sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Acabou-se a gasolina


Cemitério. Mahattan, Nova Iorque

Foto Jota Esse Erre

Hoje o Javali Sentado retira-se

Deu-me muito gozo esta segunda passagem pela blogosfera. Só que há mais vida para além dela e está na hora de sair. Fiz isto com amigos que cultivo há mais de 40 anos e uma amiga mais recente, mas de quem gosto muito. Um muito obrigado também à Annie Coelho, ao João de Azevedo e ao Sérgio Santimano. Por razões pessoais perdi o prazer que tinha nisto.
Vou sentir saudades de ler os postes da Ana Cristina Leonardo, como o que aqui transcrevo e com o qual concordo integralmente:
Qual a diferença entre citar o "Protocolos dos Sábios de Sião" e "O Segredo"?
Bom, é que sendo ambos bullshit. o primeiro contribuiu para reduzir a cinzas uns quantos milhões de pessoas.
Alguém que explique isso ao Jorge Messias do PCP.
Messias?!

Dito isto ainda há tempo para publicar as 2 últimas fotos que tenho em carteira, do Jota Esse Erre e um texto do JSP.
E, para não me alongar muito, mais duas ou três coisas para terminar. Não gosto que me pressionem com “Adeus e até ao meu regresso”. O PCP ensandeceu de vez, o BE é uma mistela de deolindos e amanhãs que nunca vão cantar e, a malta que foi ao pote não tem mundo, nem ideias para Portugal. Pois é, resta o PS. Que se transforme e ajude a refundar a democracia, como apela o companheiro Mário. Citando livremente Knopfli, gosto de minorias de um só se necessário for e estou-me a cagar para a juventude e para a contestação. Poder popular e braço no ar nunca mais. Gostava de ter visto, como o JSP, Sócrates a surfar nas ondas da crise (falo é claro do engº e não daquele que enclausurou a Filosofia).
Vou daqui formoso (a vossa companhia emprestou-me brilho) e não Seguro.

Um Imenso Adeus

Javali vai dormir

Tintim, Chris Patten e o Pastel de Nata (à atenção do Álvaro)

“Desembarquei (ChekLap Kok) às 16 horas…às 17.15 já estava a comer um pastel de nata”. Quem assim confessava, na pretérita semana, orgulhosa e candidamente, a sua loucura por pastéis de nata... era nada mais nada menos do que ( Lord) Chris Patten, o último governador inglês de Hong Kong. Declaração singela, pois, mas foi citada em todos os média da RAE da China.
Pang Fei (Fat Patten) é uma espécie de embaixador informalmente plenipotenciário, espontâneo e voluntário, pro bono e benevolato, de uma das criações mais sublimes do génio culinário lusitano. E volta sempre ao local do crime: Hong Kong, mais precisamente Kowloon. Pouco importa que o trouxessem à ex-colónia britânica os ulteriores papéis de memorialista político, documentarista, enquanto espairecia na Provence, depois na Comissão Europeia, na chancelaria de Oxford ou BBC. First things, first.
Pousar a mala e ala para a confeitaria. Acompanha-o sempre uma pequena multidão que entusiasmadamente entope a circulação para ver Pang Fei a dragar um par de ‘natas’ do fornecedor de eleição. Um pasteleiro chinês, comme il faut.

E pergunta-se porque razões o close encounter com as “portuguese egg tarts”, que deveria ter ocorrido em Lisboa, ou em qualquer um dos milhares de franchisados no espaço português, se concretizaria na China? Ora, isso pouco importa. A questão é, sim, como se explica que, tendo o pastel de nata sido introduzido por portugueses no território de Macau, não encontramos Portugal nesta epopeia do pastel de nata na Ásia? Já os encontrámos, os pastéis de nata, perdão, portuguese egg tarts, para além de HK e Macau, em Osaka, Kyoto, Singapura, Taipé. Anunciados sob o rosto sorridente do seu criador: (Lord) Andrew Stow.

Feita a apresentação. Isto serve para chamar a atenção do Álvaro para as ideias peregrinas do seu colega Portas. Este ficou com a tutela da ‘diplomacia económica’, embora a ideia seja de Martins da Cruz, mas afortunadamente ainda está em fase de estudo. Seja, anda a correr mundo a contar cabeças, e anda a correr as cabeças para contar os novos Oliveira da Figueira. Daí o título Tintim.

Isto é. Doravante, aos nossos diplomatas, hoje em dia limitados aos “pequenos exercícios de representação”, na leitura de Umberto Eco, e não sendo oportuno, justificável, até humano, exigir-lhes, sei lá, produção de “intelligence”, será exigida uma criativa, agressiva, postura Oliveira da Figueira.
Por exemplo, o novo embaixador do governo Steps Rabbit deve trocar o fatito Brioni por um velho Maconde, a senhora triz guardará a carteirita Hermès informal para exibir uma bolsa de cortiça. Se desafiados ao Krug devem responder com Raposeira. Devem aproveitar todas as ocasiões protocolares para tentar vender coisas da nossa terra. Um relógio, uma garrafita de azeite, conservas, software, palitos Lusitanos.

ProntoS. Não podem dizer que nos furtámos ao dever de ajudar a Pátria. Agora, o Javali Sentado vai dormir.

Mas continuamos atentos, por outros meios, e não vamos permitir que destruam o melhor de Portugal. AS forças do mal, os habituais inimigos da democracia, conspiram, conjuram, para desferir o golpe definitivo e mortal na Liberdade. Eles querem matar o Major Alvega.

JSP aka XICONHOCA.COME

Lugar de descanso


Cemitério. Manhattan, Nova Iorque

Foto Jota Esse Erre

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Madrinhas de guerra


Chão de madeira


Nova Iorque

Foto Jota Esse Erre

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo
verdade fulminante que acabas de desentranhar
eu me precipito no caos
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 29 de outubro de 2011


Manifestacão contra George W.Bush. Gotemburgo 14 de Junho de 2001

Foto Sérgio Santimano

Política e futebol

"E se o Governo fosse uma equipa de futebol?

Comecemos então.





Pedro Passos Coelho – Roberto



Começamos com o Primeiro Ministro e um guarda-redes cujo melhor elogio recebido em Portugal foi o de jogar bem com os pés. Pedro Passos Coelho é o Roberto deste plantel: o PM quer acreditar que os milhões de votos que deram por ele são de gente que ainda confia na sua governação; acredita que o mérito do seu trabalho acabará por vir ao de cima, mas até agora notabilizou-se por ir buscar bolas ao fundo da baliza. Acredita que a economia vai crescer 3,5% ao ano, acredita que Portugal não é a Grécia, sabe de fonte segura que as agências de rating vão cair na realidade, assegura que o Pai Natal parte da Lapónia todos os anos, e provavelmente espera que os seus três caniches vivam para sempre.





