quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ataques informáticos

Serve o presente para esclarecer que o blogue Meditação na Pastelaria não teve nada que ver com a confusão que se terá registado por aqui, a qual foi notada não só pelo Administrador em retiro monástico mas também por ex-comentadora mais atenta.
Rejubilando, sensibilizados pela firme vigilância, aconselhamos todos aqueles que se sentiram lesados a queixarem-se ao Google.

Missing people


ICI

terça-feira, 27 de setembro de 2011

C'est la vie

Mudar de vida



Pois é. O que tem de ser tem muita força. Depois de tudo o que passou, um ataque informático, penso que já debelado, levou o meu amigo Administrador ao desespero. Vai mudar. Para já vida monástica com volta lá para o fim de Outubro.

sábado, 24 de setembro de 2011

A via única

Este é um país estranho, de posições definitivas um dia e matizadas no seguinte, de rigidismos inamovíveis à terça e de flutuações e ambivalências à sexta, de uns a dizer assim e outros da mesma laia partidária a dizer assado no mesmo telejornal, tudo sob a pressão constante do poder dos interesses em que os agentes dos interesses, empresas e governantes, estão directa e indirectamente envolvidos. A teia urdida de imbricações entre o privado e o público que alastrou com a “economia da democracia”, e que se materializou por esse ascender de uns tantos – as mesmas e novas famílias de poder ligadas a partidos – ao controle dos dinheiros, aos negócios europeus, às possibilidades negociais criadas pela globalização e pelos caminhos ilícitos dos offshores, detém o poder, isto é, detém o poder que sobra do nosso quadro de dependências em contexto europeu e global e jogam-nos de um modo que pouco atende às necessidades nacionais, entendidas estas numa lógica relacional, não fechada.
O caminho da decisão – declarada repetidamente como a mesma até à exaustão como no TGV - vai numa direcção única até que, no tempo do que a memória curta praticada e estimulada pela política do espectáculo motiva, e cento e oitenta graus posicionais depois, assumidos agora sem empolgamento definitivos, estamos no exacto oposto e a deslizar para o mesmo tipo de tensão autoritária na exposição da decisão contrária. É o que agora sucede com o TGV e a ver vamos como, pois rapidamente se instalará, com a clarividência que normalmente resulta do debate à moda portuguesa, a confusão necessária a que as coisas aconteçam num quadro em que a perda de contornos do que se diz vá engrossando uma amálgama ideológica de que resulta justamente a opacificação das realidades específicas, dos processos e das decisões – estas tomam-se à mesma no momento justamente em que a confusão atinge o auge.
Não acreditaria possível se a isto não assistisse: para salvar a face do Primeiro-Ministro e do partido de poder face à decisão europeia anterior subscrita empenhadamente pelo Engenheiro Sócrates, a negociação em torno do TGV ruma agora, em sentido contrário ao da promessa eleitoral, para a concretização de mais uma originalidade portuguesa, a de que vamos ter um TGV em via única, do Caia ao Poceirão e de via dupla, para cruzamentos, entre Évora e Vendas Novas.
Um TGV de via única é de facto uma ideia peregrina e permitirá que os nossos horários de ingresso na Europa via grande velocidade percam a velocidade que se perderá pelo facto de só haver cruzamento durante aquelas dezenas de quilómetros que vão de Évora a Vendas Novas – será a tal Europa a duas velocidades de que se fala literalmente realizada, a metáfora tornada corpo ( a duas?)
Um comboio de alta velocidade parte de Lisboa a contar cruzar-se com outro nesse troço da linha entre Évora e Vendas Novas e calculando tudo para que seja assim, impedindo um regime específico de horário livre caso fossem construídas, como será lógico, as duas linhas autónomas. Não é por acaso que nestas coisas, nos países da Europa, se pratica a política das duas linhas, uma ascendente e outra descendente. É elementar a compreensão desta necessidade e fica claro, com uma decisão deste tipo que o efeito específico da crise, a política da crise, é o aprofundamento do nosso afastamento da Europa no mesmo momento em que a Europa também se afasta do que era e foi – é como se neste processo de integração praticássemos uma política do afastamento constante das metas europeias para a nossa própria vida pela via da suposta integração e que, com isso, na realidade, materializássemos a desintegração europeia. O esboço de integração motivado apenas pelo euro, como agora todos dizem, está longe de uma livre, maturada e necessária integração política, outro patamar de compromissos entre nações democráticas e solidárias – como se isso contasse para o que quer que fosse mais do que para alardeá-lo numa afirmação dos princípios sempre quebrada pelos pragmatismos servis.
É de facto uma estranha metáfora, a via única e cola com a da dívida, também vítima, do lado da solução da sua superação, de um olhar governativo que a reduz a uma via única, a dos cortes que trarão a regressão económica e não o crescimento e o aprofundamento democrático. Tudo se faz e inventa para que a redução do défice aconteça em nome de uns números que são completamente artificiais e se relacionam com empréstimos, com juros e especuladores, como sabemos e não com a produção de riqueza que liberta o crescimento e a autonomia de decisão. Somos um país doente de dependência e de servilismo. Esta da via-férrea única para o nosso TGV como metáfora do nosso modo de entrar na Europa, saindo dela, cobre-nos de um ridículo incomparável.

fernando mora ramos

Manu Chao


Les Wampas


Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'a Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'a Paques

C'est beau la Normandie comme le dit maman tante Marie
C'est beau la Normandie comme le dit maman tante Marie
Mais si j'avais du blé je partirais bien loin d'ici
Mais si j'avais du blé je partirais bien loin d'ici
Souvent les soirs d'été
Souvent les soirs d'été
J'm'assois dans les champs de blé
J'm'assois dans les champs de blé
Je ferme doucement les yeux
Je ferme doucement les yeux
Et j'écoute les pommiers chanter
Et j'écoute les pommiers chanter

Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques (Ouhh)
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques (Ouhh)

Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances dans une super moto
J'partirais en vacances dans une super moto
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques

Moi aussi si j'pouvais
Moi aussi si j'pouvais
J'irais bien jusqu'au Maexique
J'irais bien jusqu'au Maexique
Boire de la Tequila avec le Commandant Marcos
Boire de la Tequila avec le Commandant Marcos
Mais j'ai encore au moins
Mais j'ai encore au moins
5 hectares a labourer
5 hectares a labourer
J'remonte sur mon tracteur
J'remonte sur mon tracteur
Et j'chante pour m'donner du coeur
Et j'chante pour m'donner du coeur

Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques

Mais j'ai pas un beau chapeau comme Manu Chao
Mais j'ai pas un beau chapeau comme Manu Chao
Et j'irais en vacances seulement à St Lô
Et j'irais en vacances seulement à St Lô
Et j'ai pas de la classe comme comme Didier Wampas
Et j'ai pas de la classe comme comme Didier Wampas
J'resterais pour les vacances tout seul avec mes vaches
J'resterais pour les vacances tout seul avec mes vaches

Si j'avais l'portefeuille de Manu chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu chao
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
Si j'avais l'compte en banque la Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque la Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A ilha

Qual era afinal o petróleo da Madeira? A dívida oculta. De dívida em dívida não só se faz a obra e o espectáculo do “desenvolvimento constante”, estradas e túneis como no Continente, como se enche o papo – só a catástrofe recente, com as revelações que a natureza destapou, pôs a nu erros crassos de urbanismo, com o modo como a água, descendo as montanhas, foi empurrada para onde nunca iria pelas vias naturais, como o afirmaram os especialistas ao explicar como nas linhas de água se construía sem regra.
Esta dívida que agora se revela, entre muitas ocultações anteriores mais ou menos conhecidas, é o sinal de um conúbio estabelecido entre os poderes no continente e o poder na ilha, e existe como que uma prática aceite de facto por tradição consuetudinária pelos governos centrais que nunca agiram e que o devedor diz, para legitimar o ilegitimável, ter cometido em legítima defesa, como se o diálogo político fosse um duelo entre pistoleiros – a frase é esclarecedora e remete para inflamadas (FLAMA, assim se chama a estrutura guerrilheira de direita que exerce um poder oculto na ilha) ameaças anteriores de independência avulsas, ouvidas repetidamente na ribalta da política nacional quando o poder insular necessita da chantagem como forma de acção directa, a que nunca faltou um arreganhar armado dos dentes de fora. É gente que se exalta, e cospe agressões de teor soez numa linguagem inaceitável, quando lhe tocam no que, sendo público, gerem como propriedade privada. A Madeira é uma Região Autónoma gerida como um latifúndio privado, desde Abril. Quando se diz que na Região Autónoma da Madeira há um défice de democracia incorre-se numa imprecisão de consequências incontroláveis. Há défice no continente, isso sim, com a ausência de acção do poder judicial e com a promiscuidade entre os poderes e não há sequer democracia na Madeira, nuca houve, Abril nunca lá aportou. A democracia é o bem-estar geral como projecto em processo real e a liberdade de opinião e organização associados a formas de solidariedade coerentes, factores de coesão e estas qualidades da liberdade e do desenvolvimento real não são, na Madeira, factos de um quotidiano interiorizáveis – ninguém que lá vive sente democracia e todos falam de medo, excepto os que o fabricam.
Na Madeira, o folclore do poder de Estado agindo e a impotência das oposições parlamentares, de verdadeiro vão de escada organizacional, mostram como uma pequena região pode viver à margem dos princípios gerais de vida democrática e da coesão nacional. Quando a generalidade do emprego das pessoas depende do Estado Regional – só gorduras como diria o outro, se quiséssemos ironizar – e quando a liberdade de opinião não tem espaço e só se faz ler e ouvir em actos de coragem e resistência, estamos num regime que não tem nada de democrático e tudo tem do velho paternalismo cacique. Todos têm medo do desemprego e todos têm medo de expressar opinião divergente porque temem represálias, estamos cansados de o ouvir. No resto do latifúndio reina o casino e o folclore carnavalesco mais os fogos de artifício de novo ano velho.
Em qualquer democracia a revelação, e o assumir directo após a negação – o ziguezague de posições caracteriza a inconsistência da política e a consistência dos interesses, ou melhor a sua sobreposição como A política seguida - da ocultação de uma dívida, valor essencial para efeito de contas, locais e nacionais, levaria a medidas de punição que são as que derivam do lesar dos interesses do Estado. Uma dívida de 1113 milhões de euros assumida directamente pelo Presidente do Governo Regional levaria eventualmente, na base da lei 41/2010 sobre crimes cometidos por detentores de cargos públicos, a uma pena de prisão de até um ano.
O que se vai passar? Mais uma vez vamos assistir a um deixar andar do que é nitidamente crime de colarinho branco no topo da hierarquia do Estado? O Estado protege os seus para além de todos os limites? É-se inimputável por se pertencer ao Estado, ao poder? Este processo de análise anunciado pelo PGR só dá vontade de chorar. Mais um processo que vai levar não se sabe quanto tempo e que não vai concluir nada ou que vai esperar que o tempo resolva de modo injusto o que a justiça deveria julgar punindo. Este é um país sem rei nem roque. Este é um país que está a hipotecar o seu futuro concedendo aos poderes de facto espaços de manobra em tudo contrários aos princípios da democracia e à lei. É de facto altura para falar da necessidade de um sobressalto democrático. Se Abril se fez, outro Abril será possível.

