmo eventualmente artísticos – e que será isso no meio de tanta “indústria criativa”, chavão de êxito mediático pré garantido -, geridos à boa maneira confusa nacional e local, com o ex Presidente Sampaio a ir a reuniões assim a modos de Pedagogo e Padrinho, só mostram que o que está por vir é, culturalmente, irrelevante e que o que não se vê, e se mexe, é certamente negocial, assuntos de verba à vista e de verba menos visível – o nível de detalhe com que se falou do que a senhora iria receber de indemnização brada aos céus e cheirou de tal maneira a coisa montada que mostra como quem manobra julga os outros estúpidos. E a senhora foi bode expiatório, número de futebol conhecido como chicotada psicológica e que consiste em pôr o treinador na rua.
Nestas coisas mandam empresas, grupos económicos – foi assim na Porto 2001 – e poderes locais num grau de equilíbrio que faz tender as coisas para um quadro de decisão que, consensual, não leva a nenhuma mudança, antes sim a contentar facções e interesses instalados – em O Futuro e os seus inimigos, Daniel Innerarity fala-nos bem da irrelevância do tipo de decisão apelidada de incrementalista - mudar para um acentuar do mesmo que estava antes da anunciada mudança -, e também de um outro tipo de decisão assente numa “certa racionalidade da improvisação ou de atitudes como as da espera por melhor oportunidade.” E acrescenta: “ A improvisação é um tipo de comportamento que avança sem planos, sem cálculos, sem determinação de objectivos e selecção de meios, sem a ponderação das eventuais consequências secundárias. O que caracteriza esta forma de decisão é que para os actores do que se trata é apenas de manter-se no jogo, coisa em que muitas vezes consiste o combate político – embora os seus representantes declarem e encenem decisões soberanas.”
Há muito que o projecto devia ter anunciado publicamente os seus grandes objectivos estruturantes – que Capital será o futuro e de que Europa se trata? – e ter posto do seu lado não a cidade, mas o país e certamente a tal Europa de que será uma capital mesmo que efémera. Do efémero nasce o mais permanente - assim é o teatro grego até hoje - o mais sustentável e aqui, entre nós, certamente que uma capital terá como objectivo central a criação de condições de sustentabilidade de uma vida nova, europeia, face à vida velha, não europeia e essa vida será cultural não como oferta, isso é apenas uma questão de compra, mas como criação capaz de se expandir em estruturações novas, o que é da ordem da mudança do mundo, da invenção. Todos os seres pensantes, incluindo os chamados opinian makers – pagos para para formar opinião ao serviço de objectivos ideológicos mais do que fazer pensar – afirmam que a Europa é uma mistificação, não basta a união monetária e a burocracia de Bruxelas mais o Parlamento, centros de interesses hegemonizados pela Alemanha e por uns arremedos de importância franceses. Isso não faz a Europa, essas organizações representam um nível de compromisso histórico hegemonizado pelo poder real da Alemanha que, no momento, age segundo interesses nacionais, a começar pelos interesses dos seus bancos. A Europa patina, bloqueou. O que a crise pôs à vista é: não há Europa sem um nível político de integração aprofundado, orgânica europeia de governo aprofundada, para não falar de um nível cultural de integração que suponha fenómenos institucionais e mesmo orgânicas de criação cultural europeias, um “multiculturalismo” também específico entre as identidades europeias envolvidas no projecto europeu, a começar pelas matrizes.
Enfim, umas animações haverá, uns repuxos encaracolados de luz a três D e outras manobras com muita tecnologia circense mais logótipos em barda, efervescências de espumas e anúncios em catadupa em jornais lisboetas e nos suplementos do costume. Não duvidem. Como diz David Lescot – dramaturgo francês de origem polaca, vivíssimo – sobre estas coisas de capitais em A Europeia (publicada na colecção dos Artistas Unidos/Cotovia, tradução de Isabel Lopes) pela boca do performer português Quim Calisto, participante de uma capital europeia: “Primeiro tocam a reunir: Capital europeia da cultura, capital europeia da cultura, isso chama os esfomeados locais […] Mas quando se trata de chegar a uma conclusão, quando começam as festividades […] ficam só com um…”
O problema aqui é tão absurdo que é como manter um oásis de espelhos virados uns para os outros no meio de um sismo que se generaliza. O que deverá ser uma capital europeia sem Europa e pensada do lugar da crise? Vamos continuar a fingir que não se passa nada, como na anedota do período Brejnev em que, fechando as cortinas do comboio, todos se abanavam para fingir que estavam em movimento? Já chegámos a esse ponto becketteano?
fernando mora ramos
Nestas coisas mandam empresas, grupos económicos – foi assim na Porto 2001 – e poderes locais num grau de equilíbrio que faz tender as coisas para um quadro de decisão que, consensual, não leva a nenhuma mudança, antes sim a contentar facções e interesses instalados – em O Futuro e os seus inimigos, Daniel Innerarity fala-nos bem da irrelevância do tipo de decisão apelidada de incrementalista - mudar para um acentuar do mesmo que estava antes da anunciada mudança -, e também de um outro tipo de decisão assente numa “certa racionalidade da improvisação ou de atitudes como as da espera por melhor oportunidade.” E acrescenta: “ A improvisação é um tipo de comportamento que avança sem planos, sem cálculos, sem determinação de objectivos e selecção de meios, sem a ponderação das eventuais consequências secundárias. O que caracteriza esta forma de decisão é que para os actores do que se trata é apenas de manter-se no jogo, coisa em que muitas vezes consiste o combate político – embora os seus representantes declarem e encenem decisões soberanas.”