Vítor Gaspar – Xavi Hernandez



O Ministro das Finanças é o elemento mais cerebral do actual Governo, e aquele que pauta naturalmente o jogo de toda a equipa. Xavi Hernandez, seu paralelo futebolístico, é o pai do tiki-taka, um modelo de jogo que enerva o adversário e acaba por adormecê-lo através de uma eficaz circulação de bola, seguida de movimentos de ruptura absolutamente letais. Já Vítor Gaspar é adepto do hara kiri, um estilo de suicídio que fará deste governo o pior da história da democracia portuguesa.





Paulo Portas – Freddy Adu



Depois de umas habilidades num futebol de outro campeonato, Freddy Adu deu por si em apuros quando o hype sem fundamento o levou a pisar alguns dos relvados mais importantes da Europa, e outros menos honrosos. Com o fim da viagem, viria também o reconhecimento da inaptidão e o retorno do pequeno trota-mundos a casa. Infelizmente para os portugueses, também o Ministro dos Negócios Estrangeiros há-de regressar à base.





José Pedro Aguiar Branco – Jorge Ribeiro



Deve ser difícil chegar ao Bairro da Boavista e ser “o irmão do Maniche”, o que não ganhou uma Liga dos Campeões, foi dispensado do Benfica e é hoje um fiel sucessor de laterais esquerdos como Nelo, Caetano ou Quim Berto. O ministro José Pedro Aguiar Branco, coroado com 3,61% dos votos nas últimas eleições do PSD, encontrou em si o amor fraterno aos colegas de partido para pôr de lado as divergências de base e juntar-se à solução de unidade capaz de tornar o ministério da Defesa numa estrutura que não faça dois gajos virarem-se um para o outro no café e perguntarem: “mas p’ra que é que serve aquela merda?”. Até agora, está a falhar. É o único ministro que tem direito a ser tratado por 4 nomes, até porque não é major nem coronel de coisa nenhuma.





Miguel Macedo – João Moutinho



Se tivesse ardido muita mata no último Verão, seria fácil comparar Miguel Macedo a Mario Balotelli, o mal amado de Manchester que há uns dias atrás chamou os bombeiros a sua casa depois de lhe ter pegado fogo a brincar com pirotecnia. Felizmente, não é esse o caso, portanto fiz-me valer da recente declaração auto-vitimizadora do Ministro da Administração Interna em que este abdica de um estranho subsídio de alojamento (que daria para pagar 3 RSIs ou, no caso do Ministro, cerca de 28 bifes no XL). A forma como "abdicou de um direito" fez lembrar a sequência de contorções faciais que João Moutinho faz quando alguém lhe toca dentro de campo. Primeiro, age como se tivesse uma fractura exposta. A seguir, choraminga junto do árbitro. Coitadinhos.





Paula Teixeira da Cruz - Geraldo Alves



Geraldo, hoje um competente e pacato assalariado do AEK de Atenas, é irmão de Bruno Alves. Formou-se no Benfica e foi em tempos aquilo a que na gíria se chama um sarrafeiro do caraças (Bruno Alves deve muito do que sabe ao seu mano). Para quem não acompanhou o início de carreira de Geraldo, imaginem um centro-campista capaz de guardar dentro de si todas as injustiças do mundo, mas apenas capaz de as resolver com entradas a pés juntos. Foi um pouco assim a chegada de Paula Teixeira da Cruz ao Governo, mas, como Geraldo Alves, também a ministra se tem vindo a acalmar, caminhando vagarosamente para a única reforma que parece estar ao seu alcance: a sua.





Pedro Mota Soares – Franco Baresi



Franco Baresi, lendário jogador italiano, construiu toda a sua carreira jogando a líbero. O que tem isso a ver com Pedro Mota Soares? É tão provável encontrar um líbero no futebol moderno como identificar solidariedade e segurança social no ministério com o mesmo nome. Pedro Mota Soares é portanto o líbero deste governo, ocupante inglório de um cargo que, se o CDS mandasse realmente nisto, faria dele o Ministro do Combate à Preguiça Popular e da FlexInsegurança.





Álvaro Santos Pereira – Paulo Futre


Álvaro e Paulo. Universidade de Vancouver, Escola da Vida do Montijo. Dois homens, dois trajectos, a mesma convicção: vai vir charters, ou, no caso do Álvaro, empregos. Enquanto Futre vive confortavelmente na bolha que é o seu magnífico ego, “o Álvaro” parece uma criança obrigada a participar no teatro da escola. Esqueceu-se das falas, transpira por todos os lados e a coisa já só se endireita se alguém pegar na deixa e continuar a história sem ele.





Assunção Cristas – César Peixoto



Ninguém sabe explicar como é que ambos foram parar a clubes grandes, mas eles lá estão. A César Peixoto podemos gabar, no máximo, o facto de ser o melhor defesa-esquerdo metrossexual do futebol português. Assunção Cristas, por seu lado, ficará para a história por uma irrelevância do mesmo calibre, como mentora de um ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território sem gravatas. Diz-se que Deus está nos detalhes, mas isto, até para alguém religioso como a ministra, é levar o chavão longe demais.





Paulo Macedo – Zlatko Zahovic



Após uma passagem profícua pelo F.C. Porto, o mago Zahovic rendeu-se à economia de mercado e foi até Valência em busca de pesetas. Pouco tempo depois, regressaria a Portugal para abrilhantar o deserto de ideias que era o Benfica daquele tempo. Um pouco como Paulo Macedo, antigo Director Geral dos Impostos, cargo que abandonou em ombros para uma aventura na banca, de onde saiu em Junho para repensar o jogo do Governo na área da saúde. Busca ainda entrosamento, mas tem procurado jogar em futebol directo – directo ao bolso dos utentes do SNS.





Nuno Crato – Madjer



Esqueçam o Madjer do calcanhar de Viena. Refiro-me a outro Madjer, futebolista de praia, o mesmo que há alguns anos atrás estagiou durante 2 dias com o plantel de futebol de onze do Vitória de Guimarães. Desistiu da ideia quando percebeu que o campo era demasiado grande e que não dava para fazer pontapés de bicicleta com a mesma facilidade. O Ministro da Educação e Ciência já esteve mais longe de chegar à mesma conclusão.


O empresário/suplente de luxo/treinador/adepto/guarda abel



Miguel Relvas – Jorge Mendes



O Ministro dos Assuntos Parlamentares não é bem um ministro. Em linguagem moderna, podemos dizer que é um connector. Mas é mais do que isso. É também um fixer, uma espécie de Michael Clayton com menos 10 cms, mais 10 kgs, e muito menos tempo para lidar com questiúnculas éticas. Se fosse futebolista, deixem-me cá ver, seria George Weah, o que partiu o nariz a Jorge Costa, foi suspenso por 6 jogos e recebeu o prémio fair play no fim da mesma época. Como não é futebolista, olhemos para ele como o empreendedor-sombra do actual ciclo governativo. O Governo é a sua Gestifute; o mundo uma complexa rede de relações para gerir. E o resto é conversa – sempre ao telemóvel, conforme se vê.



Entretanto, ocorreu-me comparar Carlos Moedas ao Paulinho das toalhas, mas acho que já chega por hoje."



Vasco Mendonça no Sinusite Crónica

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Há educação para lá do deficit...