fernando mora ramos

Saída de cena



Cesaria Évora retira-se. Quem não a viu ao vivo, não sabe o que perdeu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Posts sábios (V)

Já perdi a conta à quantidade de vezes que oiço falar de "revolução silenciosa" para procurar desculpar o facto de não se estar a fazer nada de relevante ou o que se está a fazer não estar a produzir o efeito desejado.

Mariano Gago dizia que estava a fazer uma revolução silenciosa na Ciência e nas Universidades.

O programa Novas Oportunidades foi também qualificado como uma revolução silenciosa.

O programa de distribuição de frutas e legumes nas escolas também foi considerado uma revolução silenciosa.

A ida de Paulo Bento para treinador da selecção nacional foi igualmente vista como uma revolução silenciosa.

Também a antiga Ministra do Ambiente Dulce Pássaro dizia que tinha havido uma revolução silenciosa na distribuição de águas.

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados foi também vista como uma revolução silenciosa ao serviço dos idosos.

Alguém deu por todas estas gigantescas revoluções?

Não querendo desmerecer a tradição das revoluções silenciosas em Portugal, vem agora Carlos Moedas dizer que o Governo está a fazer também a sua revolução silenciosa de que os portugueses infelizmente não se conseguem aperceber.

Imagine-se onde é que está a revolução silenciosa: numa futura revisão da Lei da Concorrência, que ainda ninguém viu, e numa reforma muito limitada do Código da Insolvência, já justamente apelidada como uma via verde para a insolvência. Neste último caso, duvido que a revolução seja silenciosa, pois, se alguma coisa que dificlmente será vista em silêncio será o multiplicar das insolvências em Portugal.

Era bom que acabasse este hábito de chamar "revolução silenciosa" a tudo e mais alguma coisa. A única revolução de que me lembro de ter assistido neste país ocorreu há 37 anos. E garanto que na altura toda a gente deu por ela.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Coisas de que o Javali não gosta: reuniões em geral e algumas em particular

Se o Alexandre me quiser dar uma mão...

"Estamos falidos e quando se está falido, está-se falido. Não vale a pena andar-se a discutir. A única coisa a fazer, todos em conjunto, é não assistir a este espectáculo triste de nos estarmos sempre a queixar na televisão, mas darmos as mãos e recuperarmos o país a trabalhar", argumentou hoje Alexandre Soares dos Santos durante uma conferência promovida pela AEP, em Lisboa.
ICI

Imigrantes


Pequeno cemitério perto de "China Town". Nova Iorque

Foto JOTA ESSE ERRE

domingo, 18 de setembro de 2011

Gigantes em era de cortes

As mamas ultrapassam qualquer sistema de calibragem dentro da lógica sutiã, as unhas têm seis metros e a língua 9,75 centímetros. Onde é que isto se passa? Na América. Onde é que isto é notícia: no mundo. A senhora das mamas, exposta num jornal de referência entre um artigo de fundo e uma boutade, exibia as suas montanhas em queda numa foto que ainda continha, por cima da omnipresença glandular, um sorriso que posava para celebridade instante, que não seria exactamente o mesmo sorriso da pessoa que de seguida teria de as transportar para outro pouso que não o da pose. Esse sorriso algo lhe valeu, o tamanho das mamas não rendendo já pela extravagância e exotismo como no século dezanove/vinte rendia dando lugar a estatuto circense – entre nós o caso do gigante de Manjacaze é de tempo mais recente, o nosso arcaísmo prolongou-se e não morreu - rende certamente pela cadeia que vai da notícia a uma publicidade qualquer que, se não se localizar na matéria alvo, pode certamente, ancorada nela, partir para uma outra área, a dos monta-cargas, ou outra área afim, visto que a dos sutiãs é óbvia, haja tecido. A senhora, cujo sorriso espreitava entre seios, duas meninas do olho ao longe e aquele tom marfim que brilha, lucrou com a fama, ou lucrará, o que eventualmente nenhuma fortuna pagará já que será definitivamente - um destino difícil - a das maiores mamas do mundo, mentira óbvia pois a globalização só globaliza o que lhe convém e nós sabemos que se o Entroncamento fosse perto de Nova Iorque as abencerragens leguminosas que aí ocorrem teriam fama galáctica. Além disso, sabe-se lá se num recanto esquecido do Cáucaso não haverá entre campeões da ancianidade uma criatura de mamas tão ou mais vastas que a agora celebrada.
Mas, a cartola das novidades está fértil, e em dia imediato surge a senhora com as maiores unhas do mundo, também num jornal de referência. Esta senhora exibia umas unhas em cornucópia e um mesmo sorriso a publicitar. O caso é no entanto diferente e mostra militância: tinha lutado por isso, o que não era o caso da senhora mamuda, pois a esta acontecera-lhe, desígnio dos deuses. E lá estava, a unhuda, no meio de um passeio de metrópole americana em danças inesperadas com as mãos e obviamente num êxtase de felicidade que extravasava a foto e nos contagiava, leitores incautos de surpresas, sabe-se lá se definitivas até para curar neuroses: quem muito concentradamente passar os anos necessários a ver crescer as unhas até seis metros – em dedicação exclusiva – ganhará por certo os céus da tranquilidade pessoal.
E a coisa não pára, já ontem surgiu a senhora da maior língua do mundo: nove vírgula setenta e cinco centímetros, também num jornal de referência, suponho que o mesmo diário de notícias aliás. O caso aqui muda de figura pois faz sonhar qualquer perverso moderado e aos imoderados cavalgar sensualismos sem cautelas. Se no mar das mamas da primeira senhora se poderia perder o pé, e se as unhas da segunda poderão estimular masoquistas, perder-se-á certamente a cabeça com um beijo a fundo da senhora linguuda – linguaruda é outra coisa. Nove vírgula setenta e cinco centímetros em riste ou mesmo em nó, língua dobrada, é para respeitar. Dadas as zonas de aplicação das suas virtudes específicas poderemos até pensar que é arma branca, letal e que é quase ideal para várias formas de asfixia. Eu vi a língua e sei o que senti, um arrepio não na espinha mas nas orelhas. Caía pelo queixo abaixo e este desaparecia formando-se uma estranha máscara, tudo era língua.
Não faço ideia da razão da proliferação de tais jóias noticiosas. Dado o peso do que no mundo é tragédia constante – e não era, a este ritmo – provavelmente o editor das graçolas está a ganhar espaço no acesso ao espaço noticioso. Corre-se, claro, o risco de fazer da referência jornalística o seu contrário, a referência para voyeur se estimular, não é por acaso que são todas senhoras e, sabe-se lá porquê, americanas, de onde vem a imaginação que importamos e onde tudo acontece.
O que é lamentável é que este governo que sabe que as exportações são o segredo da recuperação económica, ao extinguir um teatro nacionalzito não tenha criado um Instituto das Abencerragens Transaccionáveis no Espaço Virtual. Poderia começar por um levantamento das potencialidades das batatas do Entroncamento como Indústria Criativa – fértil também em tudo o que é legumes maiores para além da medida – e poderia em seguida exportar as nossas extraordinárias singularidades maiores, o Dr. Alberto João por certo.

fernando mora ramos

Coisas de que o javali não gosta: alcoviteiras

sábado, 17 de setembro de 2011

Posts sábios (IV)

Para que serve um professor quando não há dúvidas? É esta a pergunta que se tem feito pelo Ministério da Educação, numa altura em que as exigências orçamentais obrigam a fazer cortes.
«Um professor, quando não há dúvidas, é como um mono gigante que tapa a vista dos alunos, porque ler o que está escrito nos livros toda a gente sabe», afirmou o ministro da Educação, Nuno Crasso.
Foi por isso decidido que os professores que vão ser chamados para assegurar os horários por preencher serão contratados à dúvida. «Quando há uma dúvida, contratamos o professor, ele responde e depois metemo-lo logo na rua», esclareceu Crasso.
Já ontem à tarde, numa escola do agrupamento 4 da direcção regional de educação do sotavento, um aluno chamou “stôr” e foi contratado um professor naquele momento. O jovem queria pedir para ir à casa de banho, o professor contratado consentiu e depois foi corrido. «Funcionou muito bem», relata o ministro.
A única excepção a esta nova regra do Ministério da Educação será feita na Madeira, onde os horários das escolas serão preenchidos com 20 professores por sala, catering do Pestana, bailarinas russas e trapezistas.
ICI

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Celeste Cambaza. Museu de Arte de Uppsala. Suécia. Abril 2011

Foto Sérgio Santimano

Glossário do javardismo bem pensante – treze entradas para um começo interactivo

1. O Javali é omnívoro mas não é voraz.

2. O Javali bem pensante vai ali e já vem, com a sua licença, claro.

3. Um Javali a sério fuça no caviar quando pode e não tem remorsos.

4. O Javali é um defensor do elitismo para todos.

5. O Javali verdadeiro tem eira e beira, mesmo quando não tem eira nem beira.

6. Um Javali adulto come muito mais moderadamente e come também em diferido, por gosto da imaginação.

7. Um javali a sério bebe com tempo necessário e não corre.

8. Javali que corre imoderadamente é de uma outra casta, provavelmente ainda é leitão, mesmo quando o buço ou as brancas explodem.

