
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Ataques informáticos
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Mudar de vida
Pois é. O que tem de ser tem muita força. Depois de tudo o que passou, um ataque informático, penso que já debelado, levou o meu amigo Administrador ao desespero. Vai mudar. Para já vida monástica com volta lá para o fim de Outubro.
sábado, 24 de setembro de 2011
A via única
O caminho da decisão – declarada repetidamente como a mesma até à exaustão como no TGV - vai numa direcção única até que, no tempo do que a memória curta praticada e estimulada pela política do espectáculo motiva, e cento e oitenta graus posicionais depois, assumidos agora sem empolgamento definitivos, estamos no exacto oposto e a deslizar para o mesmo tipo de tensão autoritária na exposição da decisão contrária. É o que agora sucede com o TGV e a ver vamos como, pois rapidamente se instalará, com a clarividência que normalmente resulta do debate à moda portuguesa, a confusão necessária a que as coisas aconteçam num quadro em que a perda de contornos do que se diz vá engrossando uma amálgama ideológica de que resulta justamente a opacificação das realidades específicas, dos processos e das decisões – estas tomam-se à mesma no momento justamente em que a confusão atinge o auge.
Não acreditaria possível se a isto não assistisse: para salvar a face do Primeiro-Ministro e do partido de poder face à decisão europeia anterior subscrita empenhadamente pelo Engenheiro Sócrates, a negociação em torno do TGV ruma agora, em sentido contrário ao da promessa eleitoral, para a concretização de mais uma originalidade portuguesa, a de que vamos ter um TGV em via única, do Caia ao Poceirão e de via dupla, para cruzamentos, entre Évora e Vendas Novas.
Um TGV de via única é de facto uma ideia peregrina e permitirá que os nossos horários de ingresso na Europa via grande velocidade percam a velocidade que se perderá pelo facto de só haver cruzamento durante aquelas dezenas de quilómetros que vão de Évora a Vendas Novas – será a tal Europa a duas velocidades de que se fala literalmente realizada, a metáfora tornada corpo ( a duas?)
Um comboio de alta velocidade parte de Lisboa a contar cruzar-se com outro nesse troço da linha entre Évora e Vendas Novas e calculando tudo para que seja assim, impedindo um regime específico de horário livre caso fossem construídas, como será lógico, as duas linhas autónomas. Não é por acaso que nestas coisas, nos países da Europa, se pratica a política das duas linhas, uma ascendente e outra descendente. É elementar a compreensão desta necessidade e fica claro, com uma decisão deste tipo que o efeito específico da crise, a política da crise, é o aprofundamento do nosso afastamento da Europa no mesmo momento em que a Europa também se afasta do que era e foi – é como se neste processo de integração praticássemos uma política do afastamento constante das metas europeias para a nossa própria vida pela via da suposta integração e que, com isso, na realidade, materializássemos a desintegração europeia. O esboço de integração motivado apenas pelo euro, como agora todos dizem, está longe de uma livre, maturada e necessária integração política, outro patamar de compromissos entre nações democráticas e solidárias – como se isso contasse para o que quer que fosse mais do que para alardeá-lo numa afirmação dos princípios sempre quebrada pelos pragmatismos servis.
É de facto uma estranha metáfora, a via única e cola com a da dívida, também vítima, do lado da solução da sua superação, de um olhar governativo que a reduz a uma via única, a dos cortes que trarão a regressão económica e não o crescimento e o aprofundamento democrático. Tudo se faz e inventa para que a redução do défice aconteça em nome de uns números que são completamente artificiais e se relacionam com empréstimos, com juros e especuladores, como sabemos e não com a produção de riqueza que liberta o crescimento e a autonomia de decisão. Somos um país doente de dependência e de servilismo. Esta da via-férrea única para o nosso TGV como metáfora do nosso modo de entrar na Europa, saindo dela, cobre-nos de um ridículo incomparável.
fernando mora ramos
Manu Chao
Les Wampas
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'a Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'a Paques
C'est beau la Normandie comme le dit maman tante Marie
C'est beau la Normandie comme le dit maman tante Marie
Mais si j'avais du blé je partirais bien loin d'ici
Mais si j'avais du blé je partirais bien loin d'ici
Souvent les soirs d'été
Souvent les soirs d'été
J'm'assois dans les champs de blé
J'm'assois dans les champs de blé
Je ferme doucement les yeux
Je ferme doucement les yeux
Et j'écoute les pommiers chanter
Et j'écoute les pommiers chanter
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques (Ouhh)
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques (Ouhh)
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances dans une super moto
J'partirais en vacances dans une super moto
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
Moi aussi si j'pouvais
Moi aussi si j'pouvais
J'irais bien jusqu'au Maexique
J'irais bien jusqu'au Maexique
Boire de la Tequila avec le Commandant Marcos
Boire de la Tequila avec le Commandant Marcos
Mais j'ai encore au moins
Mais j'ai encore au moins
5 hectares a labourer
5 hectares a labourer
J'remonte sur mon tracteur
J'remonte sur mon tracteur
Et j'chante pour m'donner du coeur
Et j'chante pour m'donner du coeur
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu Chao
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
J'partirais en vacances au moins jusqu'au Congo
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque de Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
Mais j'ai pas un beau chapeau comme Manu Chao
Mais j'ai pas un beau chapeau comme Manu Chao
Et j'irais en vacances seulement à St Lô
Et j'irais en vacances seulement à St Lô
Et j'ai pas de la classe comme comme Didier Wampas
Et j'ai pas de la classe comme comme Didier Wampas
J'resterais pour les vacances tout seul avec mes vaches
J'resterais pour les vacances tout seul avec mes vaches
Si j'avais l'portefeuille de Manu chao
Si j'avais l'portefeuille de Manu chao
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
J'partirais en vacances avec tous mes poteaux
Si j'avais l'compte en banque la Louise Attaque
Si j'avais l'compte en banque la Louise Attaque
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
J'partirais en vacances au moins jusqu'à Paques
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
A ilha
Esta dívida que agora se revela, entre muitas ocultações anteriores mais ou menos conhecidas, é o sinal de um conúbio estabelecido entre os poderes no continente e o poder na ilha, e existe como que uma prática aceite de facto por tradição consuetudinária pelos governos centrais que nunca agiram e que o devedor diz, para legitimar o ilegitimável, ter cometido em legítima defesa, como se o diálogo político fosse um duelo entre pistoleiros – a frase é esclarecedora e remete para inflamadas (FLAMA, assim se chama a estrutura guerrilheira de direita que exerce um poder oculto na ilha) ameaças anteriores de independência avulsas, ouvidas repetidamente na ribalta da política nacional quando o poder insular necessita da chantagem como forma de acção directa, a que nunca faltou um arreganhar armado dos dentes de fora. É gente que se exalta, e cospe agressões de teor soez numa linguagem inaceitável, quando lhe tocam no que, sendo público, gerem como propriedade privada. A Madeira é uma Região Autónoma gerida como um latifúndio privado, desde Abril. Quando se diz que na Região Autónoma da Madeira há um défice de democracia incorre-se numa imprecisão de consequências incontroláveis. Há défice no continente, isso sim, com a ausência de acção do poder judicial e com a promiscuidade entre os poderes e não há sequer democracia na Madeira, nuca houve, Abril nunca lá aportou. A democracia é o bem-estar geral como projecto em processo real e a liberdade de opinião e organização associados a formas de solidariedade coerentes, factores de coesão e estas qualidades da liberdade e do desenvolvimento real não são, na Madeira, factos de um quotidiano interiorizáveis – ninguém que lá vive sente democracia e todos falam de medo, excepto os que o fabricam.