ICI (onde o que não falta são posts educativos...)

A Europa

"The story of postwar Europe is deeply inspiring. Out of the ruins of war, Europeans built a system of peace and democracy, constructing along the way societies that, while imperfect — what society isn’t? — are arguably the most decent in human history."
Paul Krugman, Full story >>

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

D.Fuas contra a Europilhagem


O nosso contributor JSP e a senhorita Angelita Merkel entusiasmados com as ideias do ministro Álvaro-Oktoberfest.
foto Iphone 4

Lamentando esta justificável delonga, aqui estamos para saudar o regresso do webmaster Mad Dog Clarence, retido contra à sua vontade na prisão do Crato, e, claro, ajudar à ‘laranjada’.
Por uma vez, juramos respeito à agrura da situação, afinamos pela consistência e demonstraremos seriedade perante o quadro hilariante desta república albanesa, que acelera desregulada e com o depósito na reserva.

Pois. A questão é simples...em política não se deve ter razão antes do tempo. E os portugueses mal chegados à modernidade, e ainda muito formatados à canga caridosa e à mediocridade temperada, não estavam preparados para o golpe de génio, aquele vol fou desafiado por Sócrates.

E que nos propunha o primeiro político verdadeiramente pós-moderno em Portugal? Que fizéssemos surf na onda do endividamento geral, que nos esgueirássemos nos tubes dos défices, e, chegando primeiro à praia do governo económico, primus inter pares, merecêssemos dos pobres e estreitos europeus o devido “tributo”. Deverá ler-se tributo como perdão da dívida, embora não seja um perdão nem exista dívida.

Mas não, não foi assim, vingaram os arreliantes atavismos, o temor, o respeitinho, a parcimónia e outras escatologias. Trocámos o surf genial pelo nosso particular empobrecimento todo-o-terreno. Substituímos Sócrates por Xantipa. E preparamo-nos para cambiar o Euro pelo Morabitino, pelo Escudo, pelo Cruzado, pelo Espadim de Prata. Não chega? Homessa, venham os Reais Pretos, o Centavo de Bronze ou o Chinfrão. Seja o que for que possa ser trocado por Patacos.

Já estamos adivinhando o nosso Gaspar com uma indisfarçada sombra de alegria no austero rosto de gato pingado anunciando, em comunicação ao país, naquela melopeia quasi afásica, lenga-lenga tóxica, a boa nova: Portugueses...cagámos no Euro. Viva o Novo Escudo.
Desconfiada, a massa de ratinhos, interpelará o falso Gaspar: mas isso é dobrão ou sapeca?
Melhor, muito melhor. Esqueçam a nota verde, o iene, o yuan. O Novo Escudo flutuará contra um cabaz de divisas (hard currency) com futuro: Futebol, Fado e Fátima. ALELUIA!

Dispensando-nos de descrever os números do festival financeiro e da inevitável, incontornável recessão económica, paramos para ganhar fôlego e acompanhar a torna das toupeiras a su casa. Su buraco.

Eis senão quando no firmamento rasga-se uma luz brilhante. É um pássaro, é um avião, é um bávaro? Não, é o nosso Álvaro. ALELUIA!


Felizmente, temos o nosso Economista, heterónimo Álvaro. Ouro em Montemor, gás natural em Faro, petróleo em Peniche, platina em Carrazeda de Ansiães, diamantes no Gerês, tungsténio no Vale do Ave, jade na Bobadela, urânio em Poiares, zinco na Cova da Beira, ferro em Alcoutim e algum titânio em Mem Martins. Para não falar dos muitos depósitos de neodímio e lutécio. E montes e montanhas de estrôncio.

Ecco. Parafraseando o nosso amigo Táxi Pluvioso...Portugal, regressado à sua relevância natural, voltará a despertar a inveja do Mundo.

Para o boneco ficar completo e o final ser feliz, falta-nos apenas contratar, para tanta mina, uns milhões de magaíças, easy, dadas as boas relações com as províncias ultramarinas, e para governar esta puteiro...um cafetão e uma cafetina.Bem hajam.

JSP, aka XICONHOCA.COME

A cerejeira


Nova Iorque

Foto Jota Esse Erre

Lament


Chet Baker

quarta-feira, 26 de outubro de 2011


RETRATOS DE CROCODILOS

Pintura de João de Azevedo

Não percebo nem metade mas se é contra o acordo ortográfico é bom com certeza

«Eh Oena, Lhe Can,

Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aqueletocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não ébongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bula bula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é oxitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família.

E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem “autocarro” e está no dicionário; no Brasil falam “bus” e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos “machimbombo” e não está no dicionário. Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com o chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th’xouco dele e aquilo que sai é só matope.

Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.

Bayete Moçambique!

Hambanine

Assina: Manuel Muanamucane

ICI

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Posts sábios (VII) — Quem quer casa ia ao Totta

"Mesmo quando fui deputado pelos Açores e havia ajudas de custo, e, depois se aprovou a adaptação fiscal na RAA que modelou em baixa o IRS, mantive a minha residência em Lisboa, onde moro há mais de 35 anos. Não precisei de guias espirituais para tomar aquelas decisões, sempre sem alarde moralista. Por isso, ao ver os ministros deste governo de principiantes a desistirem de uma subvenção de habitação a que teriam direito fiquei com pior opinião deles do que tinha antes.Porque das duas uma: ou tinham direito a essa subvenção, como outros servidores do Estado que até dependem dessas tutelas, ou nunca tiveram direito e nunca a deviam ter usufruído. Todos votam em Lisboa? Todos pagam os seus impostos em Lisboa?São todos lisboetas, afinal?"

José Medeiros Ferreira, ICI

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Indignação à americana

Anjo caído

O tempo trará outras peripécias
Circos de falsas estalactites iluminantes
Nuvens atreladas que falam
Areias maleáveis dançam no vento corpos imprevistos
Jornais esvoaçando obituários e pássaros ao rés-do-chão debicando lentos nas costas da mão que lhes dá de comer sem voo
Síndrome de asas caídas
Imobilizados no dia da última morada
Armazém de milagres fora de eficácia
E mais um e outro e mais uma queda no rol dos feitos não permitidos
Escritos pela mão de Deus em renúncia de civilizar a criação para além do paraíso inalcançável
- Que necessidade de uma pasmaceira de perfeição
Da parra ou da maçã se em tudo não estivesse o bicho que torce o pepino de quem o tem sendo menino -
Esses anjos de encerrada solidão
Habitam outros tantos altares excluídos das normas da talha dourada oficializada por bula em fumos brancos de santidade coxa
O bicho da madeira no seu lento labor secular tece nas icónicas formas populares labirintos de subversão
Proletarizados petrificando asas no beco da sorte malvada
Os olhos rugas
Pousados no silêncio
Cegos
Por fora do tempo que não os toca na aparência
Apesar do bicho da madeira gazua lenta
A carne não os atormenta
O cristalino de tinta embaciada desmaia
A menina do olho na última idade
A ferrugem lenta
Azula e pela pouca roupa pintada
Cirandam uns dourados em despedida memória

Emílio Navarro Soler

Gente de bem!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011


Henning Mankell um velho amigo do Sérgio, visita a sua exposicão fotográfica, na feira do livro (bokmässan) em Gotemburgo que encerrou recentemente.