9. O javali desconhece o stress porque planifica mas não se fica.

10. O Javali ama a sesta e a sexta, mas não seguidas.

11. O Javali gosta de observar a realidade do camarote mas não é por isso que menos corre a destapá-la ou mesmo a pontapeteá-la.

12. Um Javali que se preze vai uma vez na vida ao São Carlos mas não desce o Chiado sem patins nos olhos.

13. O verdadeiro Javali pasta no British Bar o seu tremoço amado e plana no Sodré as madrugadas a pensar na Rua Araújo e nas virtudes de catembar.

fernando mora ramos

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Before and after mas sempre de carapinha



HARRAGAS

Pintura João de Azevedo

Do javali quando sentado

O Javali está sentado e se não se levanta é porque põe aquela questão decisiva do valerá a pena – valerá? E não lhe apetece responder à interrogação com a frase do Pessoa, muito bombástica mas demasiado feita à possibilidade da recorrência, publicitária. E o Javali não é recorrente, é porque é na realidade reincidente, é pelas repetições substantivas, sábias, como as da série, como as da insistência no mergulho das coisas da política e na crítica do chicoespertismo dos políticos – é uma das idiossincrasias nacionais, a que há que juntar de novo Fátima, Futebol e agora Fados, plural, o fado europeu por exemplo, e obviamente o fado não nostálgico, o que passou para o lado de lá da saudade, Nova Iorque por exemplo, qualquer cosia que se diga em inglês.
Como não fulanizar por vezes as coisas se a matéria é mesquinha, indaga o Javali? Há pinças para fazer a cirurgia do mesquinho ou isso implica meter um pouco as mãos na merda? Estas coisas pensa o Javali sentado. E meter as mãos na merda desvirtua ou faz crescer? Faz crescer, pensa o Javali e faz crescer mais que os flocos que também fazem crescer, os de aveia certamente, os do malte também, uma Guiness, ou mesmo uma canha alentejana, ou mesmo aquela aveia que faz o vinho e que é de castas tão infinitas quantas as mais que oitocentas referenciadas – é um mundo admiravelmente novo desde muito antes de Cristo. E se há afectos, obviamente pelos outros, o Javali é de um javardismo afectuso e sincrético, até um pouco entrópico – muito tropical também – é, sem dúvida, consistentemente amoroso. E muitas vezes é aí que perde a sabedoria e mete a pata na asneira – mas como viver sem ela, a bela asneira, a boa asneira, a asneira perfeita, caminho para o sublime que desce e sobe e ama por certo enquanto se perde. O desnorte também ataca os sábios. Não me refiro a uma sabedoria de erudição, mas a uma outra, a do balanço das porradas comidas, balanço prospectivo por certo, pois o outro sem perspectiva deixa em baixo, rebaixa, é de dar em molusco e molusco é coisa que não é. Se há coisa que o Javali não é também é de neuroses nem de regá-las. Mas é afeito a fumos e é na realidade num bom prato de tremoços que vê a sua bolota. No tremoço está a virtude, tal como na sombra do chaparro, esse ouro sem bolsa, estará a bolota, esse porvir no horizonte da mastigação. O Javali é omnívoro, disso não duvidem. E gosta de ópera mas frequenta pouco, é mais na banheira que gargareja os seus baixos contínuos, enquanto ensaboa – o mau cheiro é mesmo genético, pois é asseado, é filho da mãe. É um bicho que parece antipático mas é de uma simpatia estrema na longa duração. Como os patos traz a canalha atrás em fila indiana, mas ao contrário dos patos não voa. E se está sentado é porque está a pensar levantar-se. O espectáculo não está grande coisa, é necessário patear não só os videirinhos e as suas vidinhas, como os que confundem o que são com o que imaginam os outros ser por serem como são.
Relativamente aos poderes o Javali tem uma máxima: mais cedo ou mais tarde haveis de vos foder. Trata-se de uma fórmula de grande eficácia e clarividente, tem sentido pragmático e alcance temporal. Aprendeu-a um dos Javalis num café de Braga. Dizia o empregado de mesa para toda a sala depois de um longo pedido em alemão altamente declinado: “ides beber um vinho do Porto que vos fodeis!”.

fernando mora ramos

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Está tudo nos clássicos (V)

Élucubrations


Antoine


Oh, Yeah !
Ma mère m'a dit, Antoine, fais-toi couper les cheveux,
Je lui ai dit, ma mère, dans vingt ans si tu veux,
Je ne les garde pas pour me faire remarquer,
Ni parce que je trouve ça beau,
Mais parce que ça me plaît.

Oh, Yeah !
L'autre jour, j'écoute la radio en me réveillant,
C'était Yvette Horner qui jouait de l'accordéon,
Ton accordéon me fatigue Yvette,
Si tu jouais plutôt de la clarinette.

Oh, Yeah !
Mon meilleur ami, si vous le connaissiez,
Vous ne pourriez plus vous en séparer,
L'autre jour, il n'était pas très malin,
Il a pris un laxatif au lieu de prendre le train.

Oh, Yeah !
Avec mon petit cousin qui a dix ans,
On regardait "Gros Nounours" à la télévision,
A Nounours il a dit "Bonne nuit mon bonhomme",
Il est parti danser le jerk au Paladium.

Oh, Yeah !
Le juge a dit à Jules, vous avez tué,
Oui j'ai tué ma femme, pourtant je l'aimais,
Le juge a dit à Jules "Vous aurez vingt ans",
Jules a dit : "Quand on aime on a toujours vingt ans".

Oh, Yeah !
Tout devrait changer tout le temps,
Le monde serait bien plus amusant,
On verrait des avions dans les couloirs du métro,
Et Johnny Hallyday en cage à Médrano.

Oh, Yeah !
Si je porte des chemises à fleurs,
C'est que je suis en avance de deux ou trois longueurs,
Ce n'est qu'une question de saison,
Les vôtres n'ont encore que des boutons.

Oh, Yeah !
J'ai reçu une lettre de la Présidence
Me demandant, Antoine, vous avez du bon sens,
Comment faire pour enrichir le pays ?
Mettez la pilule en vente dans les Monoprix.

Oh, Yeeeeaaaahhhh !

Capitais, culturais e europeias (3)

(continuação)

20. E em muitos casos certamente, a qualidade dos animadores vai fazer milagres, criar mesmo experiências de profundidade humana. Eu não me refiro aqui a muitos projectos que serão certamente bem pensados e com equipas capazes e sérias. Eu refiro o todo da iniciativa, o consórcio dirigente e o fundo negocial deste tipo de coisas e a sua falsa política de rastos úteis em prospectiva. Por detrás estarão muitos interesses empresariais, muita obra, muito mais determinantes do que quaisquer objectivos artísticos e culturais estruturantes, até agora não clarificados.

21. Uma análise profunda e detalhada das aritméticas dos montantes usados e em quê seria aliás de fazer, por razões de diagnóstico e de compreensão dos fenómenos. O que aliás rima agora com a moda única do corte, já que apenas podemos aprender, daqui para a frente, a fazer apenas contas de diminuir e somar é uma operação algo irreal, que não saberemos em breve o que é, em extinção como os pandas.

22. Só pela via de uma planificação integrada, local, nacional e internacionalizada e na perspectiva do enraizamento de uma nova vida cultural – e certamente de aspectos de economia pública e privada que lhe corresponda e não o contrário, se poderia caminhar numa direcção pressentida, absolutamente necessária – estas coisas têm de enunciar desígnios e metas. Assim, como é, à curtição seguir-se-á, como aliás é natural, a ressaca.

23. Para uma verdadeira mudança cultural europeia os prazos de realização de verdadeiros projectos de transformação nada têm a ver com eventos e pirotecnias, com falsas intensidades e fugas para a frente, zapping e fugacidade. Duração é a palavra, média e longa duração, os projectos europeus não podem coincidir com ciclos de poder assentes em dependências de lógicas eleitorais – dois anos para fingir que se faz qualquer coisa e outros dois para desfazer o que se fingiu organizando as baterias e a despesa para novo espectáculo eleitoral. Os ciclos de tempo das iniciativas estão de facto indexados por assim dizer a tempos de gestação sempre abortivos daquilo que se vende como sonho e isso deve-se de facto ao jogo da mobilidade das clientelas de poder nos poderes. Só o aprofundamento da democracia cultural trará lógicas democráticas de mobilidade social e novos poderes, poderes democráticos.

24. A transformação tem de ser inscrita num outro espaço e esse é o da memória, da memória cultural, artística e política, propulsora, futuro em acto. Nada se pode assentar sobre a inovação em abstracto, esse pseudoconceito que nada tem a ver com invenção e tudo com a superficialidade de uma lógica discursiva ecrã/maníaca, dependente do primado dos condicionamentos mediáticos. Com Sócrates inovava-se a torto e a direito, instante a instante, do Magalhães ao simplex e deste directamente para crise, como se vê e sente.

25. A Memória prospectiva, a tradição e a invenção numa dialéctica de contrastes positiva, pode abrir um caminho. Não nos faltam excelentes pensadores nem visionários esclarecidos do futuro, a Europa é rica dessa riqueza desprezada, o nosso problema é que estamos reféns da mediocridade instalada nos poderes, nos sistemas de poder, como mais uma vez agora constatamos, por via dessa classe média disposta a tudo, a todas as ginásticas e a pouca verticalidade. No pouco tempo de exercício do poder destes novos-ricos da política já lá vão quase oitocentos nomeados directos num total de cinco mil contratações. Imagino que sejam muitos e sei que são muitos considerando o afã desestruturador do aparelho de Estado, particularmente nas suas vertentes de assistência social, exactamente no mesmo momento dos contractos para a nova clientela.