Na Madeira, o folclore do poder de Estado agindo e a impotência das oposições parlamentares, de verdadeiro vão de escada organizacional, mostram como uma pequena região pode viver à margem dos princípios gerais de vida democrática e da coesão nacional. Quando a generalidade do emprego das pessoas depende do Estado Regional – só gorduras como diria o outro, se quiséssemos ironizar – e quando a liberdade de opinião não tem espaço e só se faz ler e ouvir em actos de coragem e resistência, estamos num regime que não tem nada de democrático e tudo tem do velho paternalismo cacique. Todos têm medo do desemprego e todos têm medo de expressar opinião divergente porque temem represálias, estamos cansados de o ouvir. No resto do latifúndio reina o casino e o folclore carnavalesco mais os fogos de artifício de novo ano velho.
Em qualquer democracia a revelação, e o assumir directo após a negação – o ziguezague de posições caracteriza a inconsistência da política e a consistência dos interesses, ou melhor a sua sobreposição como A política seguida - da ocultação de uma dívida, valor essencial para efeito de contas, locais e nacionais, levaria a medidas de punição que são as que derivam do lesar dos interesses do Estado. Uma dívida de 1113 milhões de euros assumida directamente pelo Presidente do Governo Regional levaria eventualmente, na base da lei 41/2010 sobre crimes cometidos por detentores de cargos públicos, a uma pena de prisão de até um ano.
O que se vai passar? Mais uma vez vamos assistir a um deixar andar do que é nitidamente crime de colarinho branco no topo da hierarquia do Estado? O Estado protege os seus para além de todos os limites? É-se inimputável por se pertencer ao Estado, ao poder? Este processo de análise anunciado pelo PGR só dá vontade de chorar. Mais um processo que vai levar não se sabe quanto tempo e que não vai concluir nada ou que vai esperar que o tempo resolva de modo injusto o que a justiça deveria julgar punindo. Este é um país sem rei nem roque. Este é um país que está a hipotecar o seu futuro concedendo aos poderes de facto espaços de manobra em tudo contrários aos princípios da democracia e à lei. É de facto altura para falar da necessidade de um sobressalto democrático. Se Abril se fez, outro Abril será possível.
fernando mora ramos
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Posts sábios (V)
Já perdi a conta à quantidade de vezes que oiço falar de "revolução silenciosa" para procurar desculpar o facto de não se estar a fazer nada de relevante ou o que se está a fazer não estar a produzir o efeito desejado.
Mariano Gago dizia que estava a fazer uma revolução silenciosa na Ciência e nas Universidades.
O programa Novas Oportunidades foi também qualificado como uma revolução silenciosa.
O programa de distribuição de frutas e legumes nas escolas também foi considerado uma revolução silenciosa.
A ida de Paulo Bento para treinador da selecção nacional foi igualmente vista como uma revolução silenciosa.
Também a antiga Ministra do Ambiente Dulce Pássaro dizia que tinha havido uma revolução silenciosa na distribuição de águas.
A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados foi também vista como uma revolução silenciosa ao serviço dos idosos.
Alguém deu por todas estas gigantescas revoluções?
Não querendo desmerecer a tradição das revoluções silenciosas em Portugal, vem agora Carlos Moedas dizer que o Governo está a fazer também a sua revolução silenciosa de que os portugueses infelizmente não se conseguem aperceber.
Imagine-se onde é que está a revolução silenciosa: numa futura revisão da Lei da Concorrência, que ainda ninguém viu, e numa reforma muito limitada do Código da Insolvência, já justamente apelidada como uma via verde para a insolvência. Neste último caso, duvido que a revolução seja silenciosa, pois, se alguma coisa que dificlmente será vista em silêncio será o multiplicar das insolvências em Portugal.
Era bom que acabasse este hábito de chamar "revolução silenciosa" a tudo e mais alguma coisa. A única revolução de que me lembro de ter assistido neste país ocorreu há 37 anos. E garanto que na altura toda a gente deu por ela.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Se o Alexandre me quiser dar uma mão...
ICI
domingo, 18 de setembro de 2011
Gigantes em era de cortes
Mas, a cartola das novidades está fértil, e em dia imediato surge a senhora com as maiores unhas do mundo, também num jornal de referência. Esta senhora exibia umas unhas em cornucópia e um mesmo sorriso a publicitar. O caso é no entanto diferente e mostra militância: tinha lutado por isso, o que não era o caso da senhora mamuda, pois a esta acontecera-lhe, desígnio dos deuses. E lá estava, a unhuda, no meio de um passeio de metrópole americana em danças inesperadas com as mãos e obviamente num êxtase de felicidade que extravasava a foto e nos contagiava, leitores incautos de surpresas, sabe-se lá se definitivas até para curar neuroses: quem muito concentradamente passar os anos necessários a ver crescer as unhas até seis metros – em dedicação exclusiva – ganhará por certo os céus da tranquilidade pessoal.
E a coisa não pára, já ontem surgiu a senhora da maior língua do mundo: nove vírgula setenta e cinco centímetros, também num jornal de referência, suponho que o mesmo diário de notícias aliás. O caso aqui muda de figura pois faz sonhar qualquer perverso moderado e aos imoderados cavalgar sensualismos sem cautelas. Se no mar das mamas da primeira senhora se poderia perder o pé, e se as unhas da segunda poderão estimular masoquistas, perder-se-á certamente a cabeça com um beijo a fundo da senhora linguuda – linguaruda é outra coisa. Nove vírgula setenta e cinco centímetros em riste ou mesmo em nó, língua dobrada, é para respeitar. Dadas as zonas de aplicação das suas virtudes específicas poderemos até pensar que é arma branca, letal e que é quase ideal para várias formas de asfixia. Eu vi a língua e sei o que senti, um arrepio não na espinha mas nas orelhas. Caía pelo queixo abaixo e este desaparecia formando-se uma estranha máscara, tudo era língua.
Não faço ideia da razão da proliferação de tais jóias noticiosas. Dado o peso do que no mundo é tragédia constante – e não era, a este ritmo – provavelmente o editor das graçolas está a ganhar espaço no acesso ao espaço noticioso. Corre-se, claro, o risco de fazer da referência jornalística o seu contrário, a referência para voyeur se estimular, não é por acaso que são todas senhoras e, sabe-se lá porquê, americanas, de onde vem a imaginação que importamos e onde tudo acontece.
O que é lamentável é que este governo que sabe que as exportações são o segredo da recuperação económica, ao extinguir um teatro nacionalzito não tenha criado um Instituto das Abencerragens Transaccionáveis no Espaço Virtual. Poderia começar por um levantamento das potencialidades das batatas do Entroncamento como Indústria Criativa – fértil também em tudo o que é legumes maiores para além da medida – e poderia em seguida exportar as nossas extraordinárias singularidades maiores, o Dr. Alberto João por certo.
fernando mora ramos
sábado, 17 de setembro de 2011
Posts sábios (IV)
«Um professor, quando não há dúvidas, é como um mono gigante que tapa a vista dos alunos, porque ler o que está escrito nos livros toda a gente sabe», afirmou o ministro da Educação, Nuno Crasso.
Foi por isso decidido que os professores que vão ser chamados para assegurar os horários por preencher serão contratados à dúvida. «Quando há uma dúvida, contratamos o professor, ele responde e depois metemo-lo logo na rua», esclareceu Crasso.