Foto Sérgio Santimano

A exposicão sobre os escritores de África está on line aqui

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tout va très bien, Madame la Marquise



Allô allô James, quelles nouvelles
Absente depuis quinze jours
Au bout du fil, je vous appelle
Que trouverai-je à mon retour?

Tout va très bien, Madame la Marquise
Tout va très bien, tout va très bien
Pourtant il faut, il faut que l'on vous dise
On déplore un tout petit rien
Un incident, une bêtise
La mort de votre jument grise
Mais à part ça Madame la Marquise
Tout va très bien tout va très bien

Allô allô Martin quelle nouvelle
Ma jument grise morte aujourd'hui
Expliquez-moi cocher fidèle
Comment cela s'est-il produit?

Cela n'est rien, Madame la Marquise
Cela n'est rien, tout va très bien
Pourtant il faut, il faut que l'on vous dise
On déplore un tout petit rien
Elle a péri dans l'incendie qui détruisit vos écuries
Mais à part ça, Madame la Marquise
Tout va très bien tout va très bien

Allô allô Pascal quelle nouvelle
Mes écuries ont donc brûlé?
Expliquez-moi mon chef modèle
Comment cela s'est il passé?

Cela n'est rien, Madame la Marquise
Cela n'est rien, tout va très bien
Pourtant il faut, il faut que l'on vous dise
On déplore un tout petit rien
Si l'écurie brûla Madame c'est que le château était en flammes
Mais à part ça Madame la Marquise
Tout va très bien tout va très bien

Allô allô Lucas quelle nouvelle
Notre château est donc détruit?
Expliquez-moi car je chancelle
Comment cela s'est il produit?

Eh! bien voilà Madame la Marquise
Apprenant qu'il était ruiné
À peine fut-il revenu de sa surprise
Que Monsieur le Marquis s'est suicidé

Et c'est en ramassant la pelle
Qu'il renversa toutes les chandelles
Mettant le feu à tout le château
Qui se consuma de bas en haut
Le vent soufflant sur l'incendie
Le propagea sur l'écurie
Et c'est ainsi qu'en un moment
On vit périr votre jument

Mais à part ça Madame la Marquise
Tout va très bien, tout va très bien

Ouvido ICI

La jeunesse emmerde le front national


Origem do mundo mais antiga 2. 1993

Pintura João de Azevedo

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Estado a que isto chegou....

Edifício Chrysler


Nova Iorque

Foto Jota Esse Erre

Para desenjoar, poetemos

AH, DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR

Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden, in "Diz-me a verdade acerca do amor" relógio d'água, 1994, trad. Maria de Lourdes Guimarães

[copy/paste Daqui]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O orçamento e a democracia

É extraordinário como se possam fazer afirmações como esta. O orçamento é meu é como dizer: eu ponho as contas do país em dia, eu sei, eu posso porque quero e mando, como se a economia fosse uma aritmética de crianças, coisa de somar e diminuir, de resolver com soluções caseiras – como a mãe fazia, ou o pai, lá em casa, o amado pilim debaixo da almofada no tempo de Salazar, esse génio das finanças, ou de Caetano, esse autor de primaveras - numa operação que encontraria no deve e haver o seu território. Se não fosse de espantar pela ingenuidade e basismo voluntarista seria certamente de remeter para a bruxaria ou outra ordem de resposta do domínio surreal, oculto ou mesmo extraterrestre, na suposição de que o “é meu” teria dentro magicamente um segredo íntimo, a fórmula única, tal como a receita dos célebres pastéis de nata, ainda hoje no segredo não dos deuses mas do doceiro de Belém. O Primeiro-ministro, no caso, terá certamente uma fórmula incógnita, uma macumba específica, mais ou menos transe e suor empenhados na dança orçamental.
A propriedade do orçamento que o gesto indica, o “é meu”, finta ou tenta fintar uma realidade bem mais complexa do que a afirmação inclui. Não, o orçamento não só não é dele, Primeiro-ministro, mas nem sequer é de todos nós, o país. O orçamente é mesmo deles, dos que credores de voracidade lucrativa ilimitada, exigem que se lhes pague – as agências que para eles trabalham têm a claríssima missão da chantagem e da desestruturação da componente pública das economias – no tempo e nos prazos que a tal troika também sua representante exige e que o governo, mais que a troika, agrava do ponto de vista do que é, a cair na conta dos especuladores “amigos”, o resultado do aperto austero sobre o sector público e a população em geral através dos impostos extraordinários, directos e indirectos, para que estes capitalizem de novo o que “emprestaram” com juros assassinos e de novo “emprestem” a novos juros galopantes e condições ainda mais especulativos e que são, sem margem para dúvidas, de um ponto de vista ético – humano – usura mesmo criminosa, dados os efeitos destruidores à vista de todos, da democracia e das instituições. A metáfora do bebé que vai na água do banho não é demais e poderíamos juntar ao bebe a mãe e o pai, família jovem inteirinha.
Se esta golpada orçamental não é típica de uma espécie de jogada de poker em que o jogador governo aproveita o facto de o adversário, a população portuguesa, não ter trunfos, nem sequer as mesmas cartas para jogar o mesmo jogo, para lhe impor através da austeridade salvífica como se os portugueses fossem apenas uma variável orçamental, uma derrota em todo o terreno, não se percebe de facto o que é, tal é o afã destruidor que as medidas comportam – se é esta a forma de relançar a economia então é preferível decretar já a conversão do país a uma única e generalizada sopa dos pobres, assumindo-se também um novo hino nacional, qualquer coisa sobre a heroicidade das propriedades vitamínicas e proteicas do rabanete que nos alimentará a todos mais loas entoadas aos credores em refrãos de cumprimento da dívida ao preço da própria morte, com o Egas Moniz em fundo de corda no pescoço mas agora além da corda com o cinto tão apertado que a cintura se fosse.
É a economia de casino, é um ataque deliberado ao sector público e ao bem público, é um comportamento de governo testa de ferro desses sectores financeiros especulativos que vêm destruindo as democracias e as conquistas civilizacionais que a Revolução Francesa inaugurou e o mais recente pós guerra relançou. O governo é uma empresa de destruição da democracia, mais até do que uma empresa de cobrança de dívidas, pois cobra a quem não deve. Essa história de que teremos vivido todos, uma espécie de pecado comum português, acima das posses, é injusta e ignóbil, não é verdadeira e que todos paguem por alguns é roubar quem não pecou. Necessitamos de partidos Robin Hood, essa é que é a verdade, que construam mais nova vida real que oposição parlamentar e acções de rua previsíveis.
Não é esta a via porque esta não trará nenhum tipo de crescimento económico, nem nenhuma nova vida possível e pelo contrário trará uma nova e vergonhosa pobreza salazarenta, num tipo de evolução destrutiva da democracia, das liberdades e das condições mínimas de vida digna das populações. Cortar os salários dos funcionários com mais de mil euros mês – e mil euros é várias vezes menos que as mesmas profissões por essa Europa – é um roubo. Estes senhores não têm o direito de entrar assim na casa dos outros. Entrem na própria e naquela daqueles que representam e encontrarão soluções. O dinheiro existe e está aí, é uma questão de o ir buscar justamente ao que foi especulado, à riqueza privada que se encheu de dinheiros públicos, aos offshores e a toda essa economia corrupta e criminosa, ilegal. Não é por acaso que aqueles que investem nesses tais paraísos fiscais têm o nome resguardado pelo segredo conivente de uma legalidade lacaia que os protege. A democracia não pode conviver com aqueles que a destroem e isso não é apenas um problema de crime político, é também um problema de crime económico. Quando a legislação protege os bandidos desta forma isso significa que o legislador também é suspeito. É necessária urgentemente uma nova ordem mundial. Aqueles que supostamente estão legitimados pelo voto estão exactamente como outros a destruir aquilo que foi conquistado com essa legitimidade nascida em ABRIL, a democracia, agora realmente ameaçada de morte pelo capitalismo da especulação financeira.