26. Enfim, era importante que um projecto de reformulação deste tipo de supostos impulsos organizados, que dirão marcos de desenvolvimento cultural e aprofundamento democrático, considerassem ainda vários elementos decisivos de um qualquer entrosamento projectual com as realidades: a questão das linguagens e a alfabetização dos espectadores e as vias disso é essencial, não como técnicas, mas como formas vitais de compreensão, como capacidade de inventar o que se pensa e de agir com pensamento. Que isso pudesse acontecer não num quadro de nivelamento por baixo ou de generalização de vulgaridades, mas segundo um caminho que fosse elitista para todos, repito, elitista para todos, qualificado para todos, nivelado por cima para todos.

27. E não nos esqueçamos da língua, como húmus de tudo, riqueza feita de todas as diversidades, mas também e para mais com esta história do acordo ortográfico, como objecto de projectos, uns mais técnicos, mas muitos mais certamente de cultivo prático do literário.

28. Se assim fossem as coisas, a prazo longo, do Estado repressivo passaríamos à possibilidade generalizada dos estados estéticos e a GNR, Guarda Nacional Republicana, seria uma escola de artes.

(conclusão)

fernando mora ramos

Relax!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O homem dos anéis


A ler a Bíblia. Nova Yorque. 2011

Foto Jota Esse Erre

Excuse me?! / Pardon?! / Beg your pardon?! / What?!

Lições de Londres (2)
A maioria das pessoas está genuinamente convencida que os pobres só o são porque querem — porque não querem trabalhar, gostam de viver de subsídios, do crime ou o que seja. O que dá muito jeito para se elevarem da sua própria miséria e mediocridade, comparando-se com um outro "feio, porco e mau". Paradoxalmente, toda a gente gosta de comparar os "vândalos" com outros que lá viverão, muito honestos, e que serão as "vítimas" dos primeiros.

Capitais, culturais e europeias (2)

(continuação)

10. Na realidade as indústrias criativas incorporam elementos artísticos na sua materialização e consumo, mas não são actividades artísticas, são formas de alargamento da economia a sectores e áreas da vida que surgiram em função de novas necessidades de consumo, de novas sensibilidades dos mercados, como dizem, fruto de diversas transformações, no plano das identidades e no plano da globalização e das suas fabulosas novas vias. Isso está estreitamente ligado ao que já chamaram capitalismo cultural, mas nada tem a ver com os discursos artísticos nem com a experiência artística, que não visa o lucro nem tem garantido por assim dizer um inevitável caminho de sucessos contabilizáveis. Sabemos aliás que a arte é composta das mais variadas tentativas de o ser, fracassadas muitas e muitas plenamente realizadas apenas na sua própria teimosa reincidência.

11. Eu nada tenho contra a Guimarães 2012, ou contra outra qualquer capital em si, tenho contra o modelo e o tempo, a forma e o que me parece é que estas realizações, com outros dirigentes Europeus que quisessem de facto outra Europa, uma Europa das culturas dos povos e das suas identidades complexas e diversas e não apenas da união monetária e da partilha do seu fracasso, seriam outras – infelizmente os povos não se batem por novas perspectivas neste tipo de realizações, estarão imersos na apatia, quando não no medo, ou porventura acumulam energias para explosões de violência social como as que têm estalado, e esperamos nós que em breve outras, de outros tipos, pois fazem falta.

12. Depois da ressaca do Porto 2001, amplamente reconhecida e em plena crise, é no mínimo estranho que não se pense o contexto desta capital, ou que se o fazem, nada digam, nada exponham, como se a iniciativa fosse da esfera privada de uma meia dúzia de pessoas, de empresas e de participantes. Onde está a dimensão cidadã do seu processo de concretização? Só assistimos aliás à exposição pública do que é pequeno e mesquinho.

13. Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, não apenas na capacidade de consumir – é um aspecto entre outros - mas no tipo de vida, mesmo nos direitos elementares, a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Não percebo, parece-me mais do que a política da avestruz, parece-me uma política de pequenos e grandes interesses convergindo na partilha de um bolo em que outros, mais famintos, também querem entrar – é o regabofe previsível, o fartar vilanagem possível em tempo de migalhas. O retrato imaginável é de facto, de uma tristeza profunda.

14. Mas a curtição estará aí, em doses de fluxo significativo enquanto durar. E serão doses das mais variadas e diversas experimentações e iniciativas de rua – muitas certamente: a rua é aliás e cada vez mais espaço de iniciativas da sua própria privatização no quadro de entretenimentos expressivos – ela está marcada pelos tais sinais constantes das marcas que a usam quando a usamos como se fossem um cenário obrigatório – a rua, enquanto espaço público, tende a desaparecer e este exemplo da Estação do Chiado é bastante significativo. Por vezes uma busca irreflectida do que será eventualmente massivo, número, quantidade necessária, uma lógica que no fundo separa as elites dos outros, arrasta esta colaboração ingénua do artista com o manipulador “oculto”.

15. E isso é que é importante: que o fluxo e a velocidade das coisas não pare, que a capital não pare, que tudo o que seja reflectir sobre caminhos e possibilidades é outras coisa e é certamente reacção à excelência da curtição por vir. É o que dirão de quem criticar apelidando a crítica de criticismo, de velhos do Restelo, etc., e criando para a iniciativa uma espécie de estatuto de inimputabilidade, dada a marca Europa, de facto para nós associável a maná. Para nós? Para quem? E os êxitos somar-se-ão até que o balanço venha pôr as coisas no sítio, atrás, no antes que supostamente pedia o depois que veio e não foi e que, na realidade, nunca será enunciado com a clareza de um objectivo global, íntegro, vimaranense e nacional, europeu e lusófono, internacionalizado e local, glocal como alguém com imaginação inventou.

16. Mas não seria de reflectir sobre as contradições gritantes das nossas realidades, das nossas necessidades? Uma capital nada terá a ver com o desemprego que cresce, com a regressão das nossas capacidades de auto sustentação económica, com o aprofundamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com a violência doméstica, com os problemas complexos do nosso universo escolar, com a precariedade dos artistas, com o asfixiamento das estruturas de criação? Passará ao lado disto tudo para se dirigir para onde?

17. O caminho de um entretenimento globalizado, uma industrialização do entretenimento, eis o que temos aí, no mundo inventado pelos poderes que nos governam, maioritariamente conservadores, mesmo reaccionários, que tem nos entretenimentos a chave do seu êxito governativo, novos ópios do povo.

18. Capital da crise, poderíamos dizer, certamente se a considerasse até como móbil, e o que vai ser? Vai ser a expressão da abundância da diversidade do mesmo: as máscaras do diverso, as embalagens e o mesmo ao serviço do mesmo, o imobilismo, o capitalismo selvagem na cultura – não singularizo projectos, tento imaginar o fluxo da contaminação de tudo e a velocidade imparável das realizações, como se sabe que é.

19. Assistiremos por certo a uma aliança alargada entre o kitsch, o mundo rápido dos workshops e as mais variadas estratégias de animação: animação para crianças, para adolescentes, para mulheres, para velhos e mesmo para desempregados, para marginais e para deprimidos, numa espécie de nova caridade assistencial criativa plena de interactividades.

(continua)

fernando mora ramos

Alfama, perto da Casa dos Bicos. Lisboa. Agosto de 2011

Foto Sérgio Santimano

domingo, 11 de setembro de 2011

Posts sábios (III)

Os elementos ontem dados a público pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam aquilo que já se sabia, mas que o Governo, ideologicamente dominado pelo neoliberalismo, teimava e teima em não ver: que a sua política económica não resolve, antes agrava, os males estruturais de que sofre a economia portuguesa.

O segundo trimestre do ano apresenta uma quebra do consumo privado como não há registo nas estatísticas nacionais, o mesmo se passando com o consumo público. Tendo, por outro lado, em conta que o investimento caiu igualmente (como não poderia deixar de ser), o destino da economia, no “bom estilo” da ortodoxia neoliberal, ficará exclusivamente entregue à sorte das exportações.

Como, porém, as exportações dependem mais da conjuntura económica internacional do que das “virtudes” de quem exporta, é de prever, face ao afrouxamento da economia dos Estados Unidos e da União Europeia, inclusive de uma provável recessão, o pior para os portugueses.

A brutal carga de impostos infligida aos contribuintes corre o risco de nem sequer, no plano puramente formal, cumprir o objectivo a que em teoria se destinava: reduzir o défice em 2011 para 5,9%, já a quebra das receitas será de tal ordem, por força da diminuição da procura interna (de certeza ainda mais acentuadas nos dois últimos trimestres), que inviabilizará aquele objectivo.

Aliás, os sinais de alarme estão por todo o lado. O BCE que ficará na história por ter subido a taxa de juros quando se desencadeou a maior crise económica depois de 1929, voltou, há pouco tempo, a incorrer no mesmo erro por temer uma pretensa subida dos preços numa conjuntura em que a situação dos países em crise da zona euro exigia uma política exactamente oposta. Ontem, Trichet já veio dizer que os juros não subiriam, decisão que mais não é do que a constatação de um falhanço: a incapacidade de as políticas de austeridade impostas na zona euro conduzirem ao crescimento. Claro que a decisão de BCE não foi tomada para não prejudicar ainda mais os países em crise, mas por nas grandes economias (a começar pela Alemanha) já haver também sinais muito evidentes de desaceleração económica.

Entretanto, a Grécia parece recusar-se a cumprir o estúpido programa de austeridade que a Troika lhe impôs…por já ter chegado à conclusão que ele apenas acrescenta recessão à recessão. As ameaças logo se fizeram sentir, por parte a Alemanha e da Holanda, a ponto de pela primeira vez se ter falado, oficialmente, na saída da Grécia do euro.