Já ontem à tarde, numa escola do agrupamento 4 da direcção regional de educação do sotavento, um aluno chamou “stôr” e foi contratado um professor naquele momento. O jovem queria pedir para ir à casa de banho, o professor contratado consentiu e depois foi corrido. «Funcionou muito bem», relata o ministro.
A única excepção a esta nova regra do Ministério da Educação será feita na Madeira, onde os horários das escolas serão preenchidos com 20 professores por sala, catering do Pestana, bailarinas russas e trapezistas.
ICI
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Glossário do javardismo bem pensante – treze entradas para um começo interactivo
2. O Javali bem pensante vai ali e já vem, com a sua licença, claro.
3. Um Javali a sério fuça no caviar quando pode e não tem remorsos.
4. O Javali é um defensor do elitismo para todos.
5. O Javali verdadeiro tem eira e beira, mesmo quando não tem eira nem beira.
6. Um Javali adulto come muito mais moderadamente e come também em diferido, por gosto da imaginação.
7. Um javali a sério bebe com tempo necessário e não corre.
8. Javali que corre imoderadamente é de uma outra casta, provavelmente ainda é leitão, mesmo quando o buço ou as brancas explodem.
9. O javali desconhece o stress porque planifica mas não se fica.
10. O Javali ama a sesta e a sexta, mas não seguidas.
11. O Javali gosta de observar a realidade do camarote mas não é por isso que menos corre a destapá-la ou mesmo a pontapeteá-la.
12. Um Javali que se preze vai uma vez na vida ao São Carlos mas não desce o Chiado sem patins nos olhos.
13. O verdadeiro Javali pasta no British Bar o seu tremoço amado e plana no Sodré as madrugadas a pensar na Rua Araújo e nas virtudes de catembar.
fernando mora ramos
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Do javali quando sentado
Como não fulanizar por vezes as coisas se a matéria é mesquinha, indaga o Javali? Há pinças para fazer a cirurgia do mesquinho ou isso implica meter um pouco as mãos na merda? Estas coisas pensa o Javali sentado. E meter as mãos na merda desvirtua ou faz crescer? Faz crescer, pensa o Javali e faz crescer mais que os flocos que também fazem crescer, os de aveia certamente, os do malte também, uma Guiness, ou mesmo uma canha alentejana, ou mesmo aquela aveia que faz o vinho e que é de castas tão infinitas quantas as mais que oitocentas referenciadas – é um mundo admiravelmente novo desde muito antes de Cristo. E se há afectos, obviamente pelos outros, o Javali é de um javardismo afectuso e sincrético, até um pouco entrópico – muito tropical também – é, sem dúvida, consistentemente amoroso. E muitas vezes é aí que perde a sabedoria e mete a pata na asneira – mas como viver sem ela, a bela asneira, a boa asneira, a asneira perfeita, caminho para o sublime que desce e sobe e ama por certo enquanto se perde. O desnorte também ataca os sábios. Não me refiro a uma sabedoria de erudição, mas a uma outra, a do balanço das porradas comidas, balanço prospectivo por certo, pois o outro sem perspectiva deixa em baixo, rebaixa, é de dar em molusco e molusco é coisa que não é. Se há coisa que o Javali não é também é de neuroses nem de regá-las. Mas é afeito a fumos e é na realidade num bom prato de tremoços que vê a sua bolota. No tremoço está a virtude, tal como na sombra do chaparro, esse ouro sem bolsa, estará a bolota, esse porvir no horizonte da mastigação. O Javali é omnívoro, disso não duvidem. E gosta de ópera mas frequenta pouco, é mais na banheira que gargareja os seus baixos contínuos, enquanto ensaboa – o mau cheiro é mesmo genético, pois é asseado, é filho da mãe. É um bicho que parece antipático mas é de uma simpatia estrema na longa duração. Como os patos traz a canalha atrás em fila indiana, mas ao contrário dos patos não voa. E se está sentado é porque está a pensar levantar-se. O espectáculo não está grande coisa, é necessário patear não só os videirinhos e as suas vidinhas, como os que confundem o que são com o que imaginam os outros ser por serem como são.
Relativamente aos poderes o Javali tem uma máxima: mais cedo ou mais tarde haveis de vos foder. Trata-se de uma fórmula de grande eficácia e clarividente, tem sentido pragmático e alcance temporal. Aprendeu-a um dos Javalis num café de Braga. Dizia o empregado de mesa para toda a sala depois de um longo pedido em alemão altamente declinado: “ides beber um vinho do Porto que vos fodeis!”.
fernando mora ramos
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Élucubrations
Antoine
Oh, Yeah !
Ma mère m'a dit, Antoine, fais-toi couper les cheveux,
Je lui ai dit, ma mère, dans vingt ans si tu veux,
Je ne les garde pas pour me faire remarquer,
Ni parce que je trouve ça beau,
Mais parce que ça me plaît.
Oh, Yeah !
L'autre jour, j'écoute la radio en me réveillant,
C'était Yvette Horner qui jouait de l'accordéon,
Ton accordéon me fatigue Yvette,
Si tu jouais plutôt de la clarinette.
Oh, Yeah !
Mon meilleur ami, si vous le connaissiez,
Vous ne pourriez plus vous en séparer,
L'autre jour, il n'était pas très malin,
Il a pris un laxatif au lieu de prendre le train.
Oh, Yeah !
Avec mon petit cousin qui a dix ans,
On regardait "Gros Nounours" à la télévision,
A Nounours il a dit "Bonne nuit mon bonhomme",
Il est parti danser le jerk au Paladium.
Oh, Yeah !
Le juge a dit à Jules, vous avez tué,
Oui j'ai tué ma femme, pourtant je l'aimais,
Le juge a dit à Jules "Vous aurez vingt ans",
Jules a dit : "Quand on aime on a toujours vingt ans".
Oh, Yeah !
Tout devrait changer tout le temps,
Le monde serait bien plus amusant,
On verrait des avions dans les couloirs du métro,
Et Johnny Hallyday en cage à Médrano.
Oh, Yeah !
Si je porte des chemises à fleurs,
C'est que je suis en avance de deux ou trois longueurs,
Ce n'est qu'une question de saison,
Les vôtres n'ont encore que des boutons.
Oh, Yeah !
J'ai reçu une lettre de la Présidence
Me demandant, Antoine, vous avez du bon sens,
Comment faire pour enrichir le pays ?
Mettez la pilule en vente dans les Monoprix.
Oh, Yeeeeaaaahhhh !
Capitais, culturais e europeias (3)
20. E em muitos casos certamente, a qualidade dos animadores vai fazer milagres, criar mesmo experiências de profundidade humana. Eu não me refiro aqui a muitos projectos que serão certamente bem pensados e com equipas capazes e sérias. Eu refiro o todo da iniciativa, o consórcio dirigente e o fundo negocial deste tipo de coisas e a sua falsa política de rastos úteis em prospectiva. Por detrás estarão muitos interesses empresariais, muita obra, muito mais determinantes do que quaisquer objectivos artísticos e culturais estruturantes, até agora não clarificados.
21. Uma análise profunda e detalhada das aritméticas dos montantes usados e em quê seria aliás de fazer, por razões de diagnóstico e de compreensão dos fenómenos. O que aliás rima agora com a moda única do corte, já que apenas podemos aprender, daqui para a frente, a fazer apenas contas de diminuir e somar é uma operação algo irreal, que não saberemos em breve o que é, em extinção como os pandas.
22. Só pela via de uma planificação integrada, local, nacional e internacionalizada e na perspectiva do enraizamento de uma nova vida cultural – e certamente de aspectos de economia pública e privada que lhe corresponda e não o contrário, se poderia caminhar numa direcção pressentida, absolutamente necessária – estas coisas têm de enunciar desígnios e metas. Assim, como é, à curtição seguir-se-á, como aliás é natural, a ressaca.