fernando mora ramos

Ocua. Eis a minha tenda a 150 metros do rio Luro, com um hipopótamo residente e muitos crocodilos.
Cabo Delgado. Moçambique. 2011

Foto Sérgio Santimano

EDP: Fiat Lux mas ao contrário

Notícia de última hora do Imprensa Falsa: Cliente preparava-se para dizer mal da EDP no Facebook quando, de repente, ficou sem luz

João Relé estava a escrever na página do Facebook da EDP “estou ligeiramente desapontado com os vossos preços”, quando ficou sem luz.

«Ia justamente carregar no ‘enter’ quando foi tudo ao ar. Liguei para a EDP e disseram-me que o problema já estava a ser resolvido, mas também me disseram “agora veja lá o que escreve porque às vezes o curto-circuito está aí”», explica Relé, que não quer falar mais no assunto por temer represálias que possam danificar os electrodomésticos.

Segundo o Imprensa Falsa conseguiu apurar, o caso de Relé não é único. Há muitos clientes que ficaram sem luz justamente no momento em que iam publicar uma crítica à empresa. Tanto que a última publicação crítica que se pode ler na página da EDP no Facebook é «a vossa política de barragens mete nojo... ah ah... ursos, podem voltar a ligar a luz que eu estou no portátil».

No entanto, tanto este cliente como o seu portátil desapareceram pouco depois de publicarem esta mensagem. O jovem estava ao telefone com a namorada, disse-lhe que estavam a bater à porta para fazer a leitura da luz, e nunca mais apareceu. «Eu estranhei que lhe fossem contar a luz às duas da madrugada, mas agora quer tudo fazer horas extraordinárias...», desabafa Célia Cobre, ainda em choque.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Suite 605

"O Silva das vacas"


"Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:
"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam
tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."
Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção. Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria "gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo "sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano! Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente "ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito. A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr. Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente."
Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.

Os mulas da Corporativa

Os corporativos (ICI) descobriram que o Passos Coelho "é um sujeito ignorante e a dar para o estúpido – o que não é de admirar no titular de uma licenciatura manhosa tirada tardiamente, e à pressa, numa universidade manhosa".
Parece que a história se repete mas da primeira vez os citados estavam em retiro socrático.

domingo, 16 de outubro de 2011

Posts sábios (VII) — A Manifestação (II)

O interessante, diria mesmo muito interessante, no ‘movimento’ [agora global], e que o diferencia de todos os outros até hoje é, com excepção de meia dúzia de radicais infiltrados e saudosistas de um tempo que nunca viveram e do qual falam de cor, a aceitação de jogar o jogo dentro das regras do sistema capitalista, com uma única exigência, uma exigência tamanho do mundo, uma redistribuição justa da riqueza e o repúdio total da financiarização. E isto é algo de completamente novo. The Times They Are A-Changin'.

Nada de mais falso quando os paineleiros, comentadores e fazedores de opinião nos jornais e televisões, dizem que é uma massa anónima sem uma proposta concreta. Também eles são de outro tempo, do tempo dos bons e dos maus, do comunismo e do capitalismo, da exploração do homem pelo homem e do controlo operário e, naturalmente, andam completamente à nora com a velocidade vertiginosa do processo e com a ausência de uma liderança com quem dialogar e a quem apontar o dedo. Do it yourself, recuperado dos idos de 1977.

Curioso, ou nem por isso, terem sido os comunistas os primeiros a perceber a especificidade e as diferenças do ‘movimento’ e, malgré as participações espontâneas de militantes nas manifs, o PCP se ter oficiosamente demarcado através da convocação de uma manif própria para 3 dias depois. Os comunistas, apesar de integrados no sistema parlamentar, recusam o sistema capitalista e sobretudo as movimentações de massas que lhes escapam ao controlo.

ICI

Posts sábios (VII) — À Manifestação (I)

Vamos para ser contados. Vamos para que os Serviços secretos da Ongoing nos fotografem e mais tarde possam dizer de nós: Aquele é perigoso. Aquela também.
Vamos para o sector dos cães raivosos. Que se lixem os indignados. Os indignados acreditaram em alguma coisa. Nós nunca acreditámos. Nós estamos fora do esforço nacional.
Se não houver sector dos cães raivosos, nós seremos os cães raivosos.
Não parecemos raivosos porque a raiva tolhe o discernimento e nós queremos estar calmos e atentos.
Para hoje sermos contados e cuspidos. Por ti, Macedo, que deixaste à torreira do meio dia uma camarada da GNR, até ela cair vítima da insolação enquanto comias ao ar condicionado de um restaurante dos latifúndios. Por ti, Fernandes, seboso entre os sebosos.
Calmos e lúcidos. Para hoje sermos cuspidos e para amanhã vos derrotarmos.
Luís Januário (ICI)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Posts sábios (VI)

(...) Espantoso é também que ninguém fale da Irlanda. Não falam em Bruxelas nem em Berlim os patrões do dinheiro, não falam os jornalistas nos jornais nem nas televisões, apesar de o défice da Irlanda ser o dobro do da Grécia - mais de 32%. E de a dívida ser também colossal para utilizar uma expressão tão cara aos nossos governantes.
A razão é muito simples: é que o défice da Irlanda foi contraído para salvar os bancos em consequência da “borbulha” imobiliária - uma constante da cultura neoliberal - que só se tornou um “pecado” porque rebentou. É essa sua génese que quase o torna virtuoso para a gente de Bruxelas e de Berlim, não obstante o seu extraordinário montante.
Verdadeiramente, o que eles reprovam, o que eles invejam, é o estilo de vida dos gregos. O sol, as praias, as esplanadas, as ilhas, aquela convivência serena com os deuses. O que eles não aceitam é que os próprios deuses tenham sido criados à imagem e semelhança dos homens. Sem imperativos categóricos nem máximas calvinistas. Sem verdades absolutas em nome das quais se combate a religião do outro, se discrimina, se extermina até, se necessário for. É isso que os bárbaros não aceitam. Viva a Grécia!
ICI

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Coisas do outro mundo

Depois dos seis mil milhões de dívidas vivas e a rabear descobertas nas contas de Alberto João Jardim, alguém se pôs, de novo a mando da "troika", a espiolhar a base de dados da Administração Central do Sistema de Saúde e deu com 500 médicos mortos, alguns dos quais, segundo noticiou o "Público", continuam a passar receitas.