Espera-se que a Grécia resista, que não ceda, deixando levar as coisas à beira do precipício, por haver a antecipada certeza de que o “tombo” não será igual para todos: os mais fortes cairão de mais alto…

De facto, ninguém na UE pode impor a expulsão do euro. O que poderia acontecer, se à Grécia não for emprestado dinheiro, é que ela entre em bancarrota. Só que se tal acontecesse, o euro teria também os seus dias contados.

Oxalá a Grécia resista e dê uma lição aos lacaios da alta finança e aos servis “bons alunos” que já tudo perderam. Até o respeito por eles próprios…




Capitais, culturais e europeias (1)

1. O evento: a primeira circunstância será a da pertinência deste nome na análise, evento, grande evento, evento único e o que nos diz da coisa, da localização, do tempo e das amplitudes de sentido que partilhe e dissemine. Evento – palavra que se usa para tudo o que misture acontecimentos, aparentes intensificações de densidade de experiências sensíveis sob a forma de mediatizações e espectáculo, isto é, todas as coisas, tudo o que acontece, o que traduz logo o que na realidade é mais oculto no que transparece e transborda numa Capital Europeia da Cultura: a de que nada acontece de mudança, de transformação de horizontes concretos de vida com a alteração das condições de criação real que activassem o papel das artes e da cultura, a sua inscrição, o enraizamento diríamos melhor, das suas práticas na vida quotidiana da cidade – enraizamento significa o contrário de sobrevoar, de surfar, significa a incorporação de uma nova orgânica vital – é essa mudança que não chega, em que não se aposta, significaria outra forma de viver, outra estruturação da vida na cidade, outros modos de criar e fruir pertencentes ao corpo urbano. A que associamos evento? À rapidez, ao seu desaparecimento e à sua substituição por um novo evento portanto, entretenimento intenso de um ano, feira ou como lhe queiram chamar.

2. É claro que a primeira questão que surge é a da separação que é desde logo feita entre a crise e a curtição, festa seria ainda outra coisa e não artifício e as festas de tão fabricadas como espectáculo – uma forma de poder certamente – são um bem em extinção. As dificuldades da alegria comunitária são contraditadas pela atomização das relações, pelo isolamento, pelo anonimato, pela solidão no meio da massa e a festa massiva vive de muita energia irracional gasta como forma de consumo massivo. Como estamos hoje é como se a meio de uma guerra civil fosse possível sobre os corpos das vítimas transformar os rituais fúnebres e o luto em marcha pela via da crise em celebrações de futuro simulado, realizadas por manobras de marketing associadas às imagens de marca de empresas que as quisessem por assim dizer produzir, como agora sucedeu na estação da Baixa-Chiado a PT Bluestation, certamente ganhando pelo nome um estatuto globalizado e até nova-iorquino – os baptismos não são neutros e vendem imagens e na imagem supostamente habitamos, figurantes de uma realidade sempre virtualizada pela publicidade, consumidores da religião das marcas e da imagem das empresas.

3. Na realidade o que estamos a viver é um descaminho e não um caminho europeu, se com Europeu queremos dizer algo relacionado com as matrizes culturais da Europa, desde logo a cidade grega, o teatro e a política indissoluvelmente associados na mesma praça, as tradições positivas e potência de futuros possíveis da história da Europa, a Revolução Francesa e as tentativas populares de criar outro planeta nos inícios do século XX, a democracia reinventada no pós-guerra, o Estado Social, o melhor das sociais-democracias. Tivemos aliás sempre a capacidade de também sonhar com as experimentações sociais de outras áreas do planeta.

4. Se pensarmos, por outro lado, que Europa quer dizer, muito mais que os actuais epifenómenos de natureza criacionista de tipo para-artístico nos casos da arte e da cultura, desde logo viajamos nas narrativas fundadoras do humano no continente Homero e certamente em Gil Vicente, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Tcheckov, Beckett, Tabori, Pina Baush, e Barker – o grego vivo mais grego de todos nós - e no pós guerra, nas democracias reemergindo como políticas públicas artísticas com expressão orgânica institucional, e nestas os Berlineres e os Piccolos, os museus de todo o tipo, as escolas de artes, a arte no espaço público, a descentralização das estruturas de criação, a regionalização das condições de criação, etc., os novos programas de alfabetização artística e os novos equipamentos, uns e outros a par nesses tempos de projectos pensados em articulação e sinergias, ao contrário dos nossos em que para as arquitecturas novas não há programas culturais prévios, há dinheiro que se esvai nop meio de múltiplos discursos, constantes, sobre a rendibilização da cultura e das artes, veja-se o caso lamentável do CCB. Sempre que ouvirem esta palavra, rentabilização ouçam despesismo, o que eles acusam os outros de fazer.

5. O que poderemos constatar é que as políticas que se sucederam a estas do pós guerra e que dão corpo a este tipo de projectos como as capitais, do tipo festival e mais ou menos longos na sua lógica temporal sempre curta, são a favor do fenómeno, da excepção, da excelência fugaz, mas nada de excelente criam que crie excelência por assim dizer permanente, como um bom solo cria um bom vinho – nada se enraíza num ano e normalmente os programas destas capitais só fingem os antes e os depois como algo estruturante, porque depois já não há dinheiro, apenas houve para a obra, mas não haverá para a vida, para habitar o edifício, o edifício é aliás feito de simulacros.

6. A democracia não se aprofunda, as artes não se inscrevem, as cidades tornam-se montras de consumo para turistas rápidos que as coleccionam em fotografias intermináveis – ele há mesmo vilas que se convertem em cenários, são desabitadas e os poucos habitantes são como animais exóticos, figurantes empregados de um zoo patrimonial a que os outros trazem a moedinha. No zoo de Lisboa, na minha infância, depois da moeda, o elefante tocava o sino e estava sempre de uma pachorrenta tristeza, na realidade sonhava com a savana.

7. Estas capitais são justamente sistemas de ilusão na produção do novo, são formas de o mascarar. São máscaras do novo, dado que o novo pouco tem a ver com a constante inovação dos seus aspectos – o que o design, esse fiel servidor do marketing, cumpre – mas tem a ver justamente com o surgimento do que não está pré-definido como aquilo que é a formação do gosto, ou dos gostos e não a sua formatação. O novo não se anuncia, nem se autopromove em publicidade, muitas vezes leva décadas a ser parido com expressão social, assim aconteceu com livros determinantes ou com as publicações de Pessoa em vida – um novo certamente muito complexo e por muito que o queiram, dificilmente convertível numa qualquer moeda de troca como acontece a muito objecto que se assume artístico, particularmente na ordem do que é hiper-visível e pleno de pirotecnia fugaz: quando se vai por eles já lá não estão, como a maioria dos espectáculos do tipo performativo que justamente radicalizam a sua instantaneidade e a sua inutilidade expressiva, a sua fugacidade.

8. A tal sociedade do hiper-controlo de massas estará aí. Eu não percebo muito disso mas parece-me que esta caracterização tem tudo a ver com a esfera da recepção e com o sistema que a alimenta, com o consumo é claro e com as marcas a assumirem o jogo da diversidade e da pluralidade vestindo com esses fatos o que é negociado e mercadificável, fazendo-o manipulando tudo o que tem a ver com os nossos medos, convicções, fantasmas, diria, com os nossos eus, com os narcisismos e os desesperos. A publicidade não tem fronteiras, ao contrário da arte que persegue objectivos éticos nas práticas estéticas, ou deveria fazê-lo, tentá-lo, por vezes em ambiente de contradições que sangram.

9. Esta história agora recorrente das indústrias criativas, como uns dizem ou das indústrias culturais, como outros dizem, é uma coisa que me parece simples e que se relaciona, como foi sempre aliás, com a incorporação de elementos criativos nos objectos de consumo e digamos nas nossas experiências sensíveis presenciais mais ou menos massivas. A IKEA é uma indústria criativa, como será de uma outra forma a Colecção Berardo: o que significará a utilização de um espaço público sofisticado, único, pela colecção de artes visuais de um especulador privado? Eu não me refiro ao valor artístico das peças consideradas isoladamente e porventura imagináveis noutros contextos de fruição, refiro-me ao facto de a colecção estar exposta numa espécie de cofre visível estatal como um investimento de um banqueiro que dela se apropriou, e o que essa situação significa objectivamente: um aumento do seu próprio valor como valor dinheiro, como negócio futuro, já que a colecção, não está dito que se venha a converter num bem público. O CCB é a montra pública de um investimento privado cuja valorização se acentua por esse facto. É um negócio pois produz lucro a prazo e fá-lo num contexto em que é o Estado a promover e incentivar a prática especulativa. É, sendo uma colecção, uma forma de a fazer render num espaço que é nosso. O CCB será nosso?

(continua)

fernando mora ramos

HARRAGAS

Pintura João de Azevedo

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Está tudo nos clássicos (II)

Locomotive d'Or


CLAUDE NOUGARO

Locomotive d'or, aussi riche en pistons,
Aussi chargée d'essieux que de siècles un sépulcre,
Locomotive d'or, croqueuse d'un charbon
Plus fruité, plus juteux que l'est la canne à sucre,
Locomotive d'or,
Sans un soupçon de suie, sans une ombre de lucre,
Tu me fis visiter tes Congos, tes Gabons,
Tes Oubangui-Chari et tes Côte-d'Ivoire
Où de blancs éléphants m'aspergeaient de mémoire.
Locomotive d'or.

Je reluquais le rail, assis sur ma valoche
Et l'horloge vaquait dans l'espace vaquant,
Le silence avouait quelque chose qui cloche
Quand soudain retentit la clameur de Tarzan,
Quand soudain j'entendis un autre son de cloche,
Tu arrivais enfin du fond du cœur du temps,
Tes plumes de vapeur sur ta face de tigre,
Tes faisceaux de sagaies, tes boucliers de cuivre
Locomotive d'or.