23. Para uma verdadeira mudança cultural europeia os prazos de realização de verdadeiros projectos de transformação nada têm a ver com eventos e pirotecnias, com falsas intensidades e fugas para a frente, zapping e fugacidade. Duração é a palavra, média e longa duração, os projectos europeus não podem coincidir com ciclos de poder assentes em dependências de lógicas eleitorais – dois anos para fingir que se faz qualquer coisa e outros dois para desfazer o que se fingiu organizando as baterias e a despesa para novo espectáculo eleitoral. Os ciclos de tempo das iniciativas estão de facto indexados por assim dizer a tempos de gestação sempre abortivos daquilo que se vende como sonho e isso deve-se de facto ao jogo da mobilidade das clientelas de poder nos poderes. Só o aprofundamento da democracia cultural trará lógicas democráticas de mobilidade social e novos poderes, poderes democráticos.
24. A transformação tem de ser inscrita num outro espaço e esse é o da memória, da memória cultural, artística e política, propulsora, futuro em acto. Nada se pode assentar sobre a inovação em abstracto, esse pseudoconceito que nada tem a ver com invenção e tudo com a superficialidade de uma lógica discursiva ecrã/maníaca, dependente do primado dos condicionamentos mediáticos. Com Sócrates inovava-se a torto e a direito, instante a instante, do Magalhães ao simplex e deste directamente para crise, como se vê e sente.
25. A Memória prospectiva, a tradição e a invenção numa dialéctica de contrastes positiva, pode abrir um caminho. Não nos faltam excelentes pensadores nem visionários esclarecidos do futuro, a Europa é rica dessa riqueza desprezada, o nosso problema é que estamos reféns da mediocridade instalada nos poderes, nos sistemas de poder, como mais uma vez agora constatamos, por via dessa classe média disposta a tudo, a todas as ginásticas e a pouca verticalidade. No pouco tempo de exercício do poder destes novos-ricos da política já lá vão quase oitocentos nomeados directos num total de cinco mil contratações. Imagino que sejam muitos e sei que são muitos considerando o afã desestruturador do aparelho de Estado, particularmente nas suas vertentes de assistência social, exactamente no mesmo momento dos contractos para a nova clientela.
26. Enfim, era importante que um projecto de reformulação deste tipo de supostos impulsos organizados, que dirão marcos de desenvolvimento cultural e aprofundamento democrático, considerassem ainda vários elementos decisivos de um qualquer entrosamento projectual com as realidades: a questão das linguagens e a alfabetização dos espectadores e as vias disso é essencial, não como técnicas, mas como formas vitais de compreensão, como capacidade de inventar o que se pensa e de agir com pensamento. Que isso pudesse acontecer não num quadro de nivelamento por baixo ou de generalização de vulgaridades, mas segundo um caminho que fosse elitista para todos, repito, elitista para todos, qualificado para todos, nivelado por cima para todos.
27. E não nos esqueçamos da língua, como húmus de tudo, riqueza feita de todas as diversidades, mas também e para mais com esta história do acordo ortográfico, como objecto de projectos, uns mais técnicos, mas muitos mais certamente de cultivo prático do literário.
28. Se assim fossem as coisas, a prazo longo, do Estado repressivo passaríamos à possibilidade generalizada dos estados estéticos e a GNR, Guarda Nacional Republicana, seria uma escola de artes.
(conclusão)
fernando mora ramos
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Excuse me?! / Pardon?! / Beg your pardon?! / What?!
A maioria das pessoas está genuinamente convencida que os pobres só o são porque querem — porque não querem trabalhar, gostam de viver de subsídios, do crime ou o que seja. O que dá muito jeito para se elevarem da sua própria miséria e mediocridade, comparando-se com um outro "feio, porco e mau". Paradoxalmente, toda a gente gosta de comparar os "vândalos" com outros que lá viverão, muito honestos, e que serão as "vítimas" dos primeiros.
Capitais, culturais e europeias (2)
10. Na realidade as indústrias criativas incorporam elementos artísticos na sua materialização e consumo, mas não são actividades artísticas, são formas de alargamento da economia a sectores e áreas da vida que surgiram em função de novas necessidades de consumo, de novas sensibilidades dos mercados, como dizem, fruto de diversas transformações, no plano das identidades e no plano da globalização e das suas fabulosas novas vias. Isso está estreitamente ligado ao que já chamaram capitalismo cultural, mas nada tem a ver com os discursos artísticos nem com a experiência artística, que não visa o lucro nem tem garantido por assim dizer um inevitável caminho de sucessos contabilizáveis. Sabemos aliás que a arte é composta das mais variadas tentativas de o ser, fracassadas muitas e muitas plenamente realizadas apenas na sua própria teimosa reincidência.
11. Eu nada tenho contra a Guimarães 2012, ou contra outra qualquer capital em si, tenho contra o modelo e o tempo, a forma e o que me parece é que estas realizações, com outros dirigentes Europeus que quisessem de facto outra Europa, uma Europa das culturas dos povos e das suas identidades complexas e diversas e não apenas da união monetária e da partilha do seu fracasso, seriam outras – infelizmente os povos não se batem por novas perspectivas neste tipo de realizações, estarão imersos na apatia, quando não no medo, ou porventura acumulam energias para explosões de violência social como as que têm estalado, e esperamos nós que em breve outras, de outros tipos, pois fazem falta.
12. Depois da ressaca do Porto 2001, amplamente reconhecida e em plena crise, é no mínimo estranho que não se pense o contexto desta capital, ou que se o fazem, nada digam, nada exponham, como se a iniciativa fosse da esfera privada de uma meia dúzia de pessoas, de empresas e de participantes. Onde está a dimensão cidadã do seu processo de concretização? Só assistimos aliás à exposição pública do que é pequeno e mesquinho.
13. Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, não apenas na capacidade de consumir – é um aspecto entre outros - mas no tipo de vida, mesmo nos direitos elementares, a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Não percebo, parece-me mais do que a política da avestruz, parece-me uma política de pequenos e grandes interesses convergindo na partilha de um bolo em que outros, mais famintos, também querem entrar – é o regabofe previsível, o fartar vilanagem possível em tempo de migalhas. O retrato imaginável é de facto, de uma tristeza profunda.
14. Mas a curtição estará aí, em doses de fluxo significativo enquanto durar. E serão doses das mais variadas e diversas experimentações e iniciativas de rua – muitas certamente: a rua é aliás e cada vez mais espaço de iniciativas da sua própria privatização no quadro de entretenimentos expressivos – ela está marcada pelos tais sinais constantes das marcas que a usam quando a usamos como se fossem um cenário obrigatório – a rua, enquanto espaço público, tende a desaparecer e este exemplo da Estação do Chiado é bastante significativo. Por vezes uma busca irreflectida do que será eventualmente massivo, número, quantidade necessária, uma lógica que no fundo separa as elites dos outros, arrasta esta colaboração ingénua do artista com o manipulador “oculto”.
15. E isso é que é importante: que o fluxo e a velocidade das coisas não pare, que a capital não pare, que tudo o que seja reflectir sobre caminhos e possibilidades é outras coisa e é certamente reacção à excelência da curtição por vir. É o que dirão de quem criticar apelidando a crítica de criticismo, de velhos do Restelo, etc., e criando para a iniciativa uma espécie de estatuto de inimputabilidade, dada a marca Europa, de facto para nós associável a maná. Para nós? Para quem? E os êxitos somar-se-ão até que o balanço venha pôr as coisas no sítio, atrás, no antes que supostamente pedia o depois que veio e não foi e que, na realidade, nunca será enunciado com a clareza de um objectivo global, íntegro, vimaranense e nacional, europeu e lusófono, internacionalizado e local, glocal como alguém com imaginação inventou.