A notícia é omissa quanto ao facto de os falecidos continuarem ou não a receber salário, embora seja admissível, tratando-se de mortos, que trabalhem só para aquecer.

Cadáveres adiados que procriam receitas é cousa de grande assombração, sobretudo num país onde tantos mortos se sentam quietamente há anos nas bancadas do Parlamento e em gabinetes ministeriais e institutos sem procriar nada que se veja a não ser despesa pública.

E atestados médicos, continuarão os saudosos extintos a atestar que Fulano e Sicrano "se encontram doentes e impossibilitados de exercer as suas funções"? E certidões de óbito, próprias e alheias?

O estranho caso dos médicos que exercem na tumba põe complexas questões metafísicas, para além da da vida profissional depois da vida. Uma delas é a existência de farmácias com comércio com o Além que aviam receitas passadas por fantasmas, certificadas com vinhetas que seria suposto vigorarem no Aquém, a almas penadas que, cheias de olheiras, se materializam às horas mortas das noites de serviço permanente para comprar comprimidos para o sono eterno.
ICI

Uma gaivota voava, voava/ asas de vento/ coração de mar...

domingo, 2 de outubro de 2011

Os decanos do bloco central no poder: tudo boa gente!


Francisco Soares Mesquita Machado, membro do PS e presidente da Câmara de Braga há 35 anos.


Alberto João Jardim, membro do PSD e presidente do Governo Regional da Madeira há 33 anos.

sábado, 1 de outubro de 2011

A Secretaria de Polícias, perdão, Políticas para as Mulheres não gosta da Gisele Bundchen!

No Brasil, uma série de quatro anúncios a uma marca de lingerie protagonizados pela modelo Gisele Bundchen foi considerada discriminatória e ofensiva dos direitos das mulheres consagrados na Constituição do país.
A bolorenta conversa da mulher-objecto voltou a animar as hostes moralistas.
No caso, não cremos que a tentativa de censura por parte da tal de Secretaria tenha alguma coisa que ver com estas sábias palavras de Mae West: "I believe in censorship. I made a fortune out of it".

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ataques informáticos

Serve o presente para esclarecer que o blogue Meditação na Pastelaria não teve nada que ver com a confusão que se terá registado por aqui, a qual foi notada não só pelo Administrador em retiro monástico mas também por ex-comentadora mais atenta.
Rejubilando, sensibilizados pela firme vigilância, aconselhamos todos aqueles que se sentiram lesados a queixarem-se ao Google.

Missing people


ICI

terça-feira, 27 de setembro de 2011

C'est la vie

Mudar de vida



Pois é. O que tem de ser tem muita força. Depois de tudo o que passou, um ataque informático, penso que já debelado, levou o meu amigo Administrador ao desespero. Vai mudar. Para já vida monástica com volta lá para o fim de Outubro.

sábado, 24 de setembro de 2011

A via única

Este é um país estranho, de posições definitivas um dia e matizadas no seguinte, de rigidismos inamovíveis à terça e de flutuações e ambivalências à sexta, de uns a dizer assim e outros da mesma laia partidária a dizer assado no mesmo telejornal, tudo sob a pressão constante do poder dos interesses em que os agentes dos interesses, empresas e governantes, estão directa e indirectamente envolvidos. A teia urdida de imbricações entre o privado e o público que alastrou com a “economia da democracia”, e que se materializou por esse ascender de uns tantos – as mesmas e novas famílias de poder ligadas a partidos – ao controle dos dinheiros, aos negócios europeus, às possibilidades negociais criadas pela globalização e pelos caminhos ilícitos dos offshores, detém o poder, isto é, detém o poder que sobra do nosso quadro de dependências em contexto europeu e global e jogam-nos de um modo que pouco atende às necessidades nacionais, entendidas estas numa lógica relacional, não fechada.
O caminho da decisão – declarada repetidamente como a mesma até à exaustão como no TGV - vai numa direcção única até que, no tempo do que a memória curta praticada e estimulada pela política do espectáculo motiva, e cento e oitenta graus posicionais depois, assumidos agora sem empolgamento definitivos, estamos no exacto oposto e a deslizar para o mesmo tipo de tensão autoritária na exposição da decisão contrária. É o que agora sucede com o TGV e a ver vamos como, pois rapidamente se instalará, com a clarividência que normalmente resulta do debate à moda portuguesa, a confusão necessária a que as coisas aconteçam num quadro em que a perda de contornos do que se diz vá engrossando uma amálgama ideológica de que resulta justamente a opacificação das realidades específicas, dos processos e das decisões – estas tomam-se à mesma no momento justamente em que a confusão atinge o auge.
Não acreditaria possível se a isto não assistisse: para salvar a face do Primeiro-Ministro e do partido de poder face à decisão europeia anterior subscrita empenhadamente pelo Engenheiro Sócrates, a negociação em torno do TGV ruma agora, em sentido contrário ao da promessa eleitoral, para a concretização de mais uma originalidade portuguesa, a de que vamos ter um TGV em via única, do Caia ao Poceirão e de via dupla, para cruzamentos, entre Évora e Vendas Novas.
Um TGV de via única é de facto uma ideia peregrina e permitirá que os nossos horários de ingresso na Europa via grande velocidade percam a velocidade que se perderá pelo facto de só haver cruzamento durante aquelas dezenas de quilómetros que vão de Évora a Vendas Novas – será a tal Europa a duas velocidades de que se fala literalmente realizada, a metáfora tornada corpo ( a duas?)
Um comboio de alta velocidade parte de Lisboa a contar cruzar-se com outro nesse troço da linha entre Évora e Vendas Novas e calculando tudo para que seja assim, impedindo um regime específico de horário livre caso fossem construídas, como será lógico, as duas linhas autónomas. Não é por acaso que nestas coisas, nos países da Europa, se pratica a política das duas linhas, uma ascendente e outra descendente. É elementar a compreensão desta necessidade e fica claro, com uma decisão deste tipo que o efeito específico da crise, a política da crise, é o aprofundamento do nosso afastamento da Europa no mesmo momento em que a Europa também se afasta do que era e foi – é como se neste processo de integração praticássemos uma política do afastamento constante das metas europeias para a nossa própria vida pela via da suposta integração e que, com isso, na realidade, materializássemos a desintegração europeia. O esboço de integração motivado apenas pelo euro, como agora todos dizem, está longe de uma livre, maturada e necessária integração política, outro patamar de compromissos entre nações democráticas e solidárias – como se isso contasse para o que quer que fosse mais do que para alardeá-lo numa afirmação dos princípios sempre quebrada pelos pragmatismos servis.
É de facto uma estranha metáfora, a via única e cola com a da dívida, também vítima, do lado da solução da sua superação, de um olhar governativo que a reduz a uma via única, a dos cortes que trarão a regressão económica e não o crescimento e o aprofundamento democrático. Tudo se faz e inventa para que a redução do défice aconteça em nome de uns números que são completamente artificiais e se relacionam com empréstimos, com juros e especuladores, como sabemos e não com a produção de riqueza que liberta o crescimento e a autonomia de decisão. Somos um país doente de dependência e de servilismo. Esta da via-férrea única para o nosso TGV como metáfora do nosso modo de entrar na Europa, saindo dela, cobre-nos de um ridículo incomparável.