Locomotive d'or, de bondir à ton bord
Me donna même joie qu'au sexe de la femme
Mon corps ne m'aidait plus qu'à survoler mon corps,
Ma chair devint esprit, et mon âme Tam-tam,
Tam tam, tam tam, oui oui, tam tam d'âme,
Partout, dedans, dehors,
Et de toutes ses dents, succulene banane,
Kenny Clarke riait comme un enfant s'endort.
Comme un enfant s'endort,
Comme un enfant s'endort,
Kenny Clarke riait comme un enfant s'endort,
Comme un enfant s’endort ayant vu le miracle,
Comme un enfant s'endort dans l'œuf ailé de Pâques,
Dans l'amour tournoyant.
Locomotive d'or
Tout le monde va descendre dans la gare divine,
Dans la gare divine, le chef de gare est aimé,
Dans la gare divine la locomotive d'or va souffler,
Comme un enfant s'endort.
La locomotive d'or.
Comme un enfant s'endort,
La locomotive d'or.

Epílogo lírico dividiano

Não há nada à beira de um clique
Que não seja sintético e não como a cobra
Entre silêncios seguindo num erotismo consagrado
Subindo rios de tempo e aves ligeiras
Em estranha fórmula rastejante
Cobra metafórica ou fálica forma?

E mais que somos
Diante da árvore
Deitando dólares nas raízes e bebendo aos deuses
A última canha do descaminho
Buscando humores amainada trégua
Exorcizando fantasmas
Respirando um tempo de outros tempos
As raízes respondendo emaranhando-se
Longe a erosão do visível
Na humidade interior o ser
A possibilidade da pétala

Dessa matéria que o vento consome
São as imagens das coisas que nelas desaparecem
São peliculares e sorriem sempre
Na plastificação constante do implastificável
Mesmo as horrendas intrigas de um comércio de emoções
Que não dá folga ao nosso amor imbricado
Florescem de hora de ponta em hora de ponta
Cobrindo as colinas de exterior cegante

Que tempo pára para ser outro
E quando e se parasse que instante fosse
De carne plena
E se pudesse acertar pelo ponteiro distraído de um relógio cósmico
As pulsões do que é vital
E as luas nesse tempo azulassem ténue
Entrassem como quem vai à escola da infância na mala do primeiro dia
Umas luas balbuciando as primeiras letras
Na luz frágil dos quartos crescentes que minguam
Luas de bolso aquecidas a pilhas de inteligência emotiva
Céus de mão na mão movendo-se em planos inclinados
Nas encostas de um sopro de barro e anilinas

Nada de tripas ao vivo nas estradas desérticas de um ponto perto de Gábu
Como eu vi e não creio ter visto
Nos dias que correm comem-se outras inverosimilhanças
Vi esta carne espalhada à beira dos trilhos dos jipes
Quem disso fala inverdades espalha
E revela o que deve esconder em nome da civilização talvez
E não canta o devido feito contra a dívida marchando
Que de cruéis odores a distância nos protege
E se os caviares da angústia se revelam em horas propícias
Na entrecortada percepção
Não falemos de vítimas
Falemos de aritmética
Sempre é mais asseado
Não há moscas a cirandar pelos números do desespero
E estes não fazem mossa a quem os manobra
Com perícia assassina


Como pode uma paisagem
Que é paisagem cravada na vista
E esta ser um postal
O início da entropia inaugurar
Se ela própria está por assim dizer
No cerco da sua própria autoria
Fechada a interpretações mais que a mão que a fez e desfez
Quanto mais se vê mais se imagina

Entremos numa espécie de epílogo da humanidade
Abençoados pela média da tal classe que a nomeia
E fazendo a vénia esperemos que o veludo se feche sobre
As pulsações em expoente com o estertor da cinza recomeçando
O que for de recomeçar como a tal Fénix
Ou a puta que os pariu

Emílio Navarro Soler

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Está tudo nos clássicos

Où est ma petite fleur ?



O Administrador francês (não confundir comigo, que não sou francês) telefonou-me ontem, muito preocupado, a pedir novas da sua “petite fleur”. Disse-lhe que não sabia e deixei-o com o Sidney Bechet.
Hoje vou ter que lhe dizer que recebeu um ultimato britânico. Se bem conheço o homem, que não pesca uma de inglês e me vai pedir para traduzir, ouvido o rol de exigências, vai enclausurar-se.

Pedrouços

Estou viajar na capital, Lisboa. Estou em Pedrouços primo, estou ver o rio. Não tem ninfa o rio, nem cacilheiro no longe, tem barco rápido e está apertado pelas margens que comprimem, urbanizadas na íntegra, sem nesga de areia vinda de quinhentos, não tem nem caravela como está em Barcelona para o Culombo. O rio parece estrada, as bordas são pistas de treino cidadão, anda tudo a colesterol, hipertensão e açúcar alto, alguns e algumas de ambos os sexos e mais outros vivem para os pneus e a celulite, espécie de objectivo principal como escreveu o Mao na contradição principal e na secundária, essa malvada que estava tapada e comeu tudo quando saltou da sua desimportância para o protagonismo – sem celulite ficas sem assunto, deprimes, estás no nada, com celulite tens assunto, tens um nada cheio de nata. Tem muita gente que vai nesta capela fazer as suas orações de corpo, muitas em grandes agitações de estar parado no mesmo ponto mais de uma hora, corres parado e não vais preso, nem no quilómetro dezassete – era dezassete ou era mais?
As margens estão todas feitas pedra e betão, construção, porto e monumentos, armazéns, restaurantes, espaços verdes, bancos de jardim e papeleiras. A política ribeirinha é a da restauração e espaços verdes, nuns come-se nos outros digere-se. Nem um pedaço de areia a não ser lá para a Cruz Quebrada, a água mal cheirosa da Ribeira do Jamor a chegar cantarolando dejectos á vista desarmada. Como poderiam as ninfas sobreviver. São tão sensíveis primo as ninfas, não aguentam betão nem têm filtro de reciclagem dos esgotos incorporados nas guelras invisíveis e nadam sem esforço, deslizam de sensibilidade, não dá para acreditar só imaginar, parece mesmo milagre, o milagre que não vi em Fátima estou a imaginar no Tejo, aqui mesmo ao lado da Torre, tão bonita.
Chamava-lhes o da pala tágides, não era? Esse da pala não tinha olho mas tinha os dois tomates no sítio e lixou-se, morreu à míngua foi o que disseram os camonistas – alguns chamam camionistas, estava num jornal dos tempos que me passou pelas unhas: congresso de camionistas. Sabe que o da pala esteve na ilha? Esteve lá muito antes do Alexandre Lobato, esse foi depois, já havia riquexó, lembras primo? Estás a ver no livro do Lobato, o primeiro?
Essas ninfas eram uma espécie de equivalente das sereias mas eram de água doce, território demarcado no Tejo, as ninfas gregas eram do Egeu, de água salgada e outras dos mares das ilhas, ilimitado mediterrâneo e etcétera que os mares não têm fronteiras precisas – como pôr alfândega em coisa que não pára e muda sempre de tamanho e força e por aí fora? E que serve alfândega em assunto de coração desalmado e carnal?
Isto é um rio a sério primo e vale bem a baía de Maputo, a nossa baía, aquela que olhávamos da janela da Brito Camacho e mostrava Catembe ao longe, nos tempos, as casuarinas conhecidas de memória a serem colocadas pela memória no limitado da vista e logo ali, à beira da nossa janela, as barreiras, os esconderijos para fumar os caravela de enfiada antes de suruma chegar com as suas paisagens de riso e ritmo e odor e sonolência fantasista.
Lembras primo quando a gente descia até ao barco para a Catembe? E passávamos no Varietá – que nome primo, Varietá, extraordinário. E a COOP e o Comércio do Funchal, o pasquim cor-de-rosa, oposição cromática e libertação simbólica. Lembras primo? Pois o Tejo trouxe-me esses nos tempos. E tem Torre de Belém ali perto, um brinquedo de pedra clara que parece querem fazer restaurante – país da restauração, não da restauração aquela de mil e seiscentos e que tu gramaste também, mas a outra, a dos frangos de aviário. Claro fazer restaurante na Torre em Belém era para fazer Restaurante de caviar em secretos de especiarias com porco preto criado nos cantos do vate e alimentado a alexandrinos – parece que senso comum do mais velho não deixou. Sabes o que é estranho, é que tem heróis do Ultramar mas não tem Camões, nem tem Pessoa – Pessoa só está de ferro no Chiado mas coitado está sozinho, sem os heterónimos, esses até podiam ser de madeira, ou de pedra sabão, ou de outra coisa mais ágil que ferro - com as proporções devidas ao génio primordial da imaginação, da criação, essa pátria em que não se marcha nunca, nem aos sábados e em que só se cultiva a ficção de um porvir à altura da descoberta, do verdadeiro novo e o socialismo erótico das macuas do msiro em movimentos de dengosa iluminação carnal.