16. Mas não seria de reflectir sobre as contradições gritantes das nossas realidades, das nossas necessidades? Uma capital nada terá a ver com o desemprego que cresce, com a regressão das nossas capacidades de auto sustentação económica, com o aprofundamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com a violência doméstica, com os problemas complexos do nosso universo escolar, com a precariedade dos artistas, com o asfixiamento das estruturas de criação? Passará ao lado disto tudo para se dirigir para onde?
17. O caminho de um entretenimento globalizado, uma industrialização do entretenimento, eis o que temos aí, no mundo inventado pelos poderes que nos governam, maioritariamente conservadores, mesmo reaccionários, que tem nos entretenimentos a chave do seu êxito governativo, novos ópios do povo.
18. Capital da crise, poderíamos dizer, certamente se a considerasse até como móbil, e o que vai ser? Vai ser a expressão da abundância da diversidade do mesmo: as máscaras do diverso, as embalagens e o mesmo ao serviço do mesmo, o imobilismo, o capitalismo selvagem na cultura – não singularizo projectos, tento imaginar o fluxo da contaminação de tudo e a velocidade imparável das realizações, como se sabe que é.
19. Assistiremos por certo a uma aliança alargada entre o kitsch, o mundo rápido dos workshops e as mais variadas estratégias de animação: animação para crianças, para adolescentes, para mulheres, para velhos e mesmo para desempregados, para marginais e para deprimidos, numa espécie de nova caridade assistencial criativa plena de interactividades.
(continua)
fernando mora ramos
domingo, 11 de setembro de 2011
Posts sábios (III)
O segundo trimestre do ano apresenta uma quebra do consumo privado como não há registo nas estatísticas nacionais, o mesmo se passando com o consumo público. Tendo, por outro lado, em conta que o investimento caiu igualmente (como não poderia deixar de ser), o destino da economia, no “bom estilo” da ortodoxia neoliberal, ficará exclusivamente entregue à sorte das exportações.
Como, porém, as exportações dependem mais da conjuntura económica internacional do que das “virtudes” de quem exporta, é de prever, face ao afrouxamento da economia dos Estados Unidos e da União Europeia, inclusive de uma provável recessão, o pior para os portugueses.
A brutal carga de impostos infligida aos contribuintes corre o risco de nem sequer, no plano puramente formal, cumprir o objectivo a que em teoria se destinava: reduzir o défice em 2011 para 5,9%, já a quebra das receitas será de tal ordem, por força da diminuição da procura interna (de certeza ainda mais acentuadas nos dois últimos trimestres), que inviabilizará aquele objectivo.
Aliás, os sinais de alarme estão por todo o lado. O BCE que ficará na história por ter subido a taxa de juros quando se desencadeou a maior crise económica depois de 1929, voltou, há pouco tempo, a incorrer no mesmo erro por temer uma pretensa subida dos preços numa conjuntura em que a situação dos países em crise da zona euro exigia uma política exactamente oposta. Ontem, Trichet já veio dizer que os juros não subiriam, decisão que mais não é do que a constatação de um falhanço: a incapacidade de as políticas de austeridade impostas na zona euro conduzirem ao crescimento. Claro que a decisão de BCE não foi tomada para não prejudicar ainda mais os países em crise, mas por nas grandes economias (a começar pela Alemanha) já haver também sinais muito evidentes de desaceleração económica.
Entretanto, a Grécia parece recusar-se a cumprir o estúpido programa de austeridade que a Troika lhe impôs…por já ter chegado à conclusão que ele apenas acrescenta recessão à recessão. As ameaças logo se fizeram sentir, por parte a Alemanha e da Holanda, a ponto de pela primeira vez se ter falado, oficialmente, na saída da Grécia do euro.
Espera-se que a Grécia resista, que não ceda, deixando levar as coisas à beira do precipício, por haver a antecipada certeza de que o “tombo” não será igual para todos: os mais fortes cairão de mais alto…
De facto, ninguém na UE pode impor a expulsão do euro. O que poderia acontecer, se à Grécia não for emprestado dinheiro, é que ela entre em bancarrota. Só que se tal acontecesse, o euro teria também os seus dias contados.
Oxalá a Grécia resista e dê uma lição aos lacaios da alta finança e aos servis “bons alunos” que já tudo perderam. Até o respeito por eles próprios…
Capitais, culturais e europeias (1)
2. É claro que a primeira questão que surge é a da separação que é desde logo feita entre a crise e a curtição, festa seria ainda outra coisa e não artifício e as festas de tão fabricadas como espectáculo – uma forma de poder certamente – são um bem em extinção. As dificuldades da alegria comunitária são contraditadas pela atomização das relações, pelo isolamento, pelo anonimato, pela solidão no meio da massa e a festa massiva vive de muita energia irracional gasta como forma de consumo massivo. Como estamos hoje é como se a meio de uma guerra civil fosse possível sobre os corpos das vítimas transformar os rituais fúnebres e o luto em marcha pela via da crise em celebrações de futuro simulado, realizadas por manobras de marketing associadas às imagens de marca de empresas que as quisessem por assim dizer produzir, como agora sucedeu na estação da Baixa-Chiado a PT Bluestation, certamente ganhando pelo nome um estatuto globalizado e até nova-iorquino – os baptismos não são neutros e vendem imagens e na imagem supostamente habitamos, figurantes de uma realidade sempre virtualizada pela publicidade, consumidores da religião das marcas e da imagem das empresas.
3. Na realidade o que estamos a viver é um descaminho e não um caminho europeu, se com Europeu queremos dizer algo relacionado com as matrizes culturais da Europa, desde logo a cidade grega, o teatro e a política indissoluvelmente associados na mesma praça, as tradições positivas e potência de futuros possíveis da história da Europa, a Revolução Francesa e as tentativas populares de criar outro planeta nos inícios do século XX, a democracia reinventada no pós-guerra, o Estado Social, o melhor das sociais-democracias. Tivemos aliás sempre a capacidade de também sonhar com as experimentações sociais de outras áreas do planeta.
4. Se pensarmos, por outro lado, que Europa quer dizer, muito mais que os actuais epifenómenos de natureza criacionista de tipo para-artístico nos casos da arte e da cultura, desde logo viajamos nas narrativas fundadoras do humano no continente Homero e certamente em Gil Vicente, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Tcheckov, Beckett, Tabori, Pina Baush, e Barker – o grego vivo mais grego de todos nós - e no pós guerra, nas democracias reemergindo como políticas públicas artísticas com expressão orgânica institucional, e nestas os Berlineres e os Piccolos, os museus de todo o tipo, as escolas de artes, a arte no espaço público, a descentralização das estruturas de criação, a regionalização das condições de criação, etc., os novos programas de alfabetização artística e os novos equipamentos, uns e outros a par nesses tempos de projectos pensados em articulação e sinergias, ao contrário dos nossos em que para as arquitecturas novas não há programas culturais prévios, há dinheiro que se esvai nop meio de múltiplos discursos, constantes, sobre a rendibilização da cultura e das artes, veja-se o caso lamentável do CCB. Sempre que ouvirem esta palavra, rentabilização ouçam despesismo, o que eles acusam os outros de fazer.