Há muito que o projecto devia ter anunciado publicamente os seus grandes objectivos estruturantes – que Capital será o futuro e de que Europa se trata? – e ter posto do seu lado não a cidade, mas o país e certamente a tal Europa de que será uma capital mesmo que efémera. Do efémero nasce o mais permanente - assim é o teatro grego até hoje - o mais sustentável e aqui, entre nós, certamente que uma capital terá como objectivo central a criação de condições de sustentabilidade de uma vida nova, europeia, face à vida velha, não europeia e essa vida será cultural não como oferta, isso é apenas uma questão de compra, mas como criação capaz de se expandir em estruturações novas, o que é da ordem da mudança do mundo, da invenção. Todos os seres pensantes, incluindo os chamados opinian makers – pagos para para formar opinião ao serviço de objectivos ideológicos mais do que fazer pensar – afirmam que a Europa é uma mistificação, não basta a união monetária e a burocracia de Bruxelas mais o Parlamento, centros de interesses hegemonizados pela Alemanha e por uns arremedos de importância franceses. Isso não faz a Europa, essas organizações representam um nível de compromisso histórico hegemonizado pelo poder real da Alemanha que, no momento, age segundo interesses nacionais, a começar pelos interesses dos seus bancos. A Europa patina, bloqueou. O que a crise pôs à vista é: não há Europa sem um nível político de integração aprofundado, orgânica europeia de governo aprofundada, para não falar de um nível cultural de integração que suponha fenómenos institucionais e mesmo orgânicas de criação cultural europeias, um “multiculturalismo” também específico entre as identidades europeias envolvidas no projecto europeu, a começar pelas matrizes.
Enfim, umas animações haverá, uns repuxos encaracolados de luz a três D e outras manobras com muita tecnologia circense mais logótipos em barda, efervescências de espumas e anúncios em catadupa em jornais lisboetas e nos suplementos do costume. Não duvidem. Como diz David Lescot – dramaturgo francês de origem polaca, vivíssimo – sobre estas coisas de capitais em A Europeia (publicada na colecção dos Artistas Unidos/Cotovia, tradução de Isabel Lopes) pela boca do performer português Quim Calisto, participante de uma capital europeia: “Primeiro tocam a reunir: Capital europeia da cultura, capital europeia da cultura, isso chama os esfomeados locais […] Mas quando se trata de chegar a uma conclusão, quando começam as festividades […] ficam só com um…”
O problema aqui é tão absurdo que é como manter um oásis de espelhos virados uns para os outros no meio de um sismo que se generaliza. O que deverá ser uma capital europeia sem Europa e pensada do lugar da crise? Vamos continuar a fingir que não se passa nada, como na anedota do período Brejnev em que, fechando as cortinas do comboio, todos se abanavam para fingir que estavam em movimento? Já chegámos a esse ponto becketteano?
fernando mora ramos
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
London on fire

O Senhor Z. na era da globalização
O Senhor Z. jantava diante do televisor, como era normal. Estava ele a mastigar um bocado particularmente rijo do guisado quando os motins lhe irromperam pela casa dentro. Tinha mamado uma série de entrevistas a três ministros, a quatro secretários de Estado, a sete (ou seriam oito?) deputados, a uns quantos banqueiros e a um ex-presidente já xexé. Uma canseira! E ainda ia ter de ruminar as pérolas de sageza de vários misters e de um desfile de jogadores colombianos, todos conscientes das dificuldades do desafio, mas certos da vitória. Tudo normal. Mas seria de facto normal? O Senhor Z. recordou-se que o seu pai, o Senhor B., lhe tinha ensinado, muitos anos atrás, que era preciso questionar a normalidade antes de a aceitar, tentar perceber a quem ela servia. Mas a verdade é que, com o passar dos anos, o Senhor Z. tinha praticamente esquecido o salutar conselho paterno, a braços que se via com as preocupações normais de um desempregado, um daqueles que todas as manhãs hesita antes de abrir a caixa do correio, com medo de lá encontrar uma cartinha do banco, ou das Finanças, ou da Segurança Social, ou da Cofidis, ou… Por isso, foi apanhado de surpresa pelas imagens de Londres a arder, pela orgia de transgressão, pela festa dos que não têm outra festa senão, de quando em vez, a vertigem da liberdade sem entraves. O Senhor Z. quase se engasgou. Subiu o volume do televisor e chamou a mulher. “Olha para aquilo, Maria!” A mulher, que estava ocupada na cozinha, deu uma olhada, espantou-se e comentou: “Uma coisa destas aqui na Europa não é normal.”
Adansónio Digital
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