Benjamim Saguate, na capital do ex império – escrito de acordo com o ortográfico cantar das ondinhas do rio

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ultimato britânico

Notícias do PREC (processo de regressão em curso)

Um coro de pessoas sensatas diz o mesmo: a classe média está ameaçada, os impostos que sobem torná-la-ão menos média ou nem sequer média, ex média. Na realidade esta designação pertence àquele universo de vocabulário corrente que ganha o estatuto de intocado e tem virtudes de expressão tabu – dizer que a classe média está em perigo faz acender a mecânica da defesa da sua intocabilidade pois é o sinal de que este presente eterno em que nos instalámos está em perigo, que aparentemente ninguém o quer perder, nem sequer os “revolucionários” instalados também na classe média. Diz-se classe média como quem fala de uma sagrada chave da estabilidade, a tal do fim da história, classe essencial de uma organização social que se inventou no estatuto nela plasmado como exemplo, visto como um modo de vida idêntico para uma extensão significativa da sociedade, estruturadora do próprio modelo social.
Desde que as formas de um futuro diferente – não só o presente melhorado mas diferente, tendente à realização histórica efectiva da liberdade, da igualdade e da fraternidade - se enterraram com o fim das lamentáveis realidades socialistas, que o identificar destas com a utopia possibilitou de facto, o voo do debate acerca da construção de outra sociedade vem-se restringindo a núcleos de pensadores com território demarcado, brilhantes mas por assim dizer muitos deles remetidos para um estrelato de pequena escala que lhes retira pela fama o que o arrojo do pensamento possa realmente ter de novo – também eles são vítimas da conversão em show do que constroem com “potência sísmica” e o pensamento perde o veneno positivo, fica descafeinado, é consumível, daí a importância do subterrâneo “toupeirismo”, da construção dos labirintos e do invisível articulado, como defendia o Senhor Onde, personagem de Vinaver e um outro de Michel Foucault, nas suas lições do Colégio de França no interior da peça Borda Fora, extraordinário texto.
Na verdade um pensamento que possa introduzir nos cidadãos um desejo generalizado de mudança para diferente e melhor, tem de sempre fazer as provas das suas virtudes passando pelos filtros da verdade estabelecida no sistema estruturador do próprio imobilismo do presente – agora amplamente regressivo - sempre alternativo a qualquer perigosa mudança.
Este clamor pelas classes médias é muito revelador. Corresponde à percepção de que este não é um governo moderado, de que nenhum valor social-democrata os comove. A governação não passa de uma engenharia financeira aplicada ao conjunto do sistema, da saúde à segurança social, da educação à segurança – aqui com mais folga – do consumo ao Estado, que emagrece por um lado e engorda por outro num passe de prestidigitação mediática.
Média quer dizer média, isto é entre alta e baixa. Média e medíocre não andam longe, pois à média não corresponderá a tal excelência, que só pode coincidir com a noção de alto, de topo, embora na boca dos defensores da classe média a excelência esteja sempre na ponta da língua – em qualquer visão elitista a excelência será para uns poucos e a ideia de um elitismo generalizado a todos não é imaginável. Portanto estamos perante uma ideia que é a de manter o médio como paradigma. Paradigma obviamente virtual, este da classe média, porque as categorizações genéricas não dão conta mais do que daquilo que é estatístico e a estatística não fala das singularidades substantivas mas, por assim dizer, das exterioridades quantificáveis.
Estranho que ninguém fale das classes baixas e que se fale agora dos ricos como contribuintes, para uns dizerem cristãmente que devem pagar mais e outros que isso ataca o investimento, outra vaca sagrada pela qual nada fazem pois nada mais fazem que gerir a dívida em sede orçamental, esse amanhã que não canta. Quando a preocupação se centra na tal classe média sabemos que a questão tem uma identificação com poder aquisitivo, pacotes de compras e modos de vidas estandartizados, com uma padronização total dos comportamentos sociais e sabemos que isso foi sabiamente designado como sociedade hiper-massiva de controle. É onde estamos. É extraordinário fixar como meta de uma sociedade a estabilidade da tal classe média quando se põem de rastos todos os sectores das classes laboriosas, se proletarizam por exemplo os professores e se exportam jovens licenciados. Para não falar do número de desempregados galopante. Serão desempregados da classe média? Ou não entram nas contas a não ser como uma variável numérica?

fernando mora ramos

domingo, 4 de setembro de 2011

Carta da da Rodoviária de Caldas para Xico Nem Saguate meu reprimo sempre,

Estou viajar como disse na última. Hoje vou no Fátima. Não vou no Fátima porque seja religioso, sou animista, tem vida por todo o lado mesmo debaixo da pedra – nuca viu bicho, minhoca, escaravelho, debaixo da pedra? Gosto de ver tudo o que é grande, mesmo coisa pequeno bonito também, e dizem que Fátima é grande, tão grande que dá para dois milhões de joelhos juntos. Depois vou ver a Luz. Não vou ver a Luz de Fátima, essa luz é no espírito, vou ao Estádio da Luz ver a iluminação, as lâmpadas que são de baixo custo e que fazem resplandecer a relva de reverberações cintilantes e sobre as quais a bola levita deslizante – sou do Malhangalene como sabes primo, mas disseram que é melhor relva e esse assunto é definitivo do progresso da nossa bola, estou acumular massa crítica para depois. Em Fátima só quero ver a Azinheira mais o parque de estacionamento das almas. Deve ser uma árvore bonita. Disseram azinheira mas não sei, outros chamam sobreiro. Sobreiro ou Azinheira? É importante para a iconografia do milagre, sua hermenêutica visibilizada. Se fosse Oliveira também era outra coisa, se for Chaparro, a palavra está mal usada – Chaparro no milagre não faz clique, é palavra feio para coisa bonita, vi nos cromos, mesmo Acácia era melhor, mesmo vermelha. E a Virgem nunca apareceria numa vinha, ficava mal, como que desflorada de santidade necessária á boa imagem, não dava para ascender também, é baixinha, nem numa parreira, ficava assim tolhida de céu conveniente. Milagre sem céu conveniente é pouco, fica mais a força da gravidade, espécie de fralda de fora como truque e milagre não é truque. Quem que acredita que a Senhora voasse sem um céu para onde? Vou de Expresso. É um expresso que pára muitas vezes. É um expresso que tanto se chama de expresso como rápido mas parece muito parecido aí com os Oliveiras mas sem nada a balançar no telhado – esses Oliveira daí é nossa salvação desde os tempos. Depois vou na Luz. Na Luz tem relva mesmo relva. Quero ver a relva para perceber como a bola desliza. Esse milagre dos golo tem relva genética escondida. E depois vou ver Pedrouços, de onde partiram os naus. Os naus, os caravela – não estou a falar dos cigarros – foi onde português partiu. Quero ver donde partiu para perceber como chegou. Depois rescrevo primo.

Benjamim Saguate ainda nas Caldas sulfurosas

HARRAGAS

Pintura João de Azevedo

sábado, 3 de setembro de 2011

A invisibilidade da dupla transparência

Quando pensamos que a política não tem mais periferia para continuar o seu curso centrífugo eis que a realidade nos comprova o contrário e que podemos ainda assistir ao vivo a um prolongar dessa deriva. Em boa verdade ninguém nos diz para aonde nos deslocamos, que percurso cumprimos, o método governativo por que se optou, o modelo social eleito como meta – sim, que será governar mais do que transformar a organização social para melhorar a vida dos cidadãos numa perspectiva tripla, aprofundando a igualdade, a liberdade e qualificando as condições materiais e culturais de existência? Será que alguém acredita que vem aí o que quer que seja de identificável com essa tripla lógica de aprofundamento da democracia? Alguém abre a boca para falar destas questões? Será que supõem que o processo de regressão em curso, o novo PREC, é um processo neutro, uma técnica com finalidades orçamentais que só provoca uns tantos danos colaterais como diziam os americanos enquanto morriam iraquianos civis em cachos e que apenas há que falar de sacrifícios e de repetidamente se dizer que se diz a verdade. A verdade necessita de ser repetida? O que tem essa repetição de água no bico? Sabemos, pelos menos os que viveram a experiência do salazarismo e do marcelismo que o que aí vem se chama pobreza e que essa pobreza, imposta estranhamente no processo de integração europeia – não será melhor falar de processo de desintegração europeu? – faz lembrar aquele Portugal definido por uns chavões do antigamente que referiam o País e o seu Abril, mais o verão e a sardinha, como a possibilidade de os estrangeiros experimentarem os nossos arcaísmos como qualidades – os portugueses são simpáticos, telúricos e comem peixe dando peixe a comer a preços que na Europa seriam impensáveis, aliás dão a comer o peixe e também as descobertas, Vasco da Gama, o robalo e a pescada de Sesimbra, são parte do mesmo mito, o tal que faz de nós um país de marinheiros - infelizmente em extinção pelo fim da frota pesqueira liquidada pelo Primeiro-Ministro Cavaco Silva e pela falta de perspectiva de diplomacia eficaz, certamente económica também, para o espaço da lusofonia. Será que poderemos aí voltar, a uma gesta oceânica, a economia do mar que propalam e nele, no mar, qual seria a nova Índia? Uma agricultura das águas profundas, as fontes de calor hidrotermal dos Açores, a energia das marés, o turismo das ondas, o petróleo que afinal teremos, que não é o do Beato e que será talvez de entre Peniche e Nazaré, nas tais águas que nos decuplicam de tamanho? Mas será que não percebem que essa visão é a mesma estúpida visão do tal “progresso” imparável que trouxe a crise?
Felizmente esse Abril distante, de paisagens intocadas pelo betão, sem estradas e com burros simpáticos pelos caminhos – oh como era lindo o Algarve, e era de facto e a Sofia de Melo Breyner fala disso de modo sublime, falando também do ditador do modo que se sabe -, país de carreiros ainda e de agricultura de subsistência em muitas paragens e interiores, de analfabetismo como tipicidade vendável, não regressará, nem as amendoeiras em flor, já não há espaço de onde se possam olhar, as carroças não existem e a prostituição encartada e de meio alterne expandiu-se em turismo. A urbanização caótica, o turismo do betão e a integração europeia, o consumo como modelo, transformaram Portugal no que é, uma periferia sem capacidade própria de autosustento, dependente das migalhas e directivas da Europa alemã, o seu centro manobrador imperial. Estamos entalados como nunca e não temos para onde ir que não seja por iniciativa pessoal, de novo emigrando, já que se somos país da dívida não seremos exactamente Europa e a política nada desenhou de dimensionado no espaço lusófono, por exemplo e nunca se concretizou e planificou a sério uma política da língua no quadro de uma transformação cultural profunda. Novas formas de analfabetismo estão aí, tanto pela via da escola do facilitismo, com Bolonha a marcar como objectivo o “desconhecimento” e a ligeireza de saberes, fornecendo licenciaturas como quem tira a carta de automóvel – os miúdos licenciados vão para caixas de supermercados e para os Call Centers – como pela via de uma hipertrofia das práticas e vivências do consumo.
Não será estranho, no meio disto, que Vasco Graça Moura e Marques Mendes, seniores da política e por assim dizer, maratonistas, venham chamar a atenção para as subidas de impostos que aí vêm contra as promessas eleitorais. A classe média não aguenta. Será que essa classe média já os toca e por isso falam? Mesmo Mário Soares, estranhamente cordato a dar lições em Universidades de Verão com grandes horizontes de saber, diz que nunca imaginou que se fosse tão longe no ataque à dita classe média. O que é curioso é que se fala apenas de um erro governativo estranho: não será a palavra falsa que importa, dizer que não se faz em clima eleitoral e fazê-lo governando, o que importa é que há um défice de explicação ao fazer o contrário do que se disse, há necessidade de explicar porque se mentiu e basta. Eis a verdade: é uma questão de enquadramento. Na realidade não sei porque protestam, tudo tem sido muito transparente, duplamente, na Net e em papel, tão transparente que de transparente atingiu a invisibilidade, a forma própria da verdade conveniente. Afinal, no meio disto, as tais nomeações de gente que não são boys nem girls atingiram os setecentos e sessenta nomeados segundo o Diário de Notícias, pois as listagens reveladas afinal não revelam os números totais. Bons tempos para a verdade dançar. E a falta que faz.