5. O que poderemos constatar é que as políticas que se sucederam a estas do pós guerra e que dão corpo a este tipo de projectos como as capitais, do tipo festival e mais ou menos longos na sua lógica temporal sempre curta, são a favor do fenómeno, da excepção, da excelência fugaz, mas nada de excelente criam que crie excelência por assim dizer permanente, como um bom solo cria um bom vinho – nada se enraíza num ano e normalmente os programas destas capitais só fingem os antes e os depois como algo estruturante, porque depois já não há dinheiro, apenas houve para a obra, mas não haverá para a vida, para habitar o edifício, o edifício é aliás feito de simulacros.
6. A democracia não se aprofunda, as artes não se inscrevem, as cidades tornam-se montras de consumo para turistas rápidos que as coleccionam em fotografias intermináveis – ele há mesmo vilas que se convertem em cenários, são desabitadas e os poucos habitantes são como animais exóticos, figurantes empregados de um zoo patrimonial a que os outros trazem a moedinha. No zoo de Lisboa, na minha infância, depois da moeda, o elefante tocava o sino e estava sempre de uma pachorrenta tristeza, na realidade sonhava com a savana.
7. Estas capitais são justamente sistemas de ilusão na produção do novo, são formas de o mascarar. São máscaras do novo, dado que o novo pouco tem a ver com a constante inovação dos seus aspectos – o que o design, esse fiel servidor do marketing, cumpre – mas tem a ver justamente com o surgimento do que não está pré-definido como aquilo que é a formação do gosto, ou dos gostos e não a sua formatação. O novo não se anuncia, nem se autopromove em publicidade, muitas vezes leva décadas a ser parido com expressão social, assim aconteceu com livros determinantes ou com as publicações de Pessoa em vida – um novo certamente muito complexo e por muito que o queiram, dificilmente convertível numa qualquer moeda de troca como acontece a muito objecto que se assume artístico, particularmente na ordem do que é hiper-visível e pleno de pirotecnia fugaz: quando se vai por eles já lá não estão, como a maioria dos espectáculos do tipo performativo que justamente radicalizam a sua instantaneidade e a sua inutilidade expressiva, a sua fugacidade.
8. A tal sociedade do hiper-controlo de massas estará aí. Eu não percebo muito disso mas parece-me que esta caracterização tem tudo a ver com a esfera da recepção e com o sistema que a alimenta, com o consumo é claro e com as marcas a assumirem o jogo da diversidade e da pluralidade vestindo com esses fatos o que é negociado e mercadificável, fazendo-o manipulando tudo o que tem a ver com os nossos medos, convicções, fantasmas, diria, com os nossos eus, com os narcisismos e os desesperos. A publicidade não tem fronteiras, ao contrário da arte que persegue objectivos éticos nas práticas estéticas, ou deveria fazê-lo, tentá-lo, por vezes em ambiente de contradições que sangram.
9. Esta história agora recorrente das indústrias criativas, como uns dizem ou das indústrias culturais, como outros dizem, é uma coisa que me parece simples e que se relaciona, como foi sempre aliás, com a incorporação de elementos criativos nos objectos de consumo e digamos nas nossas experiências sensíveis presenciais mais ou menos massivas. A IKEA é uma indústria criativa, como será de uma outra forma a Colecção Berardo: o que significará a utilização de um espaço público sofisticado, único, pela colecção de artes visuais de um especulador privado? Eu não me refiro ao valor artístico das peças consideradas isoladamente e porventura imagináveis noutros contextos de fruição, refiro-me ao facto de a colecção estar exposta numa espécie de cofre visível estatal como um investimento de um banqueiro que dela se apropriou, e o que essa situação significa objectivamente: um aumento do seu próprio valor como valor dinheiro, como negócio futuro, já que a colecção, não está dito que se venha a converter num bem público. O CCB é a montra pública de um investimento privado cuja valorização se acentua por esse facto. É um negócio pois produz lucro a prazo e fá-lo num contexto em que é o Estado a promover e incentivar a prática especulativa. É, sendo uma colecção, uma forma de a fazer render num espaço que é nosso. O CCB será nosso?
(continua)
fernando mora ramos
sábado, 10 de setembro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Locomotive d'Or
CLAUDE NOUGARO
Locomotive d'or, aussi riche en pistons,
Aussi chargée d'essieux que de siècles un sépulcre,
Locomotive d'or, croqueuse d'un charbon
Plus fruité, plus juteux que l'est la canne à sucre,
Locomotive d'or,
Sans un soupçon de suie, sans une ombre de lucre,
Tu me fis visiter tes Congos, tes Gabons,
Tes Oubangui-Chari et tes Côte-d'Ivoire
Où de blancs éléphants m'aspergeaient de mémoire.
Locomotive d'or.
Je reluquais le rail, assis sur ma valoche
Et l'horloge vaquait dans l'espace vaquant,
Le silence avouait quelque chose qui cloche
Quand soudain retentit la clameur de Tarzan,
Quand soudain j'entendis un autre son de cloche,
Tu arrivais enfin du fond du cœur du temps,
Tes plumes de vapeur sur ta face de tigre,
Tes faisceaux de sagaies, tes boucliers de cuivre
Locomotive d'or.
Locomotive d'or, de bondir à ton bord
Me donna même joie qu'au sexe de la femme
Mon corps ne m'aidait plus qu'à survoler mon corps,
Ma chair devint esprit, et mon âme Tam-tam,
Tam tam, tam tam, oui oui, tam tam d'âme,
Partout, dedans, dehors,
Et de toutes ses dents, succulene banane,
Kenny Clarke riait comme un enfant s'endort.
Comme un enfant s'endort,
Comme un enfant s'endort,
Kenny Clarke riait comme un enfant s'endort,
Comme un enfant s’endort ayant vu le miracle,
Comme un enfant s'endort dans l'œuf ailé de Pâques,
Dans l'amour tournoyant.
Locomotive d'or
Tout le monde va descendre dans la gare divine,
Dans la gare divine, le chef de gare est aimé,
Dans la gare divine la locomotive d'or va souffler,
Comme un enfant s'endort.
La locomotive d'or.
Comme un enfant s'endort,
La locomotive d'or.
Epílogo lírico dividiano
Que não seja sintético e não como a cobra
Entre silêncios seguindo num erotismo consagrado
Subindo rios de tempo e aves ligeiras
Em estranha fórmula rastejante
Cobra metafórica ou fálica forma?