fernando mora ramos

Manu Chao


Les Wampas


Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'a Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'a Paques

C'est beau la Normandie comme le dit maman tante Marie
C'est beau la Normandie comme le dit maman tante Marie
Mais si j'avais du blé je partirais bien loin d'ici
Mais si j'avais du blé je partirais bien loin d'ici
Souvent les soirs d'été
Souvent les soirs d'été
J'm'assois dans les champs de blé
J'm'assois dans les champs de blé
Je ferme doucement les yeux
Je ferme doucement les yeux
Et j'écoute les pommiers chanter
Et j'écoute les pommiers chanter

Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques (Ouhh)
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques (Ouhh)

Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances dans une super moto
J'partirais en vacances dans une super moto
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques

Moi aussi si j'pouvais
Moi aussi si j'pouvais
J'irais bien jusqu'au Maexique
J'irais bien jusqu'au Maexique
Boire de la Tequila avec le Commandant Marcos
Boire de la Tequila avec le Commandant Marcos
Mais j'ai encore au moins
Mais j'ai encore au moins
5 hectares a labourer
5 hectares a labourer
J'remonte sur mon tracteur
J'remonte sur mon tracteur
Et j'chante pour m'donner du coeur
Et j'chante pour m'donner du coeur

Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques

Mais j'ai pas un beau chapeau comme Manu Chao
Mais j'ai pas un beau chapeau comme Manu Chao
Et j'irais en vacances seulement à St Lô
Et j'irais en vacances seulement à St Lô
Et j'ai pas de la classe comme comme Didier Wampas
Et j'ai pas de la classe comme comme Didier Wampas
J'resterais pour les vacances tout seul avec mes vaches
J'resterais pour les vacances tout seul avec mes vaches

Si j'avais l'portefeuille de Manu chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu chao
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
Si j'avais l'compte en banque la Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque la Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A ilha

Qual era afinal o petróleo da Madeira? A dívida oculta. De dívida em dívida não só se faz a obra e o espectáculo do “desenvolvimento constante”, estradas e túneis como no Continente, como se enche o papo – só a catástrofe recente, com as revelações que a natureza destapou, pôs a nu erros crassos de urbanismo, com o modo como a água, descendo as montanhas, foi empurrada para onde nunca iria pelas vias naturais, como o afirmaram os especialistas ao explicar como nas linhas de água se construía sem regra.
Esta dívida que agora se revela, entre muitas ocultações anteriores mais ou menos conhecidas, é o sinal de um conúbio estabelecido entre os poderes no continente e o poder na ilha, e existe como que uma prática aceite de facto por tradição consuetudinária pelos governos centrais que nunca agiram e que o devedor diz, para legitimar o ilegitimável, ter cometido em legítima defesa, como se o diálogo político fosse um duelo entre pistoleiros – a frase é esclarecedora e remete para inflamadas (FLAMA, assim se chama a estrutura guerrilheira de direita que exerce um poder oculto na ilha) ameaças anteriores de independência avulsas, ouvidas repetidamente na ribalta da política nacional quando o poder insular necessita da chantagem como forma de acção directa, a que nunca faltou um arreganhar armado dos dentes de fora. É gente que se exalta, e cospe agressões de teor soez numa linguagem inaceitável, quando lhe tocam no que, sendo público, gerem como propriedade privada. A Madeira é uma Região Autónoma gerida como um latifúndio privado, desde Abril. Quando se diz que na Região Autónoma da Madeira há um défice de democracia incorre-se numa imprecisão de consequências incontroláveis. Há défice no continente, isso sim, com a ausência de acção do poder judicial e com a promiscuidade entre os poderes e não há sequer democracia na Madeira, nuca houve, Abril nunca lá aportou. A democracia é o bem-estar geral como projecto em processo real e a liberdade de opinião e organização associados a formas de solidariedade coerentes, factores de coesão e estas qualidades da liberdade e do desenvolvimento real não são, na Madeira, factos de um quotidiano interiorizáveis – ninguém que lá vive sente democracia e todos falam de medo, excepto os que o fabricam.
Na Madeira, o folclore do poder de Estado agindo e a impotência das oposições parlamentares, de verdadeiro vão de escada organizacional, mostram como uma pequena região pode viver à margem dos princípios gerais de vida democrática e da coesão nacional. Quando a generalidade do emprego das pessoas depende do Estado Regional – só gorduras como diria o outro, se quiséssemos ironizar – e quando a liberdade de opinião não tem espaço e só se faz ler e ouvir em actos de coragem e resistência, estamos num regime que não tem nada de democrático e tudo tem do velho paternalismo cacique. Todos têm medo do desemprego e todos têm medo de expressar opinião divergente porque temem represálias, estamos cansados de o ouvir. No resto do latifúndio reina o casino e o folclore carnavalesco mais os fogos de artifício de novo ano velho.
Em qualquer democracia a revelação, e o assumir directo após a negação – o ziguezague de posições caracteriza a inconsistência da política e a consistência dos interesses, ou melhor a sua sobreposição como A política seguida - da ocultação de uma dívida, valor essencial para efeito de contas, locais e nacionais, levaria a medidas de punição que são as que derivam do lesar dos interesses do Estado. Uma dívida de 1113 milhões de euros assumida directamente pelo Presidente do Governo Regional levaria eventualmente, na base da lei 41/2010 sobre crimes cometidos por detentores de cargos públicos, a uma pena de prisão de até um ano.
O que se vai passar? Mais uma vez vamos assistir a um deixar andar do que é nitidamente crime de colarinho branco no topo da hierarquia do Estado? O Estado protege os seus para além de todos os limites? É-se inimputável por se pertencer ao Estado, ao poder? Este processo de análise anunciado pelo PGR só dá vontade de chorar. Mais um processo que vai levar não se sabe quanto tempo e que não vai concluir nada ou que vai esperar que o tempo resolva de modo injusto o que a justiça deveria julgar punindo. Este é um país sem rei nem roque. Este é um país que está a hipotecar o seu futuro concedendo aos poderes de facto espaços de manobra em tudo contrários aos princípios da democracia e à lei. É de facto altura para falar da necessidade de um sobressalto democrático. Se Abril se fez, outro Abril será possível.

fernando mora ramos

Saída de cena



Cesaria Évora retira-se. Quem não a viu ao vivo, não sabe o que perdeu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Posts sábios (V)

Já perdi a conta à quantidade de vezes que oiço falar de "revolução silenciosa" para procurar desculpar o facto de não se estar a fazer nada de relevante ou o que se está a fazer não estar a produzir o efeito desejado.

Mariano Gago dizia que estava a fazer uma revolução silenciosa na Ciência e nas Universidades.

O programa Novas Oportunidades foi também qualificado como uma revolução silenciosa.

O programa de distribuição de frutas e legumes nas escolas também foi considerado uma revolução silenciosa.

A ida de Paulo Bento para treinador da selecção nacional foi igualmente vista como uma revolução silenciosa.

Também a antiga Ministra do Ambiente Dulce Pássaro dizia que tinha havido uma revolução silenciosa na distribuição de águas.

A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados foi também vista como uma revolução silenciosa ao serviço dos idosos.

Alguém deu por todas estas gigantescas revoluções?

Não querendo desmerecer a tradição das revoluções silenciosas em Portugal, vem agora Carlos Moedas dizer que o Governo está a fazer também a sua revolução silenciosa de que os portugueses infelizmente não se conseguem aperceber.

Imagine-se onde é que está a revolução silenciosa: numa futura revisão da Lei da Concorrência, que ainda ninguém viu, e numa reforma muito limitada do Código da Insolvência, já justamente apelidada como uma via verde para a insolvência. Neste último caso, duvido que a revolução seja silenciosa, pois, se alguma coisa que dificlmente será vista em silêncio será o multiplicar das insolvências em Portugal.

Era bom que acabasse este hábito de chamar "revolução silenciosa" a tudo e mais alguma coisa. A única revolução de que me lembro de ter assistido neste país ocorreu há 37 anos. E garanto que na altura toda a gente deu por ela.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Coisas de que o Javali não gosta: reuniões em geral e algumas em particular

Se o Alexandre me quiser dar uma mão...

"Estamos falidos e quando se está falido, está-se falido. Não vale a pena andar-se a discutir. A única coisa a fazer, todos em conjunto, é não assistir a este espectáculo triste de nos estarmos sempre a queixar na televisão, mas darmos as mãos e recuperarmos o país a trabalhar", argumentou hoje Alexandre Soares dos Santos durante uma conferência promovida pela AEP, em Lisboa.
ICI

Imigrantes


Pequeno cemitério perto de "China Town". Nova Iorque

Foto JOTA ESSE ERRE

domingo, 18 de setembro de 2011

Gigantes em era de cortes

As mamas ultrapassam qualquer sistema de calibragem dentro da lógica sutiã, as unhas têm seis metros e a língua 9,75 centímetros. Onde é que isto se passa? Na América. Onde é que isto é notícia: no mundo. A senhora das mamas, exposta num jornal de referência entre um artigo de fundo e uma boutade, exibia as suas montanhas em queda numa foto que ainda continha, por cima da omnipresença glandular, um sorriso que posava para celebridade instante, que não seria exactamente o mesmo sorriso da pessoa que de seguida teria de as transportar para outro pouso que não o da pose. Esse sorriso algo lhe valeu, o tamanho das mamas não rendendo já pela extravagância e exotismo como no século dezanove/vinte rendia dando lugar a estatuto circense – entre nós o caso do gigante de Manjacaze é de tempo mais recente, o nosso arcaísmo prolongou-se e não morreu - rende certamente pela cadeia que vai da notícia a uma publicidade qualquer que, se não se localizar na matéria alvo, pode certamente, ancorada nela, partir para uma outra área, a dos monta-cargas, ou outra área afim, visto que a dos sutiãs é óbvia, haja tecido. A senhora, cujo sorriso espreitava entre seios, duas meninas do olho ao longe e aquele tom marfim que brilha, lucrou com a fama, ou lucrará, o que eventualmente nenhuma fortuna pagará já que será definitivamente - um destino difícil - a das maiores mamas do mundo, mentira óbvia pois a globalização só globaliza o que lhe convém e nós sabemos que se o Entroncamento fosse perto de Nova Iorque as abencerragens leguminosas que aí ocorrem teriam fama galáctica. Além disso, sabe-se lá se num recanto esquecido do Cáucaso não haverá entre campeões da ancianidade uma criatura de mamas tão ou mais vastas que a agora celebrada.
Mas, a cartola das novidades está fértil, e em dia imediato surge a senhora com as maiores unhas do mundo, também num jornal de referência. Esta senhora exibia umas unhas em cornucópia e um mesmo sorriso a publicitar. O caso é no entanto diferente e mostra militância: tinha lutado por isso, o que não era o caso da senhora mamuda, pois a esta acontecera-lhe, desígnio dos deuses. E lá estava, a unhuda, no meio de um passeio de metrópole americana em danças inesperadas com as mãos e obviamente num êxtase de felicidade que extravasava a foto e nos contagiava, leitores incautos de surpresas, sabe-se lá se definitivas até para curar neuroses: quem muito concentradamente passar os anos necessários a ver crescer as unhas até seis metros – em dedicação exclusiva – ganhará por certo os céus da tranquilidade pessoal.
E a coisa não pára, já ontem surgiu a senhora da maior língua do mundo: nove vírgula setenta e cinco centímetros, também num jornal de referência, suponho que o mesmo diário de notícias aliás. O caso aqui muda de figura pois faz sonhar qualquer perverso moderado e aos imoderados cavalgar sensualismos sem cautelas. Se no mar das mamas da primeira senhora se poderia perder o pé, e se as unhas da segunda poderão estimular masoquistas, perder-se-á certamente a cabeça com um beijo a fundo da senhora linguuda – linguaruda é outra coisa. Nove vírgula setenta e cinco centímetros em riste ou mesmo em nó, língua dobrada, é para respeitar. Dadas as zonas de aplicação das suas virtudes específicas poderemos até pensar que é arma branca, letal e que é quase ideal para várias formas de asfixia. Eu vi a língua e sei o que senti, um arrepio não na espinha mas nas orelhas. Caía pelo queixo abaixo e este desaparecia formando-se uma estranha máscara, tudo era língua.
Não faço ideia da razão da proliferação de tais jóias noticiosas. Dado o peso do que no mundo é tragédia constante – e não era, a este ritmo – provavelmente o editor das graçolas está a ganhar espaço no acesso ao espaço noticioso. Corre-se, claro, o risco de fazer da referência jornalística o seu contrário, a referência para voyeur se estimular, não é por acaso que são todas senhoras e, sabe-se lá porquê, americanas, de onde vem a imaginação que importamos e onde tudo acontece.
O que é lamentável é que este governo que sabe que as exportações são o segredo da recuperação económica, ao extinguir um teatro nacionalzito não tenha criado um Instituto das Abencerragens Transaccionáveis no Espaço Virtual. Poderia começar por um levantamento das potencialidades das batatas do Entroncamento como Indústria Criativa – fértil também em tudo o que é legumes maiores para além da medida – e poderia em seguida exportar as nossas extraordinárias singularidades maiores, o Dr. Alberto João por certo.

fernando mora ramos

Coisas de que o javali não gosta: alcoviteiras