fernando mora ramos

Quand vient la fin de l'été


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Crítica da punheta em clima de águas santas

Estou viajar e a tricotar palavra, a cronicar, gosto de viajar e informo cidadão compatriota e primo, vejo o que olho vê e cabeça manda. É assim como fazer esteira de caniço e pôr ao alto, entrelaçada de fios de capim teso, merda de bode velho e matope de chuva molada. Mistura esteira com matope e é receita de habitação, palhota nos tempos, habitação social agora. Tem vantagem: é fresco e pode dormir descansado, se vier sismo cai mas não mata. Pode voar também se vem furação, monção daqui, e flutua na cheia como jangada, sempre é melhor que telhado de zinco, esse faz forno. Já dormiu com telhado de zinco? É mesmo estufa, bom para estufado, assa peixe, serra de olho grande, pargo mulato. Com pessoa é bom para obeso, receita para caber na roupa, magrecer mas não tudo, reserva tem potencial, reserva de carne mesmo – tem moda de magro aqui? Nada, beleza é a chicha. Já viu dirigente? Magro mesmo não tem, tem sempre prosperidade carnal. Quem manda sempre alcança peso.
Da Manhiça na Europa low cost – viajei no trem - parei nas Caldas da Rainha e não tem rainha, tem rainha de pedra fumado por escape de automóvel na rotunda mais feio daqui de Norte a Sul, que é metrópole nos tempos e rectângulo agora, dito Portugal mas dito também Europa porque tem euro mesmo se tem crise maior que Europa que já tinha Europa antes de ter euro – essa Europa antes era mesmo Europa, agora está ficar sucursal do que era. Terra piquenino este Caldas, piquenino mental pessoa, mal cheiroso, gente que parece ovo mole ou gente seca tal cavaco das Caldas que é como o Cavaco de Boliqueime, seco. Cheiro que tem não é de pessoa que cheira, que pessoa cheira bem como Lisboa excepto a que cheira mal como também tem nós de catinga de esforço e quilómetro na perna, muito quilómetro, mesmo que de chapa que é esforço porque vai como parte do cacho e é circo, esforço e não desforço.
Aqui também produz gás de sovaco, cheira Lisboa diferente é cheiro cantado, fado, aqui não, é mesmo cheiro de águas benzidas. Água benzida cheira a santidade e santidade não toma banho porque santidade não sabe nadar e então deita cheiro que +é mistura de incenso cristão com naftalina mouro. Qual santo toma banho? Conhece? Virgem Maria toma banho, viu na escritura? Quando? E São Pedro abandona a porta do céu para ir ao banho? Nada, já veio com banho ao mundo, vem com banho tomado, foi Deus. A Virgem também. Santo cheira como pessoa não é santo é falso santo, santo mesmo está imune a cheiro, não cheira a nada, só cheiro de santidade – não diz assim? Santo tem sovaco virtual, deus e santo sem banho cheira genuinamente como sovaco solitário cheira genuíno, mas a conclusão é que não é santo é falso santo, é burlão, falso deus, deus com dêzinho, e esse vende tudo falsificado, mesmo uísque de missa.
Estou pasmado: aqui bacalhau tem punheta, quem que acredita? Depois de ver gaita de todas as forma, nunca tinha visto assim, gaita copo, gaita fórmula UM, gaita garrafa, gaita bolo, gaita gaita, gaita com fole, gaita suspiro – todo mesmo açúcar, branco creme – gaita em manto de frade com racha na santidade da roupa, gaita aperaltado de caracóis, gaita com pilha, gaita mole, gaita foguetão, gaita narina, etc-gaita, vi punheta de bacalhau. Sabe espanto como é? Espanto daquele mesmo que parece sai olho pelo cérebro? Foi o que veio. Não é mesmo punheta como aí na Manhiça, autogerido. Esse punheta é fiapos de bacalhau cru em cama de azeite com alho? Será possível. É mesmo. Alguém explica? Ninguém, nem enciclopédia, nem internet, nem globalização, nem Aristóteles, nem o era-clito, aquele que tinha muita dialéctica e morreu de antagonismos.
Sabe o compatriota que eu fez? Uma acção de marketing pela figuração em barro preto da gaita caldense.

Benjamim Saguate nas Caldas / Verão de 2011 que só chove

HARRAGAS

Pintura João de Azevedo

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E mil violas floresceram

Anda aí um vídeo com crianças coreanas do norte a tocarem viola como adultos. São crianças de 4 e 5 anos. Seis, no máximo 7, a idade em que Mozart dava concertos. A receita é antiga, é a dos meninos-prodígio, agora pela via da Net, com garantia de virtualização globalizada – quantas narrativas não vão florescer?
A Coreia diz-se que é um comunismo dinástico. Até o preparado, combativo e culto como poucos políticos portugueses, o rigoroso Álvaro Cunhal – aqui não vem ao caso observar outros feitos - a criticou, dizendo ser inaceitável que, num supostamente existente comunismo, se herdassem funções de liderança máxima por laços de sangue, ao contrário do que mais tarde fez um pupilo impreparado em líder de bancada. Comunismo, creio, seria a sociedade sem classes e essa não só não veio como não virá. Um mundo sem classes é um mundo sem conflitos, um mundo sem mundo, um não mundo. O fim da história seria o fim dos conflitos, um paraíso de tecnologia e vida sob remoto controle autogerido, tudo a fluir sem esforço, o fim do nervo e do músculo obreiro, um mundo sem arestas nem famílias, sem conflitos maiores que os do ladrar do cão do vizinho na hora da minha sesta, o que só uma visão religiosa pode edificar para conforto de prospectiva e neurose aplacada em saudosa linha do horizonte por vir. As tentativas do perfeito utópico levaram às tragédias conhecidas, pelo que batalhar pelo imperfeito utópico é mais libertador e consentâneo com os devires da história, sem cair nos pragmatismos de trazer por casa dos liberais vendidos às bolsas e à especulação – certamente haverá, numa definição mais precisa de objectivos e de um tempo a construir, uma sociedade mais justa, esta é que não é exemplo de nada, nem a que aí vem e os do presente canhestro dizem que constroem destruindo o que de melhor se tinha atingido.
De facto, a igualdade, a fraternidade, a democracia, a luta pelo direito de aceder às mesmas condições dignas de vida, o emprego, a relação entre a vocação, o desejo de, e a profissão em destino, a preciosa liberdade e a forma como todas essas partes da realidade convergindo ordenam uma sociedade, é uma outra coisa, uma sociedade que não necessita de ser baptizada como um nenhum algures impreciso por vir e que se encontrará certamente na via de um progressivo aperfeiçoamento democrático, ilimitado aliás.
Estas crianças mostram o que aquilo é: uma sociedade militarizada até à unha – certamente cortam-nas todos pelo mesmo tamanho para arranhar em condições o tigre de papel, assim como em parada são um massa prefeita, como as tropas de Hitler.
Quem olhar bem o vídeo, percebe duas coisas: 1) as crianças estão sob uma pressão tal que não estão ali, olham como marionetas. E a música que sai é uma música sob comando, nada flui, tudo marcha naquele concerto, tocam como quem faz continência, como quem apresenta armas, faz um sentido, um passo em frente, uma direita volver. E isso ouve-se no que é tocado, os sons saem com a precisão de um mecanismo de relógio suíço, saem na total ausência de investimento emocional liberto das crianças e com a precisão do medo de falhar, saem como ordem acéfala. 2) No fim, as crianças são tão rápidas a agradecer que agradecem antes das palmas, como um animal de circo a quem não se pode exigir sequer inteligência lógica imediata.
O que será isto? A tentativa de demonstração de que lá por aqueles lados as crianças são génios musicais e que a sociedade é a sociedade que as cria e por isso será tão perfeita quanto o que eles tocam? Só quem for surdo e cego lê isso naquele vídeo, o que não será de espantar nesta sociedade hiper-massiva de controle em que vivemos, e em que os surdos, cegos e mudos abundam sob a figura do consumidor voraz e iletrado.
Mas por cá a diferença não é muita: quando há criancinhas das mesmas idades a cantar fado e a dar chutos na bola com muito jeito do que se trata? Alguns já dão chutos nas barrigas das mães que o pai sonha logo como pontapés afinados na bola e entram para o clube antes da fralda. Em muitos destes casos, os pais, vão as vezes necessárias a Fátima jogar a cartada do milagre e da promessa. A humanidade é amplamente chicoesperta, é um traço globalizado e desde logo globalizado por génese antropológica, essa condição comum fundadora da vida.

fernando mora ramos