E mais que somos
Diante da árvore
Deitando dólares nas raízes e bebendo aos deuses
A última canha do descaminho
Buscando humores amainada trégua
Exorcizando fantasmas
Respirando um tempo de outros tempos
As raízes respondendo emaranhando-se
Longe a erosão do visível
Na humidade interior o ser
A possibilidade da pétala
Dessa matéria que o vento consome
São as imagens das coisas que nelas desaparecem
São peliculares e sorriem sempre
Na plastificação constante do implastificável
Mesmo as horrendas intrigas de um comércio de emoções
Que não dá folga ao nosso amor imbricado
Florescem de hora de ponta em hora de ponta
Cobrindo as colinas de exterior cegante
Que tempo pára para ser outro
E quando e se parasse que instante fosse
De carne plena
E se pudesse acertar pelo ponteiro distraído de um relógio cósmico
As pulsões do que é vital
E as luas nesse tempo azulassem ténue
Entrassem como quem vai à escola da infância na mala do primeiro dia
Umas luas balbuciando as primeiras letras
Na luz frágil dos quartos crescentes que minguam
Luas de bolso aquecidas a pilhas de inteligência emotiva
Céus de mão na mão movendo-se em planos inclinados
Nas encostas de um sopro de barro e anilinas
Nada de tripas ao vivo nas estradas desérticas de um ponto perto de Gábu
Como eu vi e não creio ter visto
Nos dias que correm comem-se outras inverosimilhanças
Vi esta carne espalhada à beira dos trilhos dos jipes
Quem disso fala inverdades espalha
E revela o que deve esconder em nome da civilização talvez
E não canta o devido feito contra a dívida marchando
Que de cruéis odores a distância nos protege
E se os caviares da angústia se revelam em horas propícias
Na entrecortada percepção
Não falemos de vítimas
Falemos de aritmética
Sempre é mais asseado
Não há moscas a cirandar pelos números do desespero
E estes não fazem mossa a quem os manobra
Com perícia assassina
Como pode uma paisagem
Que é paisagem cravada na vista
E esta ser um postal
O início da entropia inaugurar
Se ela própria está por assim dizer
No cerco da sua própria autoria
Fechada a interpretações mais que a mão que a fez e desfez
Quanto mais se vê mais se imagina
Entremos numa espécie de epílogo da humanidade
Abençoados pela média da tal classe que a nomeia
E fazendo a vénia esperemos que o veludo se feche sobre
As pulsações em expoente com o estertor da cinza recomeçando
O que for de recomeçar como a tal Fénix
Ou a puta que os pariu
Emílio Navarro Soler
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Où est ma petite fleur ?
O Administrador francês (não confundir comigo, que não sou francês) telefonou-me ontem, muito preocupado, a pedir novas da sua “petite fleur”. Disse-lhe que não sabia e deixei-o com o Sidney Bechet.
Hoje vou ter que lhe dizer que recebeu um ultimato britânico. Se bem conheço o homem, que não pesca uma de inglês e me vai pedir para traduzir, ouvido o rol de exigências, vai enclausurar-se.
Pedrouços
As margens estão todas feitas pedra e betão, construção, porto e monumentos, armazéns, restaurantes, espaços verdes, bancos de jardim e papeleiras. A política ribeirinha é a da restauração e espaços verdes, nuns come-se nos outros digere-se. Nem um pedaço de areia a não ser lá para a Cruz Quebrada, a água mal cheirosa da Ribeira do Jamor a chegar cantarolando dejectos á vista desarmada. Como poderiam as ninfas sobreviver. São tão sensíveis primo as ninfas, não aguentam betão nem têm filtro de reciclagem dos esgotos incorporados nas guelras invisíveis e nadam sem esforço, deslizam de sensibilidade, não dá para acreditar só imaginar, parece mesmo milagre, o milagre que não vi em Fátima estou a imaginar no Tejo, aqui mesmo ao lado da Torre, tão bonita.
Chamava-lhes o da pala tágides, não era? Esse da pala não tinha olho mas tinha os dois tomates no sítio e lixou-se, morreu à míngua foi o que disseram os camonistas – alguns chamam camionistas, estava num jornal dos tempos que me passou pelas unhas: congresso de camionistas. Sabe que o da pala esteve na ilha? Esteve lá muito antes do Alexandre Lobato, esse foi depois, já havia riquexó, lembras primo? Estás a ver no livro do Lobato, o primeiro?
Essas ninfas eram uma espécie de equivalente das sereias mas eram de água doce, território demarcado no Tejo, as ninfas gregas eram do Egeu, de água salgada e outras dos mares das ilhas, ilimitado mediterrâneo e etcétera que os mares não têm fronteiras precisas – como pôr alfândega em coisa que não pára e muda sempre de tamanho e força e por aí fora? E que serve alfândega em assunto de coração desalmado e carnal?
Isto é um rio a sério primo e vale bem a baía de Maputo, a nossa baía, aquela que olhávamos da janela da Brito Camacho e mostrava Catembe ao longe, nos tempos, as casuarinas conhecidas de memória a serem colocadas pela memória no limitado da vista e logo ali, à beira da nossa janela, as barreiras, os esconderijos para fumar os caravela de enfiada antes de suruma chegar com as suas paisagens de riso e ritmo e odor e sonolência fantasista.
Lembras primo quando a gente descia até ao barco para a Catembe? E passávamos no Varietá – que nome primo, Varietá, extraordinário. E a COOP e o Comércio do Funchal, o pasquim cor-de-rosa, oposição cromática e libertação simbólica. Lembras primo? Pois o Tejo trouxe-me esses nos tempos. E tem Torre de Belém ali perto, um brinquedo de pedra clara que parece querem fazer restaurante – país da restauração, não da restauração aquela de mil e seiscentos e que tu gramaste também, mas a outra, a dos frangos de aviário. Claro fazer restaurante na Torre em Belém era para fazer Restaurante de caviar em secretos de especiarias com porco preto criado nos cantos do vate e alimentado a alexandrinos – parece que senso comum do mais velho não deixou. Sabes o que é estranho, é que tem heróis do Ultramar mas não tem Camões, nem tem Pessoa – Pessoa só está de ferro no Chiado mas coitado está sozinho, sem os heterónimos, esses até podiam ser de madeira, ou de pedra sabão, ou de outra coisa mais ágil que ferro - com as proporções devidas ao génio primordial da imaginação, da criação, essa pátria em que não se marcha nunca, nem aos sábados e em que só se cultiva a ficção de um porvir à altura da descoberta, do verdadeiro novo e o socialismo erótico das macuas do msiro em movimentos de dengosa iluminação carnal.
Benjamim Saguate, na capital do ex império – escrito de acordo com o ortográfico cantar das ondinhas do rio
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Notícias do PREC (processo de regressão em curso)
Desde que as formas de um futuro diferente – não só o presente melhorado mas diferente, tendente à realização histórica efectiva da liberdade, da igualdade e da fraternidade - se enterraram com o fim das lamentáveis realidades socialistas, que o identificar destas com a utopia possibilitou de facto, o voo do debate acerca da construção de outra sociedade vem-se restringindo a núcleos de pensadores com território demarcado, brilhantes mas por assim dizer muitos deles remetidos para um estrelato de pequena escala que lhes retira pela fama o que o arrojo do pensamento possa realmente ter de novo – também eles são vítimas da conversão em show do que constroem com “potência sísmica” e o pensamento perde o veneno positivo, fica descafeinado, é consumível, daí a importância do subterrâneo “toupeirismo”, da construção dos labirintos e do invisível articulado, como defendia o Senhor Onde, personagem de Vinaver e um outro de Michel Foucault, nas suas lições do Colégio de França no interior da peça Borda Fora, extraordinário texto.
Na verdade um pensamento que possa introduzir nos cidadãos um desejo generalizado de mudança para diferente e melhor, tem de sempre fazer as provas das suas virtudes passando pelos filtros da verdade estabelecida no sistema estruturador do próprio imobilismo do presente – agora amplamente regressivo - sempre alternativo a qualquer perigosa mudança.
Este clamor pelas classes médias é muito revelador. Corresponde à percepção de que este não é um governo moderado, de que nenhum valor social-democrata os comove. A governação não passa de uma engenharia financeira aplicada ao conjunto do sistema, da saúde à segurança social, da educação à segurança – aqui com mais folga – do consumo ao Estado, que emagrece por um lado e engorda por outro num passe de prestidigitação mediática.
Média quer dizer média, isto é entre alta e baixa. Média e medíocre não andam longe, pois à média não corresponderá a tal excelência, que só pode coincidir com a noção de alto, de topo, embora na boca dos defensores da classe média a excelência esteja sempre na ponta da língua – em qualquer visão elitista a excelência será para uns poucos e a ideia de um elitismo generalizado a todos não é imaginável. Portanto estamos perante uma ideia que é a de manter o médio como paradigma. Paradigma obviamente virtual, este da classe média, porque as categorizações genéricas não dão conta mais do que daquilo que é estatístico e a estatística não fala das singularidades substantivas mas, por assim dizer, das exterioridades quantificáveis.
Estranho que ninguém fale das classes baixas e que se fale agora dos ricos como contribuintes, para uns dizerem cristãmente que devem pagar mais e outros que isso ataca o investimento, outra vaca sagrada pela qual nada fazem pois nada mais fazem que gerir a dívida em sede orçamental, esse amanhã que não canta. Quando a preocupação se centra na tal classe média sabemos que a questão tem uma identificação com poder aquisitivo, pacotes de compras e modos de vidas estandartizados, com uma padronização total dos comportamentos sociais e sabemos que isso foi sabiamente designado como sociedade hiper-massiva de controle. É onde estamos. É extraordinário fixar como meta de uma sociedade a estabilidade da tal classe média quando se põem de rastos todos os sectores das classes laboriosas, se proletarizam por exemplo os professores e se exportam jovens licenciados. Para não falar do número de desempregados galopante. Serão desempregados da classe média? Ou não entram nas contas a não ser como uma variável numérica?
fernando mora ramos
domingo, 4 de setembro de 2011
Carta da da Rodoviária de Caldas para Xico Nem Saguate meu reprimo sempre,
Benjamim Saguate ainda nas Caldas sulfurosas
sábado, 3 de setembro de 2011
A invisibilidade da dupla transparência
Felizmente esse Abril distante, de paisagens intocadas pelo betão, sem estradas e com burros simpáticos pelos caminhos – oh como era lindo o Algarve, e era de facto e a Sofia de Melo Breyner fala disso de modo sublime, falando também do ditador do modo que se sabe -, país de carreiros ainda e de agricultura de subsistência em muitas paragens e interiores, de analfabetismo como tipicidade vendável, não regressará, nem as amendoeiras em flor, já não há espaço de onde se possam olhar, as carroças não existem e a prostituição encartada e de meio alterne expandiu-se em turismo. A urbanização caótica, o turismo do betão e a integração europeia, o consumo como modelo, transformaram Portugal no que é, uma periferia sem capacidade própria de autosustento, dependente das migalhas e directivas da Europa alemã, o seu centro manobrador imperial. Estamos entalados como nunca e não temos para onde ir que não seja por iniciativa pessoal, de novo emigrando, já que se somos país da dívida não seremos exactamente Europa e a política nada desenhou de dimensionado no espaço lusófono, por exemplo e nunca se concretizou e planificou a sério uma política da língua no quadro de uma transformação cultural profunda. Novas formas de analfabetismo estão aí, tanto pela via da escola do facilitismo, com Bolonha a marcar como objectivo o “desconhecimento” e a ligeireza de saberes, fornecendo licenciaturas como quem tira a carta de automóvel – os miúdos licenciados vão para caixas de supermercados e para os Call Centers – como pela via de uma hipertrofia das práticas e vivências do consumo.
Não será estranho, no meio disto, que Vasco Graça Moura e Marques Mendes, seniores da política e por assim dizer, maratonistas, venham chamar a atenção para as subidas de impostos que aí vêm contra as promessas eleitorais. A classe média não aguenta. Será que essa classe média já os toca e por isso falam? Mesmo Mário Soares, estranhamente cordato a dar lições em Universidades de Verão com grandes horizontes de saber, diz que nunca imaginou que se fosse tão longe no ataque à dita classe média. O que é curioso é que se fala apenas de um erro governativo estranho: não será a palavra falsa que importa, dizer que não se faz em clima eleitoral e fazê-lo governando, o que importa é que há um défice de explicação ao fazer o contrário do que se disse, há necessidade de explicar porque se mentiu e basta. Eis a verdade: é uma questão de enquadramento. Na realidade não sei porque protestam, tudo tem sido muito transparente, duplamente, na Net e em papel, tão transparente que de transparente atingiu a invisibilidade, a forma própria da verdade conveniente. Afinal, no meio disto, as tais nomeações de gente que não são boys nem girls atingiram os setecentos e sessenta nomeados segundo o Diário de Notícias, pois as listagens reveladas afinal não revelam os números totais. Bons tempos para a verdade dançar. E a falta que faz.
fernando mora ramos
Quand vient la fin de l'été
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Crítica da punheta em clima de águas santas
Da Manhiça na Europa low cost – viajei no trem - parei nas Caldas da Rainha e não tem rainha, tem rainha de pedra fumado por escape de automóvel na rotunda mais feio daqui de Norte a Sul, que é metrópole nos tempos e rectângulo agora, dito Portugal mas dito também Europa porque tem euro mesmo se tem crise maior que Europa que já tinha Europa antes de ter euro – essa Europa antes era mesmo Europa, agora está ficar sucursal do que era. Terra piquenino este Caldas, piquenino mental pessoa, mal cheiroso, gente que parece ovo mole ou gente seca tal cavaco das Caldas que é como o Cavaco de Boliqueime, seco. Cheiro que tem não é de pessoa que cheira, que pessoa cheira bem como Lisboa excepto a que cheira mal como também tem nós de catinga de esforço e quilómetro na perna, muito quilómetro, mesmo que de chapa que é esforço porque vai como parte do cacho e é circo, esforço e não desforço.
Aqui também produz gás de sovaco, cheira Lisboa diferente é cheiro cantado, fado, aqui não, é mesmo cheiro de águas benzidas. Água benzida cheira a santidade e santidade não toma banho porque santidade não sabe nadar e então deita cheiro que +é mistura de incenso cristão com naftalina mouro. Qual santo toma banho? Conhece? Virgem Maria toma banho, viu na escritura? Quando? E São Pedro abandona a porta do céu para ir ao banho? Nada, já veio com banho ao mundo, vem com banho tomado, foi Deus. A Virgem também. Santo cheira como pessoa não é santo é falso santo, santo mesmo está imune a cheiro, não cheira a nada, só cheiro de santidade – não diz assim? Santo tem sovaco virtual, deus e santo sem banho cheira genuinamente como sovaco solitário cheira genuíno, mas a conclusão é que não é santo é falso santo, é burlão, falso deus, deus com dêzinho, e esse vende tudo falsificado, mesmo uísque de missa.
Estou pasmado: aqui bacalhau tem punheta, quem que acredita? Depois de ver gaita de todas as forma, nunca tinha visto assim, gaita copo, gaita fórmula UM, gaita garrafa, gaita bolo, gaita gaita, gaita com fole, gaita suspiro – todo mesmo açúcar, branco creme – gaita em manto de frade com racha na santidade da roupa, gaita aperaltado de caracóis, gaita com pilha, gaita mole, gaita foguetão, gaita narina, etc-gaita, vi punheta de bacalhau. Sabe espanto como é? Espanto daquele mesmo que parece sai olho pelo cérebro? Foi o que veio. Não é mesmo punheta como aí na Manhiça, autogerido. Esse punheta é fiapos de bacalhau cru em cama de azeite com alho? Será possível. É mesmo. Alguém explica? Ninguém, nem enciclopédia, nem internet, nem globalização, nem Aristóteles, nem o era-clito, aquele que tinha muita dialéctica e morreu de antagonismos.
Sabe o compatriota que eu fez? Uma acção de marketing pela figuração em barro preto da gaita caldense.
Benjamim Saguate nas Caldas / Verão de 2011 que